Carolina de Jesus: por que se fala tão pouco dessa mulher icônica?

Recém lançada, uma biografia sobre Carolina Maria de Jesus busca resgatar a memória de uma das mais impactantes escritoras brasileiras de todos os tempos.

Em 1960, Carolina Maria de Jesus foi a grande revelação da literatura brasileira. Nascida no sudoeste de Minas Gerais, ela morava na favela do Canindé (em São Paulo), quando foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas e publicou seu primeiro livro: “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”. Carolina era catadora de papel na época, mas mantinha um diário e foi ele que deu origem ao livro que faria história.

A obra tornou-se best seller rapidamente, foi traduzida em 16 idiomas e vendido em mais de 40 países. O mundo inteiro voltou os olhos para essa mulher negra e favelada, que escrevia sobre sua realidade de maneira visceralmente poética. Mesmo assim, hoje em dia, muitos brasileiros desconhecem a obra dessa figura tão importante e inspiradora.

Agora, mais de quatro décadas após a sua morte, uma detalhada biografia está sendo lançada pela Malê, editora focada em autores negros. Escrito por Tom Farias, o livro de 402 páginas é resultado de um minucioso estudo realizado sobre Carolina. Por email, o MdeMulher conversou com Tom sobre “Carolina – Uma Biografia” e sobre a história dessa grande mulher.

MdeMulher – Como surgiu a ideia de lançar “Carolina – Uma Biografia”? Quando você começou a trabalhar no livro? Como foi realizada a pesquisa?

Tom Farias – A ideia do livro surgiu há dois anos, por perceber que havia uma grande lacuna sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, especialmente no antes e no depois do lançamento de “Quarto de Despejo”. A pergunta que ficava era como uma mulher como Carolina surge no cenário nacional, vira escritora de sucesso de uma hora para outra, e ninguém nunca a percebeu? As investigações que surgiram dessas indagações me levaram a conhecer uma nova Carolina e a história da escrita de uma mulher com 20 anos de carreira. O livro é o primeiro passo para resgatar a Carolina do lugar comum do seu livro de sucesso e revelar a escritora que nasceu nela, após os 20 anos de idade.

Minha intenção foi trazer a público – depois de consultar centenas de documentos, livros, imagens, de ouvir pessoas como Audálio Dantas, Vera Eunice, e seu irmão, José Carlos de Jesus (que me concedeu sua última entrevista, pois morreu em 2016) e de traçar um retrato o mais fiel possível da escritora mineira – uma espécie de grande reportagem, para que as pessoas possam entender quem ela realmente foi e possam contribuir para expandir ainda mais o seu legado.

MdM – Nesse processo, você descobriu sobre ela coisas que ainda não sabia? O que, por exemplo?

TF – A parte mais reveladora do estudo é sobre a fase em que ela morou no Rio de Janeiro – um dos lugares foi a cidade de Nilópolis. Carolina esteve por quase dois anos no Rio, entre final de 1940 e 1942. Veio tentar a carreira como “poetisa preta”, como se qualificava. A outra revelação é que ela ensaiou ser jornalista em um jornal paulista e também se dispunha a dar aulas na favela do Canindé. Além de seus amores e da relação com a bebida – fatos que expõem uma Carolina completamente irreverente e nova para nós. Fora isso, o alcance do sucesso do seu livro, sobretudo em língua estrangeira.

MdM – Mesmo com pouco estudo, Carolina de Jesus tornou-se uma escritora reconhecida. Como conseguiu esse feito, na sua opinião?

TF – Graças ao grande jornalista Audálio Dantas – um profissional que tinha consigo um forte pensamento socialista – as duas matérias realizadas  com Carolina (em 1958 e 1959) chamaram a atenção, de forma curiosa, para aquela mulher até então simples, moradora de uma favela, que sabia escrever livros. Era um feito extraordinário ter uma mulher como Carolina nessas condições, sobretudo para quem a via catar papel nas ruas (não lixo, como muitos dizem por aí) e a tinha como moradora de uma favela. Afinal, Carolina era uma mulher negra, semialfabetizada, sem profissão definida, mãe solo de três filhos pequenos – e, acima de tudo, falante e destemida.

 (Editora Malê/Divulgação)

MdM – Para além da escritora que vivia na favela e surpreendeu o mundo, conte um pouco sobre quem foi Carolina Maria de Jesus. 

TF – Uma mulher predetermina a vencer na vida pela escrita e pela literatura. Ela desafia embargos, preconceitos e enfrentava adversidades, sejam raciais ou de gênero. Encarou a tudo e a todos com as anotações nos cadernos velhos e nas leituras das obra dos grandes autores nacionais e dos clássicos da literatura que encontrava nas suas catações de papéis.

Era também uma mulher cuja inteligência a fez deixar a favela, ter discernimento para educar os filhos, comprar casas e terrenos. Carolina foi o resultado de uma evolução lenta da garota de Bitita de Sacramento, sua cidade mineira natal, até a mulher que, com um diário de anotações, se tornou a escritora mais lida do inicio da década de 1960.

MdM – Ela tornou-se um fenômeno na época em que “Quarto de Despejo” foi lançado, mas hoje muita gente desconhece seu trabalho e sua história. A que você atribui esse apagamento dela no imaginário popular?

TF – Carolina foi vítima do sistema e dela mesma. Do sistema, em primeiro lugar, porque ele gerou Carolina Maria de Jesus escritora e depois quis destruir. O resultado disso foi a permanência de uma Carolina enfraquecida pela forte pressão exercida sobre ela (inclusive por Audálio Dantas) para que parasse de escrever e desse por finda a sua carreira. Esse mesmo sistema se aliou aos pressupostos da ditadura, enterrando, a partir de 1964, qualquer sonho do ressurgimento da escritora – então identificada como socialista – simplesmente por advogar que a melhor maneira de resolver o problema da favela era dando terras para que os favelados pudessem viver e plantar, além de falar publicamente de sua admiração por Fidel Castro. Essas são as principais razões, mas Carolina viveu de maneira inquieta o pós-sucesso de “Quarto de Despejo”, entendendo pouco do que estava acontecendo e sendo manobrada por espertalhões e pelas editoras, sobretudo do exterior.

MdM – Qual é a importância do resgate da história de Carolina nos dias de hoje? 

TF – Penso que este trabalho sobre Carolina é um primeiro passo para melhor a conhecermos como mulher e escritora, e mesmo como intelectual. Carolina está sendo revivida pelos movimentos sociais comunitários – de negros e de mulheres – engajadas na luta de liberdade e por igualdade de direitos. Obviamente a presença da história de uma mulher como Carolina – no contexto da intelectualidade, ou de descontextualizar a chamada intelectualidade que está aí posta há séculos – faz dela um marco referencial de superação para esses segmentos, transformando-a num símbolo. No arcabouço de histórias comuns a dela – de entes moradores de favelas ou não – que precisam ter coragem, como Carolina, para contar suas histórias.

MdM – Na sua opinião, o que Carolina representa para a história dos autores negros no Brasil e para o movimento negro e periférico como um todo?

TF – A história contada por Carolina correu o mundo. Sua representatividade para o movimento social negro, sobretudo de gênero negro, é enorme. Carolina vem a ser a maior escritora negra brasileira, a mais popular e mais editada da história do país. Em termos autorais, “Quarto de Despejo” já é o livro mais editado – em termos de tiragem, nem se fala. No exterior, bateu todos os recordes.

No campo das mulheres escritoras, negras ou não, está numa categoria bastante elevada. Carolina está em 46 países e 16 línguas. Vendeu, só lá fora, milhões de exemplares. Foi best-seller na Alemanha, Estados Unidos, França, Itália, Argentina e Inglaterra. Seu livro teve mais de duas edições no Japão e em Cuba, e ficou bem em países como Rússia, Dinamarca, Holanda, Suécia, Hungria e República Tcheca.

MdM – Como está sendo a repercussão do lançamento do livro? 

TF – Ele está sendo muito procurado. É uma proposta nova, diferente, que visa trazer a Carolina, desde Bitita, do avô Sócrates Africano, até a sua morte, por ataque de asma, em Cipó, perto de Parelheiros [bairro no extremo sul de São Paulo]. A biografia procura também humanizar Carolina no que ela tem de contraditório, com relação aos seus relacionamentos afetivos, uso de dinheiro, relação com amigos e editores, com Audálio Dantas e com os filhos dela. Como um nome forte que é, pelo seu ressurgimento no campo da escrita literária, é normal que a procura enorme pelo livro tenha a ver, ao mesmo tempo, com a vontade do público de matar estas curiosidades, bem como se atualizar sobre sua história.

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