Deixei de vender quentinhas e abri um restaurante

Vendendo comida na rua, paguei faculdade dos meus dois filhos. Mas não parei por aí. Há três anos tomei coragem e montei meu negócio. Hoje faturo R$ 6 mil

Deixei de vender quentinhas e abri um restaurante

Um dia uma amiga ofereceu uma quentinha 
pra mim. Assim tive a ideia de cozinhar!
Foto: arquivo pessoal

Toalhas de algodão, copos de vidro, paredes pintadinhas, piso de cerâmica, garfos de metal, funcionários uniformizados e 300 clientes nos almoços, de segunda a sábado. É assim o meu restaurante. Tenho muito orgulho dele. Para chegar aqui, eu e meus filhos lutamos muito. 

Hoje, faturamos R$ 6 mil por mês. Meu salário é de R$ 2 mil, o mesmo da Márcia e do Marcos, os dois filhos que trabalham comigo. Eles também valorizam nossas conquistas. Há apenas sete anos, nós não tínhamos dinheiro nem pra comer.

Quem diria… Morávamos em Miguel Pereira, a 120 km do Rio, onde eu tinha uma confecção de roupas. Esse meu primeiro negócio faliu. Resolvemos vir para a capital, tentar melhorar de vida. Um amigo deixou que eu me acomodasse com meus três filhos, já na faixa dos 20 anos, num quartinho em um sobrado na Saara. Foi nesse centro de comércio popular do Rio que tudo aconteceu.

Comecei com um fogão de duas bocas

Recomecei minha vida costurando shortinhos com retalhos da minha antiga confecção. Ofereci nas lojas a R$ 0,20. Costurei mil peças em uma semana e embolsei R$ 200.

Um dia, ao voltar para o quartinho, uma amiga perguntou se eu estava com fome e ofereceu uma quentinha pra mim. Nossa, que comida ruim! Mesmo com fome, foi difícil de engolir.

E assim tive a ideia de cozinhar! A Saara estava carente de boa comida com preço barato.

Com metade do dinheiro que ganhei dos shortinhos, comprei um fogão de duas bocas, panelas e embalagens para quentinhas. Com a outra metade comprei os ingredientes pra cozinhar. Expliquei aos meus filhos que essa seria a única maneira de a gente sobreviver. Eles toparam o desafio e me ajudaram em tudo.

No primeiro dia vendi dez quentinhas

Foi um sufoco no início. Tive que fazer milagre na ”cozinha” que improvisei no quartinho. Eu não tinha panela suficiente para cozinhar o talharim, a batata corada e a carne assada, que era sempre o prato principal. Então eu preparava uma guarnição e colocava em um pote. Depois, fazia a outra, separava também, e em seguida arrumava tudo nas quentinhas.

Meus três filhos, Andréa, Márcia e Marcos, iam pra rua vender. Levavam as embalagens de alumínio no braço mesmo. No primeiro dia, venderam dez pratos. No segundo, já recebi 50 encomendas. Eu cobrava R$ 3 a quentinha.

Em um mês comprei um fogão de quatro bocas, o que facilitou muito o meu trabalho. Meus filhos começaram a vender cada vez mais na rua, mas passaram por muita humilhação. Chegaram a ser expulsos de lojas pelos donos porque estavam oferecendo as quentinhas para os funcionários. Eles chegavam em casa, ou melhor, no nosso quartinho, arrasados. E eu falava: ”Não respondam. Ofereçam em outro lugar. Um dia vamos dar a volta por cima!”

Em menos de dois anos de trabalho, começamos a tirar por mês R$ 800. Foi assim que consegui pagar as faculdades de marketing e de fisioterapia para dois dos meus filhos. Eles tinham bolsa de estudos, e eu desembolsava cerca de R$ 200 para cada um. Foi um momento de aperto, mas valeu a pena. Sobravam R$ 400 para comprar os ingredientes das quentinhas e para pagar as nossas contas básicas, luz, aluguel e telefone.

No início, comprei tudo fiado

Depois que meus filhos se formaram, comecei a juntar dinheiro para abrir o meu restaurante. Há três anos, tomei coragem e aluguei uma sala grande, bem ao lado do quartinho onde nós morávamos.

O dinheiro que guardei pagou a mão de obra pra fazer o restaurante. No entanto, o material da reforma, a comida e o refrigerante eu tive que comprar fiado. Bati de porta em porta pedindo ajuda aos fornecedores. Recebi muitos nãos, mas encontrei pessoas que acreditaram em mim e me ajudaram.

Consegui pagar as dívidas com a ajuda dos meus filhos, da família e de dez funcionários. Foram mais de R$ 20 mil, incluindo o material da obra, o fogão industrial e mesas, cadeiras e mais panelas.

Minha família e meus funcionários são mil e uma utilidades. Ajudam na cozinha, arrumam o salão com as mesas, é tudo sempre limpinho!

Estou construindo minha casa

Vou para a cozinha às 6h. Na hora do almoço já estou de banho tomado para recepcionar os fregueses, e às 16h fechamos o restaurante para descansar. O meu cardápio continua caseiro e a carne assada é, desde sempre, a comida preferida dos clientes.

Para facilitar a vida e economizar, resolvemos morar no próprio restaurante. Construí dois quartos, um no primeiro andar para mim e o outro, no segundo, para os meus filhos. Com o dinheiro que voltei a juntar, comprei um terreno e estou terminando de construir uma casa de três quartos. Não tenho o que reclamar da vida!