Não é ‘apenas sua opinião’ quando a opinião em questão é preconceituosa

A liberdade de expressão justifica tudo? Apenas não.

Não, apenas não é OK justificar preconceito como opinião e a gente ainda precisa conversar sobre a declaração da Patrícia Abravanel no SBT. Recapitulando o bafafá, a apresentadora deu uma declaração infeliz no último domingo (8), dizendo que não é contra o homossexualismo (sic), mas é contra falar que isso é normal. Também disse que é preciso ensinar aos jovens que homem é homem e mulher é mulher. Não satisfeita, ainda quis ser espirituosa dizendo que “Mulher com mulher não é tão legal assim, eu acho. Não tem aquele brinquedo que a gente gosta bastante, não dá para brincar direito.”*

Ontem – depois de uma enxurrada de críticas – Patrícia tentou se retratar, pedindo desculpas, mas reafirmando que essa é sua opinião e que ela foi mal interpretada.

Só que a gente não interpretou errado. Quem está entendendo tudo errado é a apresentadora, e discriminação travestida de opinião não passará mais em branco. Para começo de conversa, vamos falar um pouco sobre o que é ~normal~. Aquela velha história: o que torna um homossexual anormal? O fato de que o sexo praticado por ele não gera filhos? Francamente! Se for para entrar nesse mérito a gente vai ter que falar sobre a não normalidade dos métodos contraceptivos e até mesmo do amor romântico.

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Casar-se por amor (heterossexualmente!) já foi considerado anormal, sabia? A vivência do amor romântico está na literatura desde sempre, só que ela não era tida como algo a ser experimentado por todo mundo. A popularização do conceito aconteceu lá pelo século XII, com a disseminação de uma lenda celta, que daria origem à obra “Tristão e Isolda”. Só que do ponto de vista prático, político, econômico e religioso, o amor romântico não era funcional. Muito pelo contrário! Encurtando a história: relacionar-se carnalmente por amor era algo rechaçado e só bem mais tarde essa prática foi aceita. O direito a casar-se por amor é algo que só viria a ser institucionalizado no século XX! A respeito da não normalidade de métodos contraceptivos, acho que não precisamos entrar em pormenores, né?

Bom, vamos estabelecer o seguinte: todo mundo sabe que um indivíduo homossexual não é regra na natureza e que, funcionalmente, nem poderia ser. Seres inférteis também não são. Isso é biologia básica e a comunidade LGBT está bem consciente sobre isso. Só que você aponta para uma mulher que não pode ter filhos e a chama de “anormal”? Não. E sabe, por que? Porque isso é cruel. Isso estabelece menos-valia. Você está incutindo juízo de valor e sabe disso. Ou deveria saber.

Outra coisa: um cidadão que se relaciona com outro do mesmo sexo não é regra na natureza, mas isso não o torna anormal. A homossexualidade já foi reconhecida como natural pela comunidade científica, pois o ser humano não é o único animal que se relaciona homossexualmente. Macacos, leões, aves, golfinhos e até besouros podem apresentar desejo homossexual. Para explicar bem explicado: a homossexualidade é natural, pois faz parte da natureza, não é um capricho da mente humana.

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Dito isso, ensinar uma criança sobre “homem ser homem e mulher ser mulher” não vai mudar em nada a natureza dela. Para começo de conversa, essa declaração é absolutamente infeliz e, mais uma vez, nada tem a ver com opinião. Tem a ver com uma profunda falta de informação! Lésbicas continuam sendo mulheres e homens gays continuam sendo homens. Confundir gênero com orientação sexual – e repassar essa informação errada em rede nacional – é um desserviço muito grande! Não tem nem como chamar isso de opinião, pois é um erro do ponto de vista científico, inclusive.

No meio de tanto erro, Patrícia disse uma coisa certa. Ela falou que jovens que passam por experiências homossexuais podem vir a se arrepender depois. De fato podem! Mas sabe por que? Porque a gente ainda se depara com discursos discriminatórios como o dela. Porque ainda é admissível que a nossa liberdade seja vista como algo errado. Caso contrário, uma experiência homossexual será apenas uma experiência sexual como qualquer outra. Quando há respeito e maturidade entre todas as partes envolvidas, a vivência do desejo é algo simplesmente natural. Ela passa a ser um fardo apenas quando nos é ensinado que aquilo é errado. Veem a semelhança disso com o rechaço ao amor romântico e ao sexo não reprodutivo? Veem como é saudável que certos conceitos sejam revistos? Veem como essa revisão é, a priori, parte da história do mundo? O normal é entender e questionar as regras impostas. O nome disso é evolução.

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O que a gente precisa ensinar – a crianças e adultos – é o respeito às diferenças. O respeito pleno e não aquele que resulta em declarações tacanhamente dissimuladas como “respeito, mas não aceito”. Essa é uma contradição nos próprios termos! O que isso significa? Que o cidadão nem é a favor do extermínio dos LGBTs, desde que eles fiquem quietinhos, invisíveis e à margem da sociedade? Bom, então aí vai uma notícia: o nome disso não é respeito.

De uma vez por todas a gente precisa compreender que ser humano nenhum torna-se gay (ou bi, trans, agênero, o que for) a partir do momento em que descobre que isso é normal. Se hoje a gente vê mais LGBTs na sociedade é porque há mais liberdade em mostrar-se ao mundo do jeito que se é. Não é um vírus que se espalha, é a natureza individual que se manifesta. E tentar talhar isso na forma de repressão fantasiada de opinião, isso sim deveria ser inaceitável. Não deveria ser normal.

* Em nome de todas as lésbicas desse mundão, essa que vos fala gostaria de esclarecer que nós conseguimos “brincar direito” e que a gente não gosta bastante daquele “brinquedo”. Ele não nos faz falta e, se um dia fizer, a gente é livre pra brincar de outras formas. Simples assim.

 

 

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