Profissionais fazem grande mutirão para agilizar casamentos LGBT de graça

Frente ao atual cenário político, casais do mesmo sexo temem perder o direito ao casamento em breve.

Medo e resistência. Ainda que pareçam opostos, esses dois sentimentos sempre estiveram na rotina de quem faz parte da comunidade LGBT. E, atualmente, isso está ainda mais aflorado no Brasil.

Com Jair Bolsonaro (PSL) na presidência e o conservadorismo em alta no Congresso Nacional, o receio de perder direitos como o de se casar aumentou entre os LGBT. Até mesmo o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) já fez esse alerta e aconselha aos que têm interesse de se casar, que façam isso ainda em 2018. 

Tendo a consciência de que um casamento demanda tempo, dinheiro e planejamento, uma campanha especial começou a circular nas redes sociais. Com a hashtag #CasamentoLGBT, diversas pessoas passaram a fazer postagens dizendo que, dadas as circunstâncias, elas estão disponíveis para ajudar a fazer acontecer a união desses casais e o melhor: de forma totalmente gratuita.

É o caso da fotógrafa Monique Veloso, que fará a cobertura de um casamento homoafetivo no dia 24 deste mês e contou que não sabia de início o real motivo da união de tantos profissionais, mas que, ao descobrir, tudo ficou ainda mais intenso.

“Não estava ciente da questão do direito ao casamento, que poderia ser revogada. Meu instinto mesmo foi mostrar o amor diante de algumas pessoas que não podem pagar uma cobertura, um ensaio fotográfico […] Quando vi a primeira postagem, achei bacana demais. Uma corrente linda de solidariedade”.

Monique explicou que os custos das fotografias serão completamente arcados por ela, mas que alguns casais também oferecem trocas de serviços e transporte, caso o local da cerimônia seja longe de sua cidade, Olinda.

Casal de homens em cima de bolo de casamento

 (Thinkstock/Thinkstock)

A proposta também foi abraçada por Pamela Jacobus que, mesmo sendo heterossexual, enxergou nesse movimento uma forma de usar o seu trabalho como fotógrafa para lutar contra a homofobia.

“Eu sou hétero, mas me dói ver que algumas pessoas possam não ter os mesmos direitos que eu tenho. Não faz o menor sentido. Acredito que é importante nos unirmos e lutarmos pelas causas em que a gente acredita. O resultado das eleições me assustou muito e está à flor da pele a vontade de fazer o que estiver ao meu alcance, mesmo que seja pouco”, explicou ela.

Pamela se propõe a acompanhar os noivos com cliques especiais, desde a preparação do casamento até o fim da cerimônia. Ao final, ela entrega todas as fotos tratadas em até 20 dias após a celebração.

A empatia também gritou forte dentro de Susan Lisi que, além de também estar noiva, conviveu com muitos casais homoafetivos que decidiram adiantar o casório por medo.

Formada em Organização de Eventos Sociais, Susan é assessora de casamentos e cerimonialista. O que isso significa? Que ela sabe exatamente quais fornecedores indicar aos noivos, é uma ótima acompanhante nas visitas técnicas aos locais importantes para a data, auxilia na contratação de outros serviços e, claro, ajuda na organização daquela lista de convidados de última hora.

Monique, Pamela e Susan são apenas alguns dos nomes que surgiram nos últimos dias para fazer a diferença nos sonhos de alguns casais, como Roh Moraes e Fran Souza.

Se no dia 24 elas iriam apenas ficar noivas, com a solidariedade de profissionais como Monique, as duas decidiram logo casar. Mães de um pequeno de 10 anos, Roh e Fran selarão sua união em uma cerimônia simples, mas que foi cheia de parceria desde o início.

“Nós somos decoradoras de festas e tivemos algumas oportunidades para trocar serviço. Ganhamos as alianças, o buquê, o espaço, uma amiga cerimonialista tirou nossas fotos do pré ensaio e, graças ao projeto do auxílio para o casamento, conseguimos uma fotógrafa profissional, a Monique”, explicou.

Porém, Roh conta que, no início, desconfiou desse mutirão de apoio ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Ela diz que chegou a pensar que as pessoas que estavam vindo até elas eram apoiadoras do Bolsonaro.

Esse movimento de solidariedade está acontecendo em diversos cantos do Brasil e, em São Paulo, vai até rolar casamento coletivo. A ação vai acontecer no dia 15 de dezembro e está sendo organizada pela  Casa 1, um Centro de Cultura e Acolhimento LGBT.

No início, era previsto que apenas cinco casais, com dez convidados cada, participassem, mas em menos de três dias de divulgação, 101 casais já se cadastraram. Em uma conversa com o MdeMulher, Iran Giusti, fundador da Casa 1, diz que essa grande busca pela oportunidade certamente não é por acaso. 

“As pessoas estão com medo e com razão. O Brasil não tem nenhuma lei federal que garante direitos da população LGBT, o que temos são medidas do judiciário, que tem se mostrado muito mais plástico e politicamente manipulável do que se esperaria. Tendo em vista que o presidente eleito sempre usou pautas de grupos minorizados para manipular e encobrir seus atos, é possível imaginar que vá fazer isso também na presidência. Resumindo, para passar o seu projeto que privilegia alguns poucos, ele vai cercear direitos de grupos já vulneráveis para gerar uma revolta e desviar o foco”, aponta ele.

Iran conta que a Casa 1 está se organizando para ampliar – e muito – o casamento coletivo. “Estamos articulando para fazer com pelo menos 50 casais. Talvez consigamos atender 100% da demanda”.

A solidariedade também ecoou nos comentários do post sobre a ação. “Sou estudante de cinema e apaixonada por edição de vídeo! Adoraria filmar e editar um vídeo do evento! Ou, se já forem filmar, adoraria só editar mesmo! Me chamem, quero ajudar nesse evento incrível!”, escreveu uma das seguidoras.

Publicitária aqui. Posso fazer convites digitais pra mandar por e-mail e WhatsApp, escrever votos apaixonados e ainda ajudo na cozinha no dia”, comentou outra. Mais de 180 pessoas já se ofereceram para ajudar, segundo a Casa 1.

Quem disse que a união não faz a força, né? ❤