A volta ao mundo com duas bikes e um amor

A nutricionista Karla Cherri não precisou escolher se casava ou comprava uma bicicleta: aceitou as duas propostas do namorado e saiu pedalando com ele em uma volta ao mundo de três anos

Na Holanda, em foto clássica
Foto: Arquivo pessoal

Meu namorado chegou em casa um dia e perguntou se eu daria a volta ao mundo com ele. “Claro que sim!”, respondi, para logo depois pensar que isso talvez fosse uma loucura. Ainda assim, começamos a fazer pesquisas para viabilizar a viagem. A ideia era ir de avião, mas aí fomos a uma exposição do fotógrafo Cartier-Bresson, em São Paulo, e o André, meu namorado, se interessou pelo livro Caminhos, de Argus Caruso – um brasileiro que passou três anos e meio pedalando pelo mundo. Achei que era só para se inspirar, mas depois de duas semanas ele soltou: “E se a gente fosse de bicicleta?”. Ok, então pedalaríamos juntos pelo mundo! E lá fomos nós trabalhar como loucos (eu tinha três empregos!) pra levantar a grana necessária.

Seis meses antes da viagem, emprestei uma bike velha e passamos a treinar. Pedalávamos no parque de três a quatro vezes por semana. Aos domingos, aproveitávamos a ciclofaixa de São Paulo. Também fizemos um mochilão test-drive de dois meses, sem bikes, pela América do Sul. O difícil foi se desprender de tudo. Chorei quando tive de me desfazer do meu guarda-roupa e mais ainda ao deixar para trás minhas plantas. Minha ficha só caiu mesmo quando recebi o locatário do nosso apartamento e assinamos um contrato de dois anos! Largar os empregos foi mais simples. O André já era fotógrafo freelancer. Eu sou nutricionista e trabalhei muitos anos em uma empresa de fast food, mas foi fazendo consultoria que mais me achei. Tenho certeza de que meu futuro é ser dona do próprio negócio, então coloquei na cabeça que a viagem me daria mais referências.

Nossas famílias não escondiam a felicidade e o orgulho por nós, mas dava pra ver que estavam com o coração apertado. Minha mãe sempre perguntava onde iríamos dormir. Minhas irmãs diziam para eu tomar cuidado e pediam cartões-postais e fotos, com os olhos cheios de lágrimas. Na hora de partir, minha afilhada de 10 anos chorou demais. Nos abraçamos e eu disse que estaríamos juntas em sua festa de 13 anos. Aproveitei cada minuto possível para brincar com minha sobrinha mais nova, de 1 ano e meio. Como é difícil não participar do seu crescimento… Minha irmã mais velha estava grávida de cinco meses quando parti e me lembro do dia em que recebi a notícia do nascimento do Andrezinho. Que dor no coração!

SOBRE DUAS RODAS

Com uma grana justa para começar a viagem e as passagens compradas, voamos de São Paulo a Amsterdã em março de 2012. Compramos as bikes e os equipamentos de um ciclista que já pedalou 250 mil quilômetros. A empolgação era tanta que criamos um nome e um site para o projeto: BikesAndSpices, uma forma prazerosa de conhecer os diversos sabores do mundo. Feito isso, caímos na estrada – só vamos parar em 2015. A Europa já está quase vencida. Agora virão Oriente Médio, Ásia, Nova Zelândia, Japão, Havaí, Estados Unidos e América do Sul, até voltar ao Brasil.

Eu e o André estamos juntos há 11 anos (a gente tinha 20 quando começou). Namoramos, terminamos, voltamos, moramos juntos por três anos e, pouco antes da viagem, nos casamos. Mas nada se compara ao tempo que dividimos agora. São 24 horas fazendo tudo grudado. Pedalamos, chegamos ao camping, montamos a barraca, comemos, planejamos os próximos passos e dormimos, sempre juntos. Quando estou exausta e ainda temos uns 15 quilômetros para pedalar, fico irritada, xingo e perco a paciência. Daí ele vem e diz: “Vamos, amor, força!”. Diminuo o ritmo ou ele acelera um pouco mais, e assim, com uma certa distância entre nós, ficamos alguns minutos sem conversar até que a paz volte a reinar.

Na minha primeira crise de TPM durante a viagem, disse: “Não quero mais, estou cansada e vou desistir!”. Em casa, um banho quente, um chá de camomila ou uma fatia bem gorda de bolo de chocolate resolviam tudo. Aqui, percebi que seria preciso canalizar as oscilações de humor de outra forma. Não parei de sofrer com meus hormônios, mas subir pedalando uma montanha de 1031 metros de altitute, num frio de 3 graus, com vento e chuva, e depois dormir numa tenda no meio do deserto me fez mudar o foco. Não me permito mais ficar brava por pouca coisa. Sei que o André também precisa de mim. O que a gente faz é se permitir um bullying de cinco minutos (que não pode ser retrucado) em momentos tensos. Temos essa falsa discussão para descarregar e ao final morrer de rir. Ah, e a palavra desistir nunca mais saiu da minha boca!

KIT SOBREVIVÊNCIA

Para me distrair, faço as unhas com meu kit básico inseparável. Não é porque estou nômade que preciso ficar relaxada. Tiro a sobrancelha, tento passar delineador e cuidar da depilação com ceras de papel (difícil!). Escrevo receitas e, claro, namoro. Namoramos no inverno europeu, na barraca, no camping selvagem, no bangalô charmoso da Itália, no calor insuportável do Caminho de Santiago… De manhã, passo os primeiros cinco minutos deitada no peito do André. Me anima a começar qualquer dia chuvoso.

Aprendi a não criar expectativas e ir me surpreendendo com coisas simples. O sol que esquenta a gente num dia frio, o vento que refresca o dia ensolarado. Chegar a uma cidadezinha da Itália e encontrar o melhor sorvete de pistache do mundo não é nada mal, é? Um banho depois de uma pedalada torna-se especial – assim como colher uma fruta na beira da estrada ou receber um convite para um café no meio do nada. Conhecemos pessoas incríveis e, quando menos esperamos, estamos na casa delas. Um francês de quem ficamos amigos fez questão de que ficássemos uma semana na casa de seus pais. O fato de estar de bicicleta faz com que as pessoas se abram. E ser um casal ajuda: é como se fôssemos uma inspiração para quem tem vontade de encontrar um amor e viver uma grande história.

Viajo com quase 35 quilos de bagagem na bike, com poucas roupas e uma minicozinha com temperos que variam conforme a região. Enquanto pedalo, não sinto saudade de casa – estava até cansada dos barulhos que me tiravam o sono, do vizinho chato e das pessoas mal-educadas. Mas sinto falta da casa dos meus pais e de seus cafés da tarde demorados. Dos conselhos das minhas irmãs nos almoços de domingo. Da cozinha cheirosa da minha sogra. Das longas histórias da minha cunhada e das brincadeiras do meu cunhado. Das amigas grávidas falando sobre fraldas e das solteiras contando da balada. De uma ligação, do toque da campainha e de abrir o guarda-roupa e ficar em dúvida do que vestir. Mas sei que as pessoas mais importantes estarão lá quando eu voltar. Então aproveito para fazer dessa saudade algo que dá força para continuar, até o dia em que eu estiver de volta. Sempre com o André, claro.