Escravidão é tratada como atração turística em fazenda no RJ

Em nome da imersão histórica, os visitantes de uma antiga fazenda cafeeira são servidos por funcionários negros vestidos de escravos.

O veículo americano The Intercept publicou nesta terça-feira (6) uma reportagem chocante sobre o dito turismo histórico no Vale do Paraíba, região interiorana do Rio de Janeiro. A matéria da correspondente brasileira Cecilia Olliveira denuncia a forma como a Fazenda Santa Eufrásia está naturalizando a escravidão ao oferecer uma experiência de imersão ao passado.

Como parte do passeio à propriedade construída por volta de 1830, funcionários negros fazem as vezes de escravos, servindo os visitantes. Quem também participa da encenação é a proprietária da fazenda, Elizabeth Dolson, uma das bisnetas do coronel que ali morava séculos atrás. Vestida de sinhá, ela é a cicerone dos turistas.

“Geralmente eu tenho uma mucama, mas ela fugiu. Ela foi pro mato. Já mandei o capitão do mato atrás dela, mas ela não voltou (…) Quando eu quero pegar um vestido, eu digo: ‘duas mucamas, por favor!’. Porque ninguém alcança lá em cima”, diz ela nesse vídeo onde apresenta as dependências da fazenda:

Na gravação, Elizabeth também aparece mostrando um instrumento usado para torturar escravos, o chamado viramundo. Orgulhosa,  ela comenta que é muito raro encontrar um viramundo com chave hoje em dia e que o objeto lhe foi dado de presente. Sem nenhum tipo de reflexão a respeito da carga cruel que tal ferramenta carrega. Aquilo é apenas um presente especial, nada mais. Com essa mesma naturalidade, a sinhá aponta para o local onde ficava a senzala.

“Ah, mas isso tudo é história, não há nada de errado em mostrar como era aquela realidade”, dirão muitos. E, em resposta a isso, a reportagem do The Intercept traz um paralelo muitíssimo oportuno: experimente fazer uma visita aos locais históricos do holocausto, ou a algum museu sobre o tema. O clima é completamente outro!

fazenda

 (Reprodução/Habitar/Vimeo)

Em Auschwitz* (o maior campo de concentração nazista), por exemplo, há espaços onde tirar fotos é proibido, em respeito às vítimas da barbárie nazista. Já no local onde funcionava a câmara de gás, é solicitado que os visitantes fiquem também em silêncio e, durante toda a visita, os guias estimulam a reflexão e o pensamento crítico a respeito do que se passou ali. Os fatos históricos são contados e recontados, mas não de maneira leviana.

Revisitar a história do nosso país é algo extremamente válido e, com certeza, isso deveria ser mais incentivado pelos órgãos de turismo. Acontece que é inadmissível que haja uma naturalização das atrocidades cometidas no passado. Muito pelo contrário! Ao invés disso, é preciso que esse tipo de imersão – como a feita na Fazenda Santa Eufrásia – sirva para estimular a consciência de que o Brasil carrega consigo uma dívida histórica com o povo negro.

 

* A repórter esteve em Auschwitz, na Polônia, em 2011.