Via-sacra

Clarinha não agüentava mais visitar o marido na prisão. Sua fé em dias melhores, com o amado em casa, era o que a levava para aquele inferno

Ilustração: Dreamstime

Era muito estranho entrar ali de novo. A cada portão que se fechava, sentia uma vertigem. As grades imensas daqueles portões enormes, de ferro, demonstravam um covarde poder diante do meu corpo frágil. Eu, uma jovem senhora, como aquele carcereiro baixinho costumava me chamar, tinha que percorrer o mesmo caminho sombrio cada vez que ia visitar meu homem no presídio. Eram pelo menos quatro portões. E depois enfrentar aquela enorme fila de espera do lado de fora, junto aos outros parentes.

Havia mulheres negras, brancas, pardas que nem eu, japonesas, e até uma de cadeira de rodas. Dava dó. Ouvi-a dizer à moça que vendia balas que estava naquele estado por causa de uma briga com seu parceiro. O mesmo que agora ia visitar. “Homem é assim mesmo: quando bebe é fogo”, choramingava. Eu ficava ali, com minhas sacolas de supermercado cheias de pacotes de cigarro, bolachas de maisena que ele adora, latas de Coca-Cola e preservativos. Era dia de visita íntima. Uma vez a cada 15 dias deixavam a gente transar.

Já imaginou o que é só poder dormir com seu homem a cada 15 dias e, ainda por cima, numa data que você nem escolheu? Às vezes a gente está naqueles dias, você sabe… Mas o pior mesmo era aquela cortina encardida que baixavam na porta das celas. Dá para ouvir os passos do lado de fora, aquela gente curiosa querendo escutar, saber o que fazemos. Era quase como se estivéssemos fazendo sexo grupal, daqueles nojentos que meu homem gostava de ver nas fitas de vídeo que alugava perto da nossa casa.

Depois de preencher o papel com meu nome e endereço, e assinar, íamos para a revista. Uns brutamontes me olhavam de cima a baixo, enquanto esperava a policial feminina que podia me tocar. Ela apalpava meu corpo e eles mexiam na sacola. Vasculhavam cada mimo que havia comprado com o meu dinheiro para o Damásio. Bisbilhotavam como se fossem deuses decidindo a vida alheia.

Eu ali na sala ao lado, tirando minha roupa para aquela mulher de olheiras me revistar, e aqueles caras mexendo na comida do meu homem. Eles riam. Tinha certeza de que era por causa das camisinhas. Deviam imaginar coisas… Provavelmente me viam nua, dançando como se fosse uma piranha qualquer, dessas com que eles devem estar acostumados a sair. Eu tinha nojo. Nojo de estar ali, de fazer aquela mesma via-sacra há nove meses.

E ainda faltavam cinco anos para o Damásio sair! Ia ter que passar mais quatro anos e três meses sendo bolinada pela mulher de olheiras e tendo meu supermercado revirado por aquelas hienas. Passei a porta. Alívio. Pelo menos não tinha que mostrar mais nada para ninguém. Agora, eu era toda do Damásio.

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