‘Pantera Negra’: filme impressiona e as mulheres roubam a cena

Com elenco afinado, grandes cenas de ação e uma ambientação excepcional, "Pantera Negra" é um blockbuster para ficar na história.

O ano mal e mal começou e “Pantera Negra” já é um dos filmes mais importantes de 2018. Com estreia prevista para 15 de fevereiro, ele poderia ser simplesmente um dos vários longas que contam a origem dos heróis da Marvel, mas tem um plus a mais: trata-se do primeiro blockbuster multimilionário da história a ter um elenco quase 100% negro – há apenas dois personagens brancos com nomes e falas -, além de diretor e roteiristas negros.

Representatividade inédita e investimento de peso

Se você está achando que esse é um filme feito de qualquer jeito, apenas para “cumprir cotas”, então pensou errado! “Pantera Negra” tem a mesma magnitude de qualquer outra grande produção da Marvel e da Disney, com direito a colaboração da Lucasfilm. Estima-se que foram investidos 200 milhões de dólares na realização do longa, o que significa 20 milhões a mais do que “Thor: Ragnarok”, por exemplo.

Cifras altas não são sinônimo de bom filme, mas é importante falar sobre isso em se tratando de “Pantera Negra”. Grandes estúdios visam lucro acima de tudo, lógico, o que não isenta a relevância de um longa como esse dentro do contexto das superproduções. Representatividade importa, sim. E é muito bom ver uma aposta como essa sendo feita.

Dito isso, aos que acham que o mundo está “politicamente correto demais”, aí vai uma info: “Pantera Negra” é um ótimo filme de super-herói, independentemente do fator representativo. Temos aqui um longa que apresenta o personagem, mas não se resume a explicar a sua origem. Há uma boa história sendo contada, conflitos bem elaborados, ótimos efeitos visuais e uma ambientação criada com maestria excepcional. Somado a isso, a trama também traz uma poderosa reflexão sobre colonialismo e política.

Michael B. Jordan (à esquerda) e Chadwick Boseman

Michael B. Jordan (à esquerda) e Chadwick Boseman (Pantera Negra/Divulgação)

A saga do Pantera Negra e o incrível reino de Wakanda

O filme nos apresenta o reino fictício de Wakanda, país africano que detém a tecnologia mais avançada do planeta e mantém esse segredo há gerações. Um meteoro de vibranium – metal raro e poderosíssimo – caiu por lá muito tempo atrás e é ele que possibilita tanta tecnologia. Quem governa o país é o clã dos Panteras e também são eles que detêm os poderes místicos da pantera negra. O filme mostra a saga do recém empossado rei T’Challa, interpretado por Chadwick Boseman.

Pouco depois de tornar-se rei, T’Challa precisa enfrentar o vilão Ulysses Klaue (Andy Serkis, em ótima atuação), um forasteiro que conhece o segredo de Wakanda e que conseguiu roubar um pouco de vibranium. Depois de uma reviravolta, um novo vilão – vivido por Michael B. Jordan – também dá as caras no país africano.

O roteiro do filme é bem amarrado e prende a atenção do início ao fim, apesar dos muitos diálogos que explicam coisas ao público. Os vilões são interessantes e convincentes o que é um baita ponto positivo, já que esse é basicamente o calcanhar de Aquiles da Marvel. Em se tratando das cenas de ação, elas são grandiosas e empolgantes, mas poderiam ser melhor exploradas.

A ambientação é um dos grandes destaque – se não o maior – do longa. Wakanda é um personagem por si só e ela foi construída com um capricho ímpar. A alta tecnologia do lugar é mesclada a aspectos tribais na decoração dos ambientes e principalmente no figurino. E esse é um trabalho bastante difícil, pois poderia descambar para o caricato com facilidade, mas não o faz. A atmosfera de Wakanda cumpre muito bem o papel de mostrar ao público que o povo ali retratado jamais deixou de lado suas tradições, mesmo tendo acesso ao que há de mais moderno.

A maravilhosa ambientação de Wakanda é um dos pontos altos do filme

A maravilhosa ambientação de Wakanda é um dos pontos altos do filme (Pantera Negra/Divulgação)

As minas dominam o filme

O detalhe mais maravilhoso de Wakanda é que as mulheres chutam bundas, a começar pelas guerreiras encarregadas da segurança da família real. Essas guarda-costas são mulheres carecas munidas de lanças, comandadas pela general Okoye – interpretada por Danai Gurira, que rouba TODAS as cenas em que aparece.

Preste atenção à atriz na sequência de cenas em Seul, ela e seu vestido vermelho entregam algumas das imagens mais bem pensadas do filme. Danai, que já havia mostrado muito girlpower como a Michonne, de “The Walking Dead”, começa 2018 com o pé direito, fincando seu nome na lista de mulheres para ficar de olho daqui para frente.

Outras duas minas fortes do filme são Nakia (Lupita Nyong’o) e Shuri (Letitia Wright). Lupita já mora em nossos corações e está muito bem no filme, mostrando confiança e sensibilidade na mesma medida. E Letitia é outra atriz para ficar de olho! Revelada no último episódio da quarta temporada de “Black Mirror”, em “Pantera Negra” ela está maravilhosa como a irmã de T’Challa, que é responsável por comandar o laboratório hi-tech de Wakanda.

Por fim, a veterana Angela Bassett também tem uma presença marcante em cena, interpretando a matriarca do clã Pantera. É muito bom ver a grande intérprete de Tina Turner de volta às telonas.

Dananai Gurira (à esquerda) e Lupita Nyong’o (no centro), em “Pantera Negra”

Dananai Gurira (à esquerda) e Lupita Nyong’o (no centro), em “Pantera Negra” (Pantera Negra/Divulgação)

Para além das fortíssimas mulheres do longa, é justo dizer que todo o elenco está afinado e que, definitivamente, atores negros aparecem menos nas telonas por falta de oportunidade e não por falta de talento. O mesmo pode ser dito do diretor e co-roteirista Ryan Coogler e de Joe Robert Cole, que também assina o roteiro.

Assim como aconteceu com “Mulher-Maravilha”, que é muito mais do que “aquele filme de super-herói protagonizado por uma mulher”, “Pantera Negra” definitivamente não veio para ser “o filme de super-herói protagonizado por negros”. Ambos são importantes pela representatividade, mas mais importantes ainda por mostrar que a cultura pop não está sendo assistencialista ao tornar-se diversa. Ela passa a ser muito mais interessante e rica justamente quando dá cartas ousadas como essa.