Terror com crítica social, ‘Nós’ já é um dos filmes mais notáveis de 2019

O thriller imperdível tem roteiro e direção de Jordan Peele, Lupita Nyong'o como protagonista e estreia no Brasil nesta quinta (21).

Desde que o trailer oficial do terror “Nós” (“Us”, em inglês) foi divulgado no final do ano passado, as expectativas da crítica e do público em relação ao longa começaram a crescer expressivamente.

O filme, além de contar com Lupita Nyong’o como protagonista, tem roteiro e direção comandados pelo aclamado ator e cineasta Jordan Peele, que ganhou ainda mais notoriedade após o sucesso do thriller “Corra!” (Get Out, 2017), vencedor de um Oscar na categoria “Melhor Roteiro Original”.

Mas “Nós”, ao contrário de “Corra!”, não se configura como um terror que tem a temática do racismo como pano de fundo. Apesar da família que protagoniza o longa ser formada por atores negros (o que é extremamente relevante), a crítica social dentro da história é feita de maneira mais sutil, abrindo espaço para teorias e interpretações diversas.

Em contrapartida, o filme tem mais cenas de ação “clássicas” do terror hollywoodiano se comparado ao seu antecessor, e é capaz de criar um clima constante de tensão para o espectador, brincando o tempo todo com a curiosidade de quem assiste.

Lupita no filme "Nós"

 (Universal/Reprodução)

A trama, que tem início com uma (ótima) cena de flashback ambientada em 1986, gira em torno de Adelaide Wilson (Lupita Nyong’o), seu marido Gabe (Winston Duke) e os filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex), que decidem viajar para aproveitar as férias de verão em uma casa de praia.

Por “coincidência”, o local escolhido pelos quatro traz algumas lembranças à Adelaide, que vivenciou uma experiência traumática durante a infância ao visitar um parque de diversões nas redondezas. O clima, a princípio tranquilo, é quebrado quando os Wilson recebem uma visita inesperada: uma outra família, formada por seus “sósias” sombrios, invade a casa deles, transformando as férias em um verdadeiro pesadelo.

A escolha de Lupita, vencedora de um Oscar em 2012 na categoria Melhor Atriz Coadjuvante (por “12 Anos de Escravidão”), para o papel principal não poderia ser melhor. Ela dá um show de interpretação ao viver Adelaide, mas ganha prestígio extra nas cenas em que aparece como a assustadora Red, sua versão “do mal” com olhos constantemente arregalados e voz gutural. Ambas as personagens apresentam seus aspectos complexos e muito bem desenvolvidos pela atriz.

O grande responsável por quebrar o gelo durante toda a história, por sua vez, é o personagem Gabe, papel de Winston Duke (que já havia contracenado com Lupita em “Pantera Negra”). O pai da família tem como recurso suas tiradas engraçadinhas, originárias de uma mistura entre falta de consciência social e necessidade constante de proteger esposa e filhos. Gabe é uma espécie de respiro em meio à tensão, arrancando algumas risadas de quem o assiste.

O elenco conta, ainda, com os atores Elisabeth Moss (Kitty Tyler) – que aparece poucas vezes, mas brilha em cada uma delas – e Tim Heidecker (Josh Tyler), intérpretes do casal de amigos padrão “sonho americano” de Adelaide e Gabe.

 (Universal Pictures/Divulgação)

As cenas de embate entre as versões “boas” e “más” dos personagens, à medida que o filme vai chegando ao fim, podem parecer um pouco repetitivas ou até cansativas. Mesmo assim o roteiro, dominado pelo fator “curiosidade” típico dos suspenses, prende o suficiente para não fazer da repetição um problema dos mais graves.

A história é bem amarrada em sua totalidade, mas se encerra com algumas pontas soltas deixadas (propositalmente ou não) por Peele. No fim das contas, não há resposta lógica ou interpretação única para todas as perguntas apresentadas ao longo das quase duas horas de filme.

 (Universal Pictures/Divulgação)

Esses dois fatores, no entanto, não tornam a trama menos interessante ou relevante, muito pelo contrário. O longa, que tem boa trilha sonora, atende às expectativas e cai como uma luva no contexto dos Estados Unidos atual.

“Nós” é um terror social que traz a questão dos  privilégios à tona e, de quebra, nos presenteia com metáforas e analogias preciosas, capazes de te fazer refletir por horas após sair da sala de cinema.

O filme estreia em todo o Brasil nesta quinta-feira, 21 de março.

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