‘Pode Gritar’: projeto literário dá voz a vítimas de violência sexual

Vítimas e escritores estão quebrando o silêncio através de relatos emocionantes.

“Pode gritar, ninguém vai te ouvir”. Uma das frases mais ouvidas por vítimas de estupro foi a mesma que serviu de inspiração para um projeto que está dando voz a vítimas de abuso sexual através da literatura. “Vítimas desse tipo de violência têm, de forma recorrente, uma característica comum: o silêncio. Por vergonha, culpa que lhes é infringida pelo agressor ou medo do julgamento da sociedade, costumam guardar segredo. E o silêncio corrói. O que fazemos é emprestar nossa voz para que essas pessoas finalmente possam gritar sua dor”, explica a escritora Nurit Masijah Gil, que idealizou o “Pode Gritar” junto com Robertson Frizero, que também é escritor.

Desde que nasceu, no final de 2015, o projeto vem recebendo relatos de vítimas que sentem a necessidade de contar o que viveram. Os depoimentos são analisados e cuidadosamente recontados por Nurit, Robson e outros escritores voluntários. A identidade das vítimas é mantida em sigilo e a equipe do projeto tem a responsabilidade de fazer com que o material final reproduza as histórias com todo o cuidado que o tema exige.

“O intuito não é denunciar, mas conseguir falar sobre o assunto. Ver seu relato reescrito por um escritor e publicado no site do projeto tem um efeito libertador para as vítimas. Os retornos, quando ocorrem (esta exposição, mesmo por email, é difícil) atestam a necessidade que havia de gritar a dor”, diz Robertson. Além de dar voz a quem passou pelo trauma e mostrar a outras vítimas que elas não estão sozinhas, a iniciativa também visa mostrar a todos que essa realidade é mais comum do que se pensa. “Temos um público geral de leitores fiel e crescente, que acompanha o projeto e que se mostra muitas vezes surpreso com uma realidade que apresentamos”, acrescenta Nurit. 

"Não consigo nem imaginar que logo estarei com aqueles a quem preciso chamar de família", diz a jovem narradora do Relato 09, que publicamos hoje no projeto PODE GRITAR. Um fato tantas vezes constatado por Doralino Rosa de Souza, nosso escritor-voluntário que reescreveu esse relato e trabalhou por muitos anos como Conselheiro Tutelar, aparece neste relato: a família, muitas vezes, esconde os casos de abuso sexual para não se desmantelar; infelizmente, é recorrente a situação de mães que fazem vista grossa para os abusos sofridos por filhas e filhas nas mãos de seus companheiros, em nome da manutenção da relação, muitas vezes movidas por questões financeiras… Um relato de bravura e um pedido de socorro de alguém que não quer se calar diante do que viu. https://podegritar.wordpress.com/2016/05/23/relato-09/ #podegritar #abuso #abusosexual #sexualabuse #violenciainfantil #disque100

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A inspiração para o “Pode Gritar” – que é de Porto Alegre – veio do projeto gringo “Ubreakable”, em que vítimas de estupro, abuso e violência doméstica mostravam cartazes com frases ditas por seus agressores. Nurit costuma escrever sobre o universo feminino em seus textos e Robertson lançou há pouco tempo o romance “Longe das Aldeias”, em que aborda o estupro como arma de guerra. “Entre nós, existia a afinidade trazida pela literatura e, numa conversa no inicio de 2015, surgiu a vontade de, através dela, estruturar um projeto que pudesse fazer diferença na vida das vítimas de abuso sexual”, conta Nurit. 

projectunbreakable.tumblr.com projectunbreakable.tumblr.com

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“Eu estava esperando por isso a manhã toda” (depois da igreja)

Até agora, o projeto já recebeu 15 relatos, vindos de mulhereres e também de homens. “Entrar em contato com esta dor, que geralmente estava bem guardada, é um processo difícil. Muitas pessoas já nos procuraram dizendo que vão escrever e enviar seus depoimentos, mas estão no processo de colocar o sofrimento em palavras. É um processo doloroso e nós respeitamos este tempo”, diz Nurit. 

O espaço é aberto a todos que quiserem dividir sua história e, para entrar em contato, basta enviar um email para podegritar@yahoo.com.br ou mandar mensagem através do Facebook. Robertson e Nurit garantem que o sigilo é sempre respeitado e que nem mesmo os escritores parceiros tomam conhecimento sobre a identidade das vítimas. Você se identificou e sente vontade de colocar a dor para fora? Então pode gritar sem medo!

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