Como aprendi a passar tempo sozinha

Ir ao cinema, pegar o trem, caminhar pelas ruas... é possível se divertir sem ter alguém para compartilhar. E mais: é um convite ao autoconhecimento!

Saio comigo. Vou ao cinema e a museus sozinha. Faço refeições sozinha (e, sim, isso significa resistir à tentação de olhar o Instagram enquanto espero meu prato). Vou a cafés e escrevo meu diário sozinha. Pego o trem e vou para novas cidades, caminhando pelas ruas sozinha.

Entendo que isso possa parecer super idiota. Você deve estar achando que sou esquisita e solitária. Mas, curiosamente, eu era muito mais solitária antes de começar a passar tempo sozinha. A sensação de estar tão pouco à vontade na minha própria pele, achando que precisava estar cercada de gente o tempo todo para respirar fundo – isso era solidão. A sensação de completa ansiedade e medo quando um namorado terminava comigo – isso era solidão. Mas isso? Isso é paz. Isso é diversão. Isso é a matéria-prima da autoestima. Eis como aprendi a passar tempo sozinha.

1. Fui lá e fiz. E parei de tentar parecer “tranquila”.
Pode ser um clichê, mas fui lá e fiz. A primeira vez que você vai ao cinema sozinha é meio constrangedora. Sua bolsa está na cadeira ao lado e você finge para os outros que seu namorado foi só buscar um refrigerante. Aceite, você está sozinha. O constrangimento vai passar – assim como o medo do que os outros estão pensando de você. Pare de tentar parecer “tranquila”. É muito provável que você nunca mais veja essas pessoas de novo, e elas provavelmente adorariam estar no seu lugar, vendo o filme sozinhas, sem aquela companhia que não para de falar.

2. Faça uma lista das suas coisas favoritas. E não espere ninguém.
Percebi que talvez fosse o caso de passar mais tempo sozinha quando tinha um monte de coisas que queria fazer, mas nunca as fazia por falta de companhia. Se sua banda favorita vai tocar e nenhum dos seus amigos está livre, não perca a oportunidade. Poderíamos esperar até o fim dos tempos pelos outros e depois perceber que deixamos de fazer as coisas que gostaríamos. Além disso, se planejar sozinho é muito mais fácil: não tem aquela troca interminável de mensagens de texto (nem os malditos chats em grupo). Pegue um pedaço de papel e escreva todas as coisas que você gostaria de fazer, mas não faz por falta de companhia. Essa desculpa não cola mais.

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3. Marque na agenda. E não dê o cano em si mesmo.

Uma vez por semana marco na minha agenda um encontro comigo mesma. Isso pode significar ir ao cinema sozinha, ou simplesmente tomar um banho de banheira e assistir reprises de Sex and the City. Colocar na agenda significa que sou prioridade para mim mesma e me ajuda a não aceitar outros programas que possam aparecer. Não vou dar cano nem cancelar com um amigo, e estou aprendendo a ser amiga de mim mesma. Também é um alívio ter uma noite só pra mim, sem precisar fazer planos, ou procurar o grupo certo de amigos para sair, quando tudo o que mais quero é ficar no sofá. Sem estresse. Sem indecisão. É fácil e reconfortante. E, acima de tudo, tenho a chance de honrar a mim e ao que quero – falar é fácil; fazer, nem tanto.

No último ano, estou solteira por opção, não por circunstâncias. Não porque ninguém me chama para sair ou porque ninguém esteja disponível. É difícil para algumas pessoas aceitarem que prefiro não namorar, minha tia e meus amigos me olham meio torto. Por que alguém escolheria ficar solteiro? Para passar tempo sozinho? Não estou deixando a vida passar? Perdendo encontros marcados pelo Tinder? E se O Cara estiver por aí, mas deixo ele escapar porque decidi ficar solteira?

Não tenho o menor problema em dizer que estou saindo comigo mesma. Tem sido a melhor relação da minha vida. Não espero resposta para minhas mensagens (nem me preocupo se elas são muito elaboradas ou carentes). E não fico me perguntando se a outra pessoa me entende.

Isso não significa que não vá voltar a namorar no futuro – vou, com certeza. Mas agora sei que o relacionamento que construí comigo mesma é o exemplo para o relacionamento em que quero estar. Sou bondosa, gentil, paciente, amável e compreensiva comigo mesma. Rio dos meus erros e não me preocupo demais com eles. Sou forte e corajosa. Esse é o tipo de pessoa com quero estar e o tipo de relacionamento de que quero fazer parte.

Sei que não vou entrar no relacionamento pela metade, vou entrar inteira. Portanto, se funcionar ou não, não perdi nada. Ainda sou eu mesma. Ainda sou plena. Ainda tenho a amizade que construí comigo e que aprendi a amar nos últimos 23 anos. Esse é o maior alívio de todos.

Matéria publicada em Brasilpost.com