Larguei a bandidagem e virei exemplo de vida

Minha profissão era roubar. Após quase morrer num assalto, resolvi mudar. Hoje, ajudo pessoas a resgatar sua dignidade

Viviane insistia para eu buscar um emprego, mas eu não sabia fazer outra coisa senão cometer crimes
Foto: arquivo pessoal

Em um estacionamento, cercado por muros de 2 metros de altura, me aproximei do homem e o avisei que era um assalto. Estava com 24 anos, sete dedicados ao crime. A vítima era o funcionário de uma empresa em dia de pagamento, no Rio de Janeiro. Eu e dois comparsas sabíamos que ele carregava R$ 60 mil na mala.

Mas, assim que abordamos o funcionário, o dono do local notou o assalto, chamou policiais que faziam ronda ali por perto e começou a atirar em nossa direção com sua arma. Enquanto eu pulava o muro, fugindo, prometi que mudaria de vida se saísse vivo dali. Cumpri a promessa.

Eu queria ser rico e escolhi o crime

Sou de uma família humilde, de 12 irmãos. Nunca passei fome. Aos 15 anos, larguei a escola e fiz pequenos bicos com meu padrasto, que era carpinteiro. Mas achava que aquela vida não tinha futuro. Eu queria ser rico. Imaturo, comecei a roubar carros com um primo. O pai dele era policial e nos dava cobertura. O que roubávamos era dividido entre nós três. Em um desses assaltos, em 1994, fui preso no dia do meu aniversário.

Eu estava em um carro roubado, com duas pistolas e três revólveres calibre 38. Na cadeia, conheci membros de gangues organizadas que me ajudaram a expandir a minha rede de crimes. Fui solto após 45 dias, porque um comparsa admitiu a culpa pelo roubo.

Com a ficha limpa na polícia, passei a roubar caminhões de carga em rodovias. Minhas cargas prediletas eram remédios, cigarros e eletrodomésticos. Outros alvos eram lojas e empresas em dia de pagamento. Fazíamos assaltos que, às vezes, duravam até dois dias. Em um único assalto, cheguei a ganhar R$ 40 mil. Me chamavam de ”o terrorista”, por causa desses atos.

Conheci a minha esposa em uma festa perto de casa. Disse a ela que eu era um bom rapaz, que complementava a renda de trabalhador de carteira assinada com alguns bicos com jogo do bicho. Ela era de outra região e acreditou no meu papo. Três semanas depois, Viviane se mudou para minha casa, apaixonada. Ela tinha dois filhos, que aceitei como se fossem meus. Mas, quando ela descobriu como eu ganhava dinheiro, ficou chocada. Minha vida bandida era uma tortura para ela.

Todos os dias, Viviane insistia para eu largar os roubos e encontrar um emprego. Mas eu não sabia ganhar dinheiro de outra maneira. E, confesso, não ligava para o que ela falava. No fundo, gostava do poder que o crime me dava.

Não foi fácil largar os roubos e assaltos

Assim que pulei o muro do estacionamento e fugi dos policiais, naquele assalto frustrado, lembrei das palavras da minha mulher. Era dezembro de 1998. Eu precisava largar a bandidagem. Um comparsa caiu ferido, outro foi preso. Eu fugi e escapei do flagrante. Estava a salvo da polícia, mas não da minha consciência. Para piorar, a primeira filha que tivemos juntos, a Rosiane, estava pra nascer. Eu teria uma responsabilidade até então inédita. Resolvi prestar atenção a Viviane.

Parei com os roubos, mas não foi o fim do nosso sofrimento. Eu não sabia o que fazer da vida e entrei em depressão. Me viciei em drogas e passei a ficar em casa. Era sustentado pela Viviane, que trabalhava como professora concursada em uma escola estadual e ganhava pouco. Mas minha mulher não desistia de mim. Ela acreditava que eu me tornaria um homem digno.

Larguei as drogas após três anos. Para me sustentar, resolvi buscar pequenos bicos, assim como fazia com meu padrasto quando tinha 15 anos. Trabalhei durante um ano como pedreiro, mas não foi fácil me acostumar com a nova vida. Eu ganhava R$ 200 por semana. Por causa da experiência anterior, achava aquilo muito pouco pra mim.

Mas era difícil encontrar um emprego melhor sem ter qualificação. Fiquei um ano parado. Quando pegava um ônibus para encontrar algum empregador, eu me vestia de calça social preta e camisa branca, como se fosse um cobrador. Isso tudo para não pagar a passagem. Dureza….

Agora, trabalho e inspiro as pessoas

Dessa vez, porém, aceitei, modestamente, começar tudo de novo, do patamar mais baixo. Após dois anos de bicos, consegui uma vaga em um curso gratuito do Senai para me tornar bombeiro hidráulico, um encanador que trabalha em grandes edificações, como prédios comerciais e indústrias.

O curso durou um mês e, no fim, consegui meu primeiro emprego com carteira assinada. Foi a glória! Ganhava pouco, mas estabilizei as finanças da nossa casa e a minha vida. Agora faço trabalhos para diversos clientes e chego a tirar R$ 4 mil por mês. Com a autoestima recuperada, vi o nascimento da minha segunda filha, a Hadassa.

Há três anos, eu, minha esposa e nossos filhos nos mudamos para Vila Velha, no Espírito Santo, para concretizar a guinada que dei na vida. Hoje dou palestras sobre a minha história para ajudar a recuperação de pessoas que se perderam no mundo do crime ou das drogas. Outro dia, soube que um rapaz jurado de morte por traficantes havia decidido largar o crime e procurar um trabalho. Penso que o ajudei a tomar a decisão, assim como Viviane me ajudou quando quis mudar meu destino.

Fiz ele ver os riscos de ser criminoso

Viviane Marinho, 34 anos, professora e mulher do Robson, Vila Velha, ES

”Quando conheci o Robson, não sabia desses crimes. Soube por uma irmã dele e fi quei em choque. Antes, ele parecia ser um homem perfeito. Ele assumiu meus filhos gêmeos e me deu muito carinho e atenção! Por isso, temi pela vida dele, quando soube do que ele fazia. Não queria tê-lo longe de mim, fosse preso ou morto. Aconselhei-o a frequentar a igreja onde eu ia. Ele não me ouviu até o assalto frustrado. Eu estava grávida e fi z ele ver o perigo que corríamos. Eu não queria ser mãe solteira. Aí ele me escutou. Mas não foi fácil segurar o casamento. Nunca havia passado necessidades antes. Eu sustentava a família inteira, mas não dava. Às vezes não tínhamos dinheiro nem para o café. Sofri muito e pensei em largar tudo. Mas eu não podia aceitar ser mulher de um bandido. Mesmo na penúria, eu gostava de chegar em casa e ver o Robson a salvo do crime, com os filhos no colo. Valeu a pena. Hoje tenho orgulho dele!”