O aroma do amor – conto de Amor e Sexo

Após ser espancada pelo marido, Maricy perde a visão. Uma comadre a socorre e lhe arruma emprego no bar de um bordel na estrada Belém-Brasília

Maricy sofre muito nas mãos do marido
Foto: Getty Images

Chorei durante muitas horas até que minha comadre me levasse ao posto de saúde. Com as mãos sobre os olhos doloridos e uma dor ainda maior no coração, caminhei cambaleante rumo ao único médico da comunidade. “Ele te bateu de novo, né?”, perguntava Justina, amparando-me com seu braço roliço e queimado pelo sol do cerrado. Soluçante, não conseguia responder. “Eu não tô vendo nada”, murmurei. “Nada, Justina!”, completei, em pânico.

Fui guiada até um lugar, que, pelo cheiro de limpeza, devia ser o posto de saúde. Ouvi uma voz familiar. “Maricy, o que foi dessa vez?”, quis saber o médico, afastando minhas mãos do rosto. Quando finalmente os examinou, soltou um suspiro de preocupação. “Você não enxerga nada?”, perguntou. Acenei negativamente com a cabeça. Era a oitava vez que Josué me batia naquele mês. A história de sempre: ele bebia, achava que eu estava de chamego com outro e descia a mão. Ele era pesado; eu, magrinha e fraca, talvez até desnutrida, já que a comida era sempre escassa lá em casa.

Agora, estava cega. Sozinha. Sem homem, sem mãe nem pai, já mortos pela miséria que nos castigava. Filhos? Perdi três. Agora, só minha comadre podia me fazer companhia. Mas ela tinha seus compromissos. “Maricy, o que você vai fazer agora que esta ruim das vistas?”, perguntou-me minha colega, ajudando-me a pôr a roupa. Balancei a cabeça. “Conheço um lugar onde você pode ficar, quer dizer, não sei se você vai querer…”, falou. Mexi os ombros.

“Na beira da Belém-Brasília, tem uma casa de descanso dos caminhoneiros… Você sabe, casa das pombinhas. Você pode ajudar a dona Xica no bar. Ela é conhecida da minha tia e, se eu falar de você, ela aceita”, disse. “Mas estou cega!”, respondi, desesperançosa. “Vou ao orelhão ligar para ela e já volto”, falou, antes de me largar sozinha no meu novo mundo de escuridão. Me deitei na cama de palha e adormeci por alguns minutos até que Justina voltasse. “Vou te levar lá amanhã, amiga”, falou empolgada. Mãos ásperas e grossas tocaram meus ombros e me levaram até o lugar. Ouvia várias vozes femininas me cumprimentando.

“Eu preciso de alguém pra ajudar a servir no bar. Você consegue sentir o cheiro das bebidas e distinguir o que é cachaça do que é conhaque?”, falou, rindo, dona Xica. Sorri e prometi tentar. Não tinha outra opção naquele momento a não ser essa. Em uma semana de bordel, decorei onde estavam os copos e o aroma de cada um dos drinques que tinha que servir. Com algum treino, aprendi até as quantidades certas. Os fregueses chegavam todos os dias à noite. As meninas, cheirosas, ficavam ao redor do balcão esperando seus homens.

“Maricy, como é ser cega?”, perguntou, certa vez, uma delas, com a voz de criança. Eu engoli em seco e respondi: “É melhor do que ver um homem te batendo todo dia!” Nunca mais me fizeram essa pergunta ali. A cada dia que passava, ouvia os sons com maior nitidez. Sabia distinguir o momento que um homem chegava ao bordel. Aos poucos, até podia dizer se calçava bota, tênis ou chinelo. E os cheiros? Meu nariz tornou-se hábil na arte de identificá-los. Pelas minhas narinas passavam águas-de-colônia baratas, fumo de corda, mau hálito, talco e cachaça mal digerida.

“Maricy, tem cliente te achando muito bonita, minha filha. O dia em que você quiser largar o bar e ganhar mais dinheiro é só me avisar!”, disse dona Xica. Sentia falta de um homem desde que havia chegado, mas não era uma prostituta. No entanto, semanas depois da oferta, pensei melhor. Se eu fosse, que diferença faria? Ninguém estava ali para me defender e eu precisava sobreviver. Quem sabe juntar dinheiro para fazer uma operação que me trouxesse a visão de volta. No dia seguinte, ainda tímida, deitei-me pela primeira vez com um estranho. E, apesar da cegueira, me saí muito bem.

 

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