Recy Taylor: quem foi a mulher citada por Oprah no Globo de Ouro

Recy Taylor - que era negra - foi estuprada por seis homens brancos, em 1944. A única consequência do crime foi uma multa de 250 dólares.

No último domingo (7), Oprah Winfrey fez uma emocionante homenagem a Recy Taylor e a todas as mulheres que lutam por justiça em casos de violência sexual. O manifesto aconteceu durante o Globo de Ouro 2018, quando Oprah foi agradecer pelo prêmio honorário Cecil B. DeMille. Ela fez o discurso mais emocionante da noite e também entrou para a história como a primeira mulher negra a receber esse prêmio. 

Em relação a Recy Taylor, Oprah falou brevemente sobre a terrível história dessa mulher que foi estuprada coletivamente por seis homens – e eles jamais foram presos. O crime aconteceu no Alabama, em 3 de setembro de 1944, mas o caso ganhou certa repercussão em 2017, quando o documentário sobre Recy foi lançado e ela veio a falecer logo depois. A americana morreu em 28 de dezembro, pouco antes de completar 98 anos. 

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Oprah Winfrey fez o discurso mais poderoso da noite (Paul Drinkwater/NBCUniversal/Getty Images)

Recy era negra e, aos 24 anos, foi estuprada por seis homens brancos, que a sequestraram na saída da igreja. Ela estava com o filho pequeno, voltando para casa, quando foi abordada por sete homens armados num carro. O bando fez ameaças e acabaram levando-a para um matagal – onde seis deles cometeram o estupro.

A violência foi brutal e os homens chegaram confessar o crime, mas jamais foram presos. Recy denunciou os agressores e não foi difícil identificar o carro em que eles a levaram. O motorista, Hugo Wilson, foi chamado a depôr e delatou os outros seis – ele foi o único que não cometeu estupro. Ao final, Hugo teve que pagar 25o dólares de multa e nada mais foi feito.

Com isso, o caso de Recy gerou grande revolta entre a comunidade negra e ela foi amparada pela Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor. Quem esteve à frente do caso foi a lendária ativista Rosa Parks, que é tida como um importante nome do movimento negro nos Estados Unidos. A partir daí, o caso rapidamente ganhou destaque e os estupradores foram levados a julgamento. Composto apenas por homens brancos, o juri decidiu que não haviam provas o suficiente.

As campanhas por justiça ganharam ainda mais força depois disso e o governo do Alabama sentiu-se pressionado a intervir. Um ano depois do crime, um dos agressores, chamado Joe Culpepper, confessou tudo. Os outros acabaram relatando que haviam transado com Recy, mas alegaram que o sexo foi consensual, chamando-a de prostituta. Isso foi o suficiente para que o juri mais uma vez inocentasse o bando.

Naquela época, a segregação racial ainda era prevista por lei nos EUA. Com isso, os negros eram oficialmente tratados como uma subespécie – especialmente na região sul, onde fica o Alabama. “Não nos viam como seres humanos, e sim como animais. E alguns ainda acreditam nisso”, disse um dos netos de Recy no documentário, intitulado “The Rape of Recy Taylor” – “O Estupro de Recy Taylor”, em tradução livre. Premiado no Festival de Veneza, o filme estreou nos EUA há menos de um mês e ainda não há previsão de quando chega ao Brasil. 

Somente em 2011, 67 anos depois do crime, o governo do Alabama fez um pedido de desculpas a Recy Taylor. Em retratação oficial, o Estado reconhece ter falhado na punição dos agressores. Mesmo assim, ela viveu uma vida inteira sob o horror da impunidade e seus agressores não sofreram qualquer consequência por aquele estupro coletivo.

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