Mulher também pode fazer drag? Conheça as ‘Riot Queens’

Coletivo de drag queens mulheres mostra que não precisa ser homem para se divertir performando a feminilidade.

Quando se pensa em drag queen, a primeira imagem que vem à cabeça é a de um homem que brinca com a feminilidade, certo? Enchimentos no corpo, figurino feminino, maquiagem e perucas exageradas. Mas quem disse que a arte de ser drag está restrita aos homens? Por todo o mundo – e também no Brasil – mulheres tem usado o drag para se expressar. E pensar a feminilidade como drag queen pode levar a muita reflexão.

Não existiu um momento em que Letícia percebesse, subitamente, ter a certeza de que faria drag. Um ano depois de criar sua personagem, Vlada Vitrova, ainda hoje ela sente ter certo caminho a percorrer neste sentido – em termos de aceitação do que faz. A jovem de 27 anos se questionou por muito tempo se devia ou mesmo podia fazer aquilo. “Tem muito homem drag que tenta acuar”, ela conta. “Mas, para essas pessoas, eu viro a cara”.

Junto de Pamella Sapphic, Ginger Moon, Lekisha Glam, Manoon Toppins, Cherry Pop, Milka, Greta Dubois e Maddie Killa, Vlada faz parte do coletivo “Riot Queens“, que reúne mulheres do Brasil que fazem drag. Além de ajudarem umas às outras, elas também debatem abertamente suas ideias e performances. “Também acabamos sendo uma referência para as mulheres que querem começar a se montar”, conta Bruna Tieme, que dá vida à drag Ginger Moon.

Hoje elas são um coletivo, mas cada uma conheceu o universo drag individualmente – e no seu próprio tempo. Até pouquíssimo tempo atrás, por exemplo, uma das lady queens do coletivo não conhecia nada deste mundo.

“Eu conhecia as drags que eu via no programa do Silvio Santos, do ‘A Praça é Nossa'”, brinca Mari Piovezan, a Manoon Toppins. “Até que um amigo meu começou a assistir RuPaul’s Drag Race e me avisou que ia ter um show de uma das competidoras, a Sharon Needles”. Depois de ver uma queen ao vivo, a vida dela nunca mais foi a mesma. Assim como aconteceu com Vlada, no entanto, ela demorou um pouquinho até poder “se autorizar” a ser uma drag mulher.

Mamãe quero ser drag

Foi preciso um “empurrãozinho” para Mari entender que podia ser Manoon. Em um workshop de Ikaro Kadoshi, drag queen e maquiador, ela começou a se abrir. “Ele começou a falar mais sobre o que era ser drag, sobre o que envolvia a arte drag”, ela relembra. “Falou que não tinha essa de ‘pode ser mulher?’, ‘tem que ser homem’, ‘tem que ser gay’. Foi nesse momento que eu falei, ‘meu Deus do céu, eu preciso fazer isso‘”.

Já para Ginger Moon, a inspiração veio também de dentro do próprio Riot Queens. Outra drag do grupo, Cherry Pop, lhe chamou atenção. “É uma mulher gorda sendo drag, acho muito incrível”, ela diz. “Ainda mais sendo burlesca”. Bastante ligada às artes, Ginger encontrou no drag aquilo que ainda lhe fazia falta no teatro e na dança.

Cherry Pop, à esquerda, e Ginger Moon se apresentando juntas.

Cherry Pop, à esquerda, e Ginger Moon se apresentando juntas. (Reprodução/@mayna.venturini/Facebook)

Conhece-te a ti mesma

Para Manoon, a maquiagem foi não apenas uma porta de entrada para o mundo drag, mas também para o autoconhecimento. “É tanto tempo se olhando no espelho que você acaba tendo uma conexão maior consigo mesma“, opina. “Eu me conheci melhor – não sabia de várias coisas do meu rosto, do olho, do nariz”.

Na época em que começou a se montar, ela estava em dúvida sobre o curso que fazia na faculdade. “Estava em um momento muito tenso, tendo altas crises, eu pensava ‘que tempo perdido, o que eu estou fazendo da minha vida?'”, ela relata. “O drag foi uma motivação, além de me ajudar a desestressar”. Hoje ela está cogitando, inclusive, seguir a carreira de maquiadora.

Além da questão da carreira, no entanto, algo que todas as queens observam é a força que fazer drag trouxe às imagens que têm de si mesmas. “Eu vejo meu corpo e meu rosto de uma forma diferente”, diz Vlada. “Não sinto a necessidade de estar sempre emperiquetada para me sentir bonita quando saio, por exemplo. Relaxei muito mais com estas coisas”. E a gente poderia até imaginar o contrário, né?

Se monta, mulher!

Elas recebem várias mensagens de mulheres que querem, mas têm receio de fazer drag. “Elas me escrevem dizendo ‘eu não faço porque tenho medo, eu não sei como os homens vão reagir, eu não sei se posso'”, conta Vlada. “Imagina a quantidade de mulher que vive com essa dúvida! Não é nem uma questão de direito [de mulher fazer drag], é só uma questão de bom senso que as pessoas precisam ter”.

Para Manoon, deixar sempre na mão dos homens esta performance específica da feminilidade faz com que eles representem as mulheres de forma satirizada – o que pode acabar sendo um sinônimo de menosprezo para algumas mulheres. Justamente por isso, defende a presença delas (seja mulheres cis ou trans) neste ambiente. “A mulher tem o seu lugar, ninguém vai mandar nela, ela tem poder sobre si”, defende. Na última edição de RuPaul’s Drag Race, pela primeira vez uma participante assumidamente trans – Peppermint – participou da competição. Ela foi até o fim, e terminou em segundo lugar.

Além de ajudar a autoestima das mulheres e ressignificar um tipo específico de feminilidade, fazer drag para elas também tem outro aspecto essencial – que, no fundo, deveria até ser óbvio: a diversão. “Eu não conseguia me expressar direito, mesmo sendo atriz e dançarina”, conta Ginger Moon. “Hoje, eu sinto que isso mudou totalmente para mim. A drag me faz totalmente feliz”.

“Eu acho que não existe regra para fazer drag”, defende Vlada. “Mas, se existisse, seria que você tem que estar se divertindo. É assim que eu me sinto, feliz”.

Glossário drag

  • Drag queen – pessoa, homem ou mulher, que faz performance da feminilidade
  • Drag king – pessoa, homem ou mulher, que faz performance da masculinidade
  • Lady queen – termo usado para dar destaque e força às mulheres que fazem esta performance da feminilidade
  • “Faux” queen – termo pejorativo, que se refere às drag queens mulheres como queens “falsas”
  • “Bio” queen – termo que exclui as mulheres trans, pois se fala das mulheres que fazem drag como “biologicamente alinhadas” com a performance.
  • Drag queer – pessoa, homem ou mulher, cuja performance não envolve noções de masculinidade nem de feminilidade