Carolina Maria de Jesus: por que se fala tão pouco dessa mulher icônica?

Lançada em 2017, uma biografia sobre Carolina Maria de Jesus busca resgatar a memória de uma das mais impactantes escritoras brasileiras de todos os tempos.

Em 1960, Carolina Maria de Jesus foi a grande revelação da literatura brasileira. Nascida no sudoeste de Minas Gerais, ela morava na favela do Canindé (em São Paulo), quando foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas e publicou seu primeiro livro: “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”. Carolina era catadora de papel na época, mas mantinha um diário e foi ele que deu origem ao livro que faria história.

A obra tornou-se best-seller rapidamente, foi traduzida em 16 idiomas e vendida em mais de 40 países. O mundo inteiro voltou os olhos para essa mulher negra e favelada, que escrevia sobre sua realidade de maneira visceralmente poética. Mesmo assim, hoje em dia, muitos brasileiros desconhecem o legado dessa figura tão importante e inspiradora.

Em 2017, mais de quatro décadas após a sua morte, uma detalhada biografia foi lançada pela Malê, editora focada em autores negros. Escrito por Tom Farias, o livro de 402 páginas é resultado de um minucioso estudo realizado sobre Carolina. Por email, o MdeMulher conversou com Tom sobre “Carolina – Uma Biografia” e sobre a história dessa grande mulher.

MdeMulher – Como surgiu a ideia de lançar “Carolina – Uma Biografia”? Quando você começou a trabalhar no livro? Como foi realizada a pesquisa?

Tom Farias – A ideia do livro surgiu há dois anos, por perceber que havia uma grande lacuna sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, especialmente no antes e no depois do lançamento de “Quarto de Despejo”. A pergunta que ficava era como uma mulher como Carolina surge no cenário nacional, vira escritora de sucesso de uma hora para outra, e ninguém nunca a percebeu? As investigações que surgiram dessas indagações me levaram a conhecer uma nova Carolina e a história da escrita de uma mulher com 20 anos de carreira. O livro é o primeiro passo para resgatar a Carolina do lugar comum do seu livro de sucesso e revelar a escritora que nasceu nela, após os 20 anos de idade.

Minha intenção foi trazer a público – depois de consultar centenas de documentos, livros, imagens, de ouvir pessoas como Audálio Dantas, Vera Eunice, e seu irmão, José Carlos de Jesus (que me concedeu sua última entrevista, pois morreu em 2016) e de traçar um retrato o mais fiel possível da escritora mineira – uma espécie de grande reportagem, para que as pessoas possam entender quem ela realmente foi e possam contribuir para expandir ainda mais o seu legado.

MdM – Nesse processo, você descobriu sobre ela coisas que ainda não sabia? O que, por exemplo?

TF – A parte mais reveladora do estudo é sobre a fase em que ela morou no Rio de Janeiro – um dos lugares foi a cidade de Nilópolis. Carolina esteve por quase dois anos no Rio, entre o final de 1940 e 1942. Veio tentar a carreira como “poetisa preta”, como se qualificava. A outra revelação é que ela ensaiou ser jornalista em um jornal paulista e também se dispunha a dar aulas na favela do Canindé. Além de seus amores e da relação com a bebida – fatos que expõem uma Carolina completamente irreverente e nova para nós. Fora isso, o alcance do sucesso do seu livro, sobretudo em língua estrangeira.

MdM – Mesmo com pouco estudo, Carolina de Jesus tornou-se uma escritora reconhecida. Como conseguiu esse feito, na sua opinião?

TF – Graças ao grande jornalista Audálio Dantas – um profissional que tinha consigo um forte pensamento socialista – as duas matérias realizadas  com Carolina (em 1958 e 1959) chamaram a atenção, de forma curiosa, para aquela mulher até então simples, moradora de uma favela, que sabia escrever livros. Era um feito extraordinário ter uma mulher como Carolina nessas condições, sobretudo para quem a via catar papel nas ruas (não lixo, como muitos dizem por aí) e a tinha como moradora de uma favela. Afinal, Carolina era uma mulher negra, semialfabetizada, sem profissão definida, mãe solo de três filhos pequenos – e, acima de tudo, falante e destemida.

 (Editora Malê/Divulgação)

MdM – Para além da escritora que vivia na favela e surpreendeu o mundo, conte um pouco sobre quem foi Carolina Maria de Jesus. 

TF – Uma mulher predetermina a vencer na vida pela escrita e pela literatura. Ela desafia embargos, preconceitos e enfrentava adversidades, sejam raciais ou de gênero. Encarou a tudo e a todos com as anotações nos cadernos velhos e nas leituras das obra dos grandes autores nacionais e dos clássicos da literatura que encontrava nas suas catações de papéis.

Era também uma mulher cuja inteligência a fez deixar a favela, ter discernimento para educar os filhos, comprar casas e terrenos. Carolina foi o resultado de uma evolução lenta da garota de Bitita de Sacramento, sua cidade mineira natal, até a mulher que, com um diário de anotações, se tornou a escritora mais lida do inicio da década de 1960.

MdM – Ela tornou-se um fenômeno na época em que “Quarto de Despejo” foi lançado, mas hoje muita gente desconhece seu trabalho e sua história. A que você atribui esse apagamento dela no imaginário popular?

TF – Carolina foi vítima do sistema e dela mesma. Do sistema, em primeiro lugar, porque ele gerou Carolina Maria de Jesus escritora e depois quis destruir. O resultado disso foi a permanência de uma Carolina enfraquecida pela forte pressão exercida sobre ela (inclusive por Audálio Dantas) para que parasse de escrever e desse por finda a sua carreira. Esse mesmo sistema se aliou aos pressupostos da ditadura, enterrando, a partir de 1964, qualquer sonho do ressurgimento da escritora, então identificada como socialista – simplesmente por advogar que a melhor maneira de resolver o problema da favela era dando terras para que os favelados pudessem viver e plantar, além de falar publicamente de sua admiração por Fidel Castro. Essas são as principais razões, mas Carolina viveu de maneira inquieta o pós-sucesso de “Quarto de Despejo”, entendendo pouco do que estava acontecendo e sendo manobrada por espertalhões e pelas editoras, sobretudo do exterior.

MdM – Qual é a importância do resgate da história de Carolina nos dias de hoje? 

TF – Penso que este trabalho sobre Carolina é um primeiro passo para melhor a conhecermos como mulher e escritora, e mesmo como intelectual. Carolina está sendo revivida pelos movimentos sociais comunitários – de negros e de mulheres – engajadas na luta de liberdade e por igualdade de direitos. Obviamente a presença da história de uma mulher como Carolina – no contexto da intelectualidade, ou de descontextualizar a chamada intelectualidade que está aí posta há séculos – faz dela um marco referencial de superação para esses segmentos, transformando-a num símbolo. No arcabouço de histórias comuns à dela – de entes moradores de favelas ou não – que precisam ter coragem, como Carolina, para contar suas histórias.

MdM – Na sua opinião, o que Carolina representa para a história dos autores negros no Brasil e para o movimento negro e periférico como um todo?

TF – A história contada por Carolina correu o mundo. Sua representatividade para o movimento social negro, sobretudo de gênero negro, é enorme. Carolina vem a ser a maior escritora negra brasileira, a mais popular e mais editada da história do país. Em termos autorais, “Quarto de Despejo” já é o livro mais editado – em termos de tiragem, nem se fala. No exterior, bateu todos os recordes.

No campo das mulheres escritoras, negras ou não, está numa categoria bastante elevada. Carolina está em 46 países e 16 línguas. Vendeu, só lá fora, milhões de exemplares. Foi best-seller na Alemanha, Estados Unidos, França, Itália, Argentina e Inglaterra. Seu livro teve mais de duas edições no Japão e em Cuba, e ficou bem em países como Rússia, Dinamarca, Holanda, Suécia, Hungria e República Tcheca.

MdM – Como está sendo a repercussão do lançamento do livro? 

TF – Ele está sendo muito procurado. É uma proposta nova, diferente, que visa trazer a Carolina, desde Bitita, do avô Sócrates Africano, até a sua morte, por ataque de asma, em Cipó, perto de Parelheiros [bairro no extremo sul de São Paulo]. A biografia procura também humanizar Carolina no que ela tem de contraditório, com relação aos seus relacionamentos afetivos, uso de dinheiro, relação com amigos e editores, com Audálio Dantas e com os filhos dela. Como um nome forte que é, pelo seu ressurgimento no campo da escrita literária, é normal que a procura enorme pelo livro tenha a ver, ao mesmo tempo, com a vontade do público de matar estas curiosidades, bem como se atualizar sobre sua história.

Homenagem do Google

Em 14 de março de 2019, quando completaria 105 anos, Carolina Maria de Jesus ganhou uma homenagem do Google. Durante o dia todo, o logo da empresa, na página principal do site, se transformou em uma ilustração que a retrata, um Doodle.

carolina maria de jesus doodle google


 (Google/Reprodução)

Além de um retrato de Carolina, o Doodle representa também uma favela e um livro, remetendo à  história dela como escritora. Justa homenagem a uma grande brasileira que muitas vezes é esquecida.

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