Como ter sido chamada de ‘a mulher mais feia do mundo’ mudou a vida de Lizzie Velasquez

"A única forma que eu poderia demonstrar a essas pessoas que isso não seria como eu me definiria nem a minha verdade, era fazer que eu me transformasse, de alguma forma, em alguém melhor."

Até o ano passado ninguém sabia explicar o porquê de Lizzie Velasquez ser como era. Ela era um enorme ponto de interrogação. Quando nasceu, com pouco mais de um quilo, os médicos disseram aos seus pais que ela jamais falaria nem andaria.

Os médicos estavam errados. Na verdade, aos 26 anos, ela faz as duas coisas profissionalmente. Uma experiente palestrante motivacional e uma autodeclarada “pacer” (pessoa que marca o passo) quando discursa, Velazquez foi impulsionada à fama na internet em 2013, quando ela deu um discurso no TEDx Talk em Austin, no Texas, chamado “Como Você se Define?”

O discurso que ela deu sem anotações e de forma espontânea detalhou sobre sua experiência com o cyberbullying, ter sido chamada de “a mulher mais feia do mundo” e os obstáculos que enfrentou na sua vida. O vídeo deslanchou, recebendo um milhão de visualizações em poucos dias. Hoje tem mais de 9 milhões.

No ano passado, enquanto filmava o documentário sobre a sua vida, Velasquez finalmente recebeu um diagnóstico. Ela tem uma rara síndrome progeróide neonatal e é uma de apenas três pessoas que sabemos sofrem com isso no mundo. Este distúrbio faz com que seja impossível ganhar peso – ela não tem nada de gordura e nunca pesou mais do que 29 quilos – apesar do quanto ela coma, que poderia chegar a ser 60 vezes ao dia.

Essa doença também causa envelhecimento precoce e fez com que ela ficasse cega de um olho.

“Houve momentos em que fiquei bem frustrada e com raiva. Eu não sabia quem culpar ou a quem direcionar a minha raiva. Eu sempre fazia pedidos de aniversário, acendia todas as velas na igreja e rezava antes de ir para a cama. Eu dizia ‘Deus, por favor tire isso de mim. Por favor me faça normal’”, disse Velasquez a uma multidão no ESPN Women + Sports Summit em Dana Point, na California, semana passada.

A presença de Velasquez no palco é extraordinária. Ela é natural – fica à vontade, engraçada, sabe rir de si mesma e criar empatia. Ela disse ao Huffington Post que se sente mais à vontade no palco e, considerando suas experiências na infância, isso é grande uma surpresa, até para ela.

Na sua infância, no Texas, Velasquez foi provocada, encarada e muitas vezes simplesmente ignorada. Ela relembra do seu primeiro dia no jardim de infância e de perceber, pela primeira vez na vida, que as outras crianças tinham medo dela. Ela ia para casa e perguntava aos seus pais o que havia de errado com ela. “Eu considero que as respostas que meus pais me deram na época são o motivo pelo qual [hoje] eu faço o que faço”, disse ela ao HuffPost.

“Quando eu perguntava o que havia de errado comigo eles respondiam que não havia nada de errado. A única diferença é que você é menor do que as outras crianças. Eles me disseram que me amariam, apoiariam e ajudariam a alcançar todos os meus sonhos”, acrescentou. Os seus pais a tratavam como qualquer outra pessoa. No entanto, o mundo não. Velasquez lembra de ir a parques de diversões e se achar uma atração. Grupos de adultos paravam de conversar para observá-la. Ela parou de ir aos parques aquáticos pois não conseguia usar traje de banho em público.

Ela costumava se apresentar dizendo: “Oi, sou Lizzie e não tenho nenhum tipo de distúrbio alimentar”.

Velasquez disse que se esforçou muito, durante todo o seu tempo na escola, para poder olhar para si mesma no espelho e aceitar o que via. Com o amor de seus pais e suas duas irmãs mais novas, ela começou a ganhar confiança. “Nós cinco éramos muito próximos. Somos um time. E juntos eles conseguiram me fazer ver que eu tenho opções nesta vida. Nós podemos decidir se sentimos pena de nós mesmos e damos a maior festa de lamentação do mundo para nós mesmos e ficamos presos a isso — ou percebemos que há esse outro lado com tudo o que já temos em nossas vidas”, disse Velasquez no palco.

“Nós podemos dizer, sim, eu tenho isso sim ou, não, eu não tenho aquilo, em vez de dizer que desejamos ter isso ou ficar nos comparando aos outros. Pois, no fim, aonde tudo isso te leva?”

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“Seja o seu tipo de beleza.”

No colegial, ela fez parte da equipe de redação do jornal escolar e foi fotógrafa do álbum de fotos da escola. Ela conseguiu bastante apoio quando entrou na equipe de cheerleaders, ainda que admita ter feito isso quase que exclusivamente por causa do uniforme que era uma graça. “Eu não tinha nem percebido que você tinha que realmente torcer, correr e se exercitar. Eu conseguia dar boas desculpas para escapar das corridas!”, brincou ela com a plateia.

No entanto, algo mais profundo puxava Velasquez à ideia de usar o uniforme. “Toda vez que eu fazia meu papel de cheerleader eu sentia que eu colocava meu uniforme de super-heroína. Eu pensava que eu seria vista como qualquer outra garota e isso era algo que eu queria desesperadamente” disse ela no palco. Mas aos 17 anos, enquanto procrastinava em casa para estudar, Velasquez deparou-se com um vídeo de oito segundos no YouTube que a chamava de “a mulher mais feia do mundo”, com milhares de visualizações e comentários.

“Eu jamais imaginei que ao abrir aquele vídeo, toda a confiança que eu tinha em mim mesma se transformaria em absolutamente nada— esvaecendo-se por completo”, disse ela à plateia. Alguns comentários diziam algo do tipo “arranje uma arma, aponte-a na sua cabeça e acabe de uma vez com isso, saia deste mundo. Ele será muito melhor assim” e “use uma sacola na sua cabeça porque quando as pessoas veem o seu rosto elas ficam cegas”.

Velasquez ficou consternada. Primeiro, ela pensou em proteger os pais. Ela temia que o vídeo ferisse mais eles do que já a tinha ferido. Ela chorou por horas no chão e começou até a questionar se os comentários diziam a verdade. “Talvez eu deva mesmo sair deste mundo”, lembrou de pensar. “Se tantas pessoas estão dizendo isso, então talvez estejam certos. Mas havia uma voz que me dizia para não dar ouvidos. Meu pais disseram que nós devemos aprender a perdoar as pessoas pois não sabemos o que está acontecendo naquele momento em suas vidas”.

No ano seguinte, Velasquez foi estudar na Universidade Estadual do Texas. “Com o tempo eu descobri que a única forma que eu poderia demostrar a essas pessoas que isso não seria como eu me definiria nem a minha verdade, era fazer com que eu me transformasse, de alguma forma, em alguém melhor”, disse Velasquez à sua plateia.

E isso se materializou na forma de palestras motivacionais. Ela começou a estudar os famosos palestrantes online e fez do antibullying a sua causa. No ano passado ela foi a Washington, D.C. para levar uma campanha antibullying ao Congresso. Ela já escreveu três livros sobre sua vida e um documentário, entitulado A Brave Heart: The Lizzie Velasquez Story (“Coração Valente: A História de Lizzie Velasquez”) que será lançado neste semestre.

“Aquele vídeo do YouTube virou a minha vida do avesso”, disse Velasquez à plateia. “Por muito tempo eu me senti sozinha no mundo. Mas agora eu sei que não tem problema nenhum passar por esse tipo de dificuldade. Não tem problema sentir-se vulnerável. Não tem problema sentir-se fraco. Você precisa se permitir passar por esses momentos. Eu garanto que assim que fizer isso, você estará dez vezes mais motivada a transformar-se em alguém melhor”.

“Acho que é bem apropriado publicar isso aqui! Parece que foi o melhor passeio que já fiz na vida!”

O Huffington Post falou com Velasquez após o discurso sobre os conselhos que ela dá às mulheres que são alvos de críticas online por causa de sua aparência. Ela relembra quando entrou no MySpace na escola e de ter perguntado aos seus pais o que eles achavam disso. Eles a incentivaram a entrar com os olhos bem abertos, e é esse conselho que ela dá aos jovens de hoje.

“Eles me disseram que assim como existem coisas boas, existem coisas ruins. Eles disseram que se eu tivesse comentários negativos – o que desafortunadamente todos acabam tendo – e isso não a deixasse chateada, então a deixariam [entrar]”, disse ela ao HuffPost.

Velasquez incentiva os jovens a se lembrarem que nós vivemos em um mundo de gratificação instantânea, especialmente quando se trata das redes sociais. “Tenham em mente que as pessoas apenas compartilham os ‘melhores’ momentos. Parece que eles saem o tempo todo e que têm todos esses amigos nesses lugares bacanas. Isso não é a realidade. Pode ter sido apenas uma noite”, disse.

“As pessoas passam horas no Photoshop. Admito, eu sento ali e fico tentando escolher o filtro certo, mas quando você faz isso e publica, você só quer as ‘curtidas’. Você quer todas as curtidas que puder conseguir e nada mais. E agora? O que você faz com isso? Se você se olhar no espelho, sem maquiagem e sem retoques, e pensar, ‘É! Eu curto quem vejo. Sou eu’ Você precisa chegar nesse ponto primeiro” disse ela.

Velasquez não tem vergonha de admitir que às vezes é mais fácil falar do que fazer. Mas ela encontra um propósito nos dias em que ainda tem dúvidas de si mesma. “Eu sinto gratidão nos dias que recebo comentários terríveis e isso ainda acontece bem frequentemente. Isso me faz lembrar que eu ainda tenho um trabalho a fazer. Me lembra que eu tenho um propósito. Mostrar às pessoas que as coisas vão ser difíceis. Eu sou a primeira a admitir. Mas a luz do outro lado é indescritível”.

Esta matéria foi originalmente publicada no HuffPost Brasil.

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