O homem ideal

Shirley tinha um namorado que sempre lhe mandava flores. Todas a invejavam, apesar de nunca o terem visto. Pudera: ele nunca existiu...

Ilustração: Dreamstime

“Shirley, a que horas ele deve chegar?”, perguntou-me a primeira convidada da minha comemoração de 38 anos. Sorri. Caminhava pelo enorme salão de festas cumprimentando uma a uma minhas amigas. Estavam tão excitadas com tudo aquilo… “Menina, que sorte a sua ter um namorado desses, hein?”, cochichou Ana, a secretária mais baixinha do escritório onde eu trabalhava. Abri um sorriso novamente. Era um dos dias mais animados da minha vida!

As centenas de canapés e os muitos litros de espumante já estavam servidos. Taças de vidro, que imitavam direitinho cristal, e uma infinidade de guardanapos com estampas de pequenos corações completavam a decoração da mesa de salgados. “Parabéns, querida, estou tão feliz por você… E ansiosa para vê-lo também!”, falou minha chefe de departamento.

O local estava lotado. Havia convidado 150 pessoas. Quase todas haviam aparecido ali em carne e osso para presenciar o casal mais feliz do universo. Pedi que só tocassem temas românticos naquela noite. Curto aqueles orquestrados: Paul Mauriat, Frank Purcell e o meu favorito, Ray Connif. Ah, tão bonito!

Passadas duas horas do início do rega-bofe, minha irmã se aproximou. “Shirley, a que horas o Araújo chega?”, perguntou, com certa impaciência. Depois de mim, Araújo era a pessoa mais aguardada naquela noite. Olhei para o relógio de pulso, preocupada. “Deve ter acontecido algum atraso na ponte-aérea, mas vou tentar achá-lo no celular”, respondi, enquanto ajudava um convidado a se servir de mousse de tomate seco.

Ah, eu me sentia uma debutante naquela noite. Nem parecia que estava chegando aos 40! Todas as atenções eram para mim. Todos os olhares convergiam para minhas bochechas pintadas com o rosa de quem está alegre. Era a noite da Shirley.

A mesa do bolo finalmente foi posta. Ele era enorme, coberto por pasta americana e decorado com delicadas amêndoas glaçadas a seu redor. Uma confeiteira amiga minha havia preparado no dia anterior. “Vou pôr creme de ameixa no recheio, como você gosta”, comentou, atenciosa, na ocasião da encomenda.

Olhei ao redor. O relógio marcava 22h34. Nem sinal de Araújo. Fui até a cozinha para saber se eles reporiam mais algumas bebidas no bar do salão. A dona do bufê me elogiou. “Olha, agradeça a Deus, viu? Nunca vi um homem pagar uma festa de aniversário dessas para a namorada. Só o Araujo mesmo!”, disse, com certa inveja. Meu ego, de tão grande, queria explodir, saltar de dimensão, encontrar um mundo onde pudesse se aconchegar melhor.

Voltei para meus convidados. “Shirley, está na hora dos parabéns. Falou com o Araújo?”, quis saber minha irmã. Olhei fundo nos olhos dela, emoldurados por cílios grandes e mal pintados. “Ele não vem! Ficou preso numa reunião de negócios importantíssima. Até chorou ao telefone de tanto pedir desculpas”.

A fisionomia de minha irmã foi transfigurada por um misto de decepção e tristeza. “Puxa, que pena… Mas nós estamos aqui!” , disse, me abraçando de repente. Ingênua, ela nem percebeu que meu semblante havia continuado absolutamente sereno. Não achou estranho que nenhuma lágrima caísse dos meus olhos.

Cortei o bolo e mantive o pique durante toda a celebração. Em casa, sozinha no quarto, senti-me recompensada com a festa que eu mesma havia me dado. Eu, sim, pois nunca houve nenhum Araújo em minha vida. Meu namorado existia apenas na minha imaginação e, por isso, decidi contar a verdade para você.”

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