O filme mais emocionante do ano não está concorrendo ao Oscar

'Querido Menino', que conta uma história real, foi aclamado pela crítica, mas desprezado pelo Oscar. Uma pena!

O café foi ficando amargo e frio. Pra ser sincera, eu nem queria escrever este texto em primeira pessoa, mas é difícil não se misturar com um filme como ‘Querido menino‘. Ainda mais se você é mãe ou pai. Ainda mais se você cantarolou ‘Beautiful Boy‘ pra sua filha desde que ela nasceu, como o personagem de Steve Carell faz numa das cenas mais lindas e que dá nome ao filme (no título original, em inglês).

“A vida é isso que acontece enquanto você está fazendo outros planos”. O trecho da canção de John Lennon que batiza o longa diz muito sobre a história, que num primeiro momento, não parece ter uma premissa muito original. Um pai, protetor e cuidadoso, faz de tudo pra ajudar o filho a sair da dependência química. Talvez você já tenha visto outros filmes com este mesmo enredo, mas isso não o faz menos emocionante.

Ainda mais, porque trata-se de uma história real. Muito real. É a luta de David (no longa, vivido pelo ótimo Steve Carell) e Nic Sheff (uma atuação bem competente de Timothée Chalamet), pai e filhos escritores, que lançaram, entre outros, os livros “Tweak, “High” e “Beautiful Boy” sobre a batalha da dependência e das muitas reabilitações do moço. Na adaptação para o cinema, os livros de ambos ajudaram a nortear o que seria contado desta história sobre família e apoio, sem tabus.

Com produção executiva de Brad Pitt, o trunfo do longa do diretor belga Felix Van Groeningen (indicado ao Oscar de ‘Melhor filme Estrangeiro’ em 2014 por ‘Alabama Monroe’) é ver sensibilidade nas entrelinhas do cotidiano, ainda que mergulhado no caos. Como aquele menino doce, gentil e brilhante, olhado com tanta atenção pelos pais, amado pelos irmãos e com uma trajetória tão regular na escola foi partindo para drogas cada vez mais letais?

Caminhando diversas vezes pelo quarto vazio de Nic, David parece se perguntar o tempo todo onde estava que não percebeu que o filho não conseguia lidar com o vazio- sim, o inerente da vida. Tantas conversas sinceras, sintonia fina, todos os momentos felizes, onde eles ficam quando o vício preenche Nic? Pois é, continuam todos lá, dentro do caos pessoal e intransferível que é se tornar adulto.

Sem falso moralismo, Nic assume para o pai no filme – e também nas entrevistas que dá na vida real -, que o prazer da droga, principalmente as metanfetaminas, o fascina, mas que sabe o quanto isso o prejudica.

Hoje, Nic é roteirista e participou de produções como ‘13 Reasons Why’ e ‘The Killing‘. Já David, passou por prestigiadas redações como Rolling Stone e New York Times. O timing de lançamento do filme, que chega ao Brasil na quinta (21), também não poderia ser mais propício, já que os EUA vive uma era de forte consumo de opióides, sendo a causa número 1 de morte entre jovens no país.

A beleza na naturalidade das cenas da infância e do amadurecimento de Nic são potencializadas na delicadeza do rotineiro, mas comete erros grosseiros ao pontuar com uma trilha incidental pesada, um tom de terror que não cabe ali.

Um bom exemplo de quando as lágrimas secam e dão lugar a um revirar de olhos, é a parte em que a música de suspense sobe bem alta e mostra David encontrando os cadernos de Nic – rascunhos do que viraria o livro “Tweak”. Neles, o garoto diz com todas as letras que precisa se drogar mais. Mais ou menos aquele pesadelo de toda mãe tem de ler o que não quer no diário dos filhos. Desnecessariamente ilustrativa, o filme poderia ter ficado sem essa. Também senti falta da presença materna, mas talvez exista uma questão familiar real em focar na relação com o pai e mostrar a ausência da mãe.

No que o filme peca na trilha incidental, ele ganha na fotografia. Reparem nas mudanças climáticas e na iluminação. A cena do aeroporto, em que pai e filho se despedem, é bela, emblemática e aconteceu de verdade.

Cadê o Oscar, Academia?

Difícil entender como Carell- que vem fazendo escolhas de trabalho cada vez menos óbvias e mais desafiantes – e Chalamet não concorreram ao Oscar de 2019. São atuações que claramente mereciam algum destaque da crítica. A ótima Maura Tierney, que faz Karen, madrasta amorosa e atenta de Nic, também é uma grata surpresa no elenco. A cena dela perseguindo o enteado de carro é maravilhosa.

Ok, Carell já concorreu por um personagem mais complexo em ‘Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo’, e Chalamet pelo celebrado ‘Me chame pelo seu nome’. Mas isso não tira o mérito de suas atuações delicadas em ‘Querido Menino’. Por este papel, o ator concorreu ao Golden Globes, Screen Actor Guild, BAFTA e Critics’ Choice Award, mas foi ignorado no Oscar.

Aclamado pela crítica, todo mundo achou que o filme seria um forte concorrente em várias categorias, mas flopou! Teve fã de Chalamet até convocando boicote ao Oscar por conta disso, sabia?

Com o café frio nas mãos, saí do cinema com vontade de abraçar minha filha. Só que eis aí, o trunfo de ver a história alheia: a gente repensa a nossa e entende que o vazio de cada um não pode ser preenchido por ninguém e por nada. Como pais, terão momentos em que não se tem ou não se sabe mesmo o que fazer. Não vão ter braços que segurem minha bebê de errar, cair e se machucar. Mas, assim como no filme – e na vida-, a lição de David fica valendo: “Eu não desisti dele”.

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