Nasci mulher, mas sempre me senti homem

Aos 14 comecei a ter relações com meninas e, ao ser descoberto pela minha mãe, fui expulso de casa

Sempre tive interesse por brinquedos 
de meninos. Nunca gostei de boneca, 
preferia futebol
Foto: Paulo Pereira

Se hoje ainda é um pouco difícil falar sobre transexualidade, imagine há algumas décadas. Transexual é aquela pessoa que tem convicção de que pertence ao sexo oposto. No meu caso, isso envolve muitas particularidades desde a infância.

Eu sempre me interessei mais pelos brinquedos do meu irmão. Bonecas nunca me agradaram. Além disso, eu jogava futebol como ninguém. Vestidos e acessórios femininos serviam mais para trazer incômodo do que bem-estar. Mas, de modo geral, o convívio com as outras crianças era tranquilo.

Namorei uma menina até o dia que ela me viu de vestido

Meu pai até entenderia o fato de eu ser lésbica, mas não um homem transexual. Do lado materno, a coisa era mais radical. Minha família era influente na cidade de Araraquara, no interior de São Paulo, e essa minha diferença trazia certo desconforto a eles.

Para você ter uma idéia de como eu parecia ser um menino, aos 11 anos eu paquerava uma colega de catecismo. Ficávamos juntos na praça, conversando. Meu cabelo era curto, e a aparência reforçava a identidade com a qual me apresentei: João.

A verdade só foi revelada no dia da primeira comunhão: nessa ocasião, eu apareci de vestido. A garota ficou muito confusa, assustada e não quis continuar sendo minha amiga.

Aos 14 anos, quando eu trabalhava como vendedor numa loja de roupas, conheci uma garota. Ficamos juntos por um ano. Um dia, minha mãe nos flagrou na cama. Nem preciso entrar nos detalhes dessa cena… Imagine a situação! O namorinho acabou logo, e eu fui colocado para fora de casa.

Pedi esmola na porta de uma igreja

Nos cinco meses em que fui abandonado, fiquei em hotéis baratos e, quando o bolso esvaziou, dormi em casas abandonadas. Eu sabia que a atitude tomada por meus pais era injusta, e a única maneira que encontrei para chamar a atenção foi aparecer na porta da igreja, em plena missa do sábado, em geral lotada.

Pedi esmolas a todo mundo. É claro que depois a cidade toda ficou comentando. Meus pais cederam, e eu voltei ao lar. Eles imaginaram que fora de casa eu poderia trazer ainda mais dores de cabeça.

Eu incomodava também algumas pessoas na cidade. Um dia, na saída de uma danceteria, um grupo de moleques olhou pra mim. Nem tive tempo para me defender: fui agredido. 

Vi de perto que o preconceito pode partir de qualquer pessoa. O policial que me socorreu negou-se a registrar boletim de ocorrência. Ele afirmou, sem rodeios, que a minha aparência é que tinha provocado todo aquele desconforto.

Minha mãe teve opinião semelhante. Nosso convívio era ruim e sem muitas chances de melhora, pelo menos na adolescência. Eles desejavam que eu namorasse um menino. Por esse motivo, a pressão continuava.

Aos 16 anos, combinei com um amigo que ele se apresentaria como meu namorado. Ele foi à minha casa e, em pleno Natal, entregou um presente e me pediu em namoro na frente dos meus pais — com anelzinho de compromisso e tudo mais!

Briguei com ele na frente da minha família. Até hoje tento entender por que ele levou aquela brincadeira tão a sério…