Vida paralela

Juliana se apaixona por Vlad. Tudo vai bem, até ela descobrir que o bonitão faz pontas em filmes pornô

Ilustração: Dreamstime

Eu nem estava com tanta fome naquele dia. Mas a ida ao restaurante Lagoa valeu a pena. E como! “Marcinha, notou o garçom novo daqui?!”, perguntei à minha amiga de trabalho. Ela deu uma secada no moço parrudo e sorriu para mim. “Juliana, Juliana…”, murmurou, como se estivesse diante da maior ninfomaníaca do planeta. Não dei bola para o julgamento dela: o cara era um gato! Não bastasse ser lindo de morrer, ria de modo sedutor toda vez que servia alguma mesa.

Empolgada, fiz sinal com a mão e, baixinho, chamei-o em nossa direção: “Por favor!” Quando ele se aproximou, li no crachá devidamente atachado em seu avental branco: “Vlad”. “Pois não, meninas?”, perguntou de maneira informal, mas charmosa. Suspirei discretamente. Marcinha olhou para os lados — acho que com vergonha de mim! “Bem, eu… Errr… Quero filé grelhado com salada!”, pedi, lançando meu sorriso mais radiante. Ela preferiu uma massa e o garçom se foi, todo faceiro. “Uau, que bundinha!”, comentei, assanhada. “Ju, eu tô rindo, mas dou a maior força! 
Há três anos não via você tão empolgada com um homem!”, falou Marcinha, lembrando-se da data do término de meu noivado com meu ex, Augusto. Aquele desgraçado!

A comida chegou, mas mal senti o gosto. Por mais que quisesse, não conseguia parar de olhar para Vlad. Havia uma carga magnética no rapaz que me deixava com os hormônios em ebulição. Senti-me adolescente — e olha que eu já estava na casa dos 30! Na hora de pagar a conta, deixei um cheque com o telefone no verso. “Só falta você achar que ele vai te ligar, sua tonta!”, brincou minha companheira de agência de publicidade. Ri, mas, no fundo, era isso mesmo que eu esperava.

Vlad, obviamente, não ligou. Mas o dono do restaurante sim. “Dona Juliana?”, perguntou o velho de voz rouca. Confirmei. “A senhora deixou um cheque aqui com a data do ano passado! Será que poderia vir trocá-lo?” Juro, juro mesmo, que não o fiz de próposito. Fiquei tão maluca com a presença daquele homem que troquei as bolas e preenchi o cheque errado. Poderia ter mandando um office-boy levar outro, mas aproveitei a situação a meu favor. “Nossa, mil desculpas. Passo aí amanhã na hora do almoço, pode ser?!”

Quando contei para Marcinha, ela riu. Quase fiquei de joelhos para que acreditasse na minha boa-fé. Pelo sim, pelo não, no dia seguinte ela foi comigo ao Lagoa. Assim que nos viu, o garçom sorriu. “Será que ele percebeu algo?”, murmurei, ruborizada. Pedimos os pratos e quando ele os trouxe, não me contive.

“Seu nome é….?”, perguntei, como se não tivesse visto o crachá. “Vladimir, mas me chamam de Vlad!”, completou, simpático. “Ok, Vlad: aqui vocês também fazem delivery?”, indaguei. Ele aprumou o corpo, me encarou de um jeito matador, e devolveu: “Sim… E como o entregador pediu as contas, 
às vezes, sou eu mesmo quem faz as entregas!”. Nem preciso dizer que na semana seguinte decidi almoçar na minha casa, que ficava a cinco quadras do restaurante. E optei por delivery, é claro!

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