Psicóloga fala sobre os riscos da adultização e erotização de meninas

"A saúde pública deveria ter mais envolvimento com isso, mas não tem", diz a neuropsicóloga Deborah Moss sobre esse problema que é cada vez mais comum.

Recentemente, Gabriella Abreu Severino, mais conhecida como Melody, tornou-se novamente alvo de polêmicas, dessa vez envolvendo seu último clipe e sua aparência em fotos do Instagram. A menina sofre um processo de erotização e adultização por conta do modo que se portava e como se vestia em publicações nas redes sociais e nos vídeos – sendo que ela tem só 11 anos de idade.

Melody era assediada online por meio de comentários de conotação pornográfica e chegou a ter sua conta suspensa após um grande número de críticas quanto ao apelo sexual das fotos. Em seu último videoclipe, já fora do ar, a cantora mirim faz caras e bocas, usa um figurino sensual e aparece com a maquiagem carregada, lhe dando a aparência de uma pessoa mais velha. E isso se repete nas fotos que ela posta.  

O pai de Melody, Thiago Abreu, que também trabalha como seu empresário, é acusado como responsável pela exposição e sexualização da menina. Ele pode pagar multa por isso, como informa a CLAUDIA.

Frente a isso, a adultização e erotização precoce de meninas foi novamente colocada em pauta. Não só Melody, mas também várias garotas são vistas na internet em um nível de exposição questionável. Milly Bobby Brown, a estrela de Stranger Things, é outro exemplo famoso. Ela tem apenas 14 anos e se veste como uma mulher adulta, pelo que mostram os cliques feitos em alguns eventos. 

Millie Bobby Brown, de 14 anos.

Millie Bobby Brown, de 14 anos. (Paul Zimmerman/WireImage - Raymond Hall/GC Images/Getty Images)

O MdeMulher conversou com Deborah Moss, neuropsicóloga e especialista em psicologia do desenvolvimento, a respeito desse comportamento das crianças e pré-adolescentes que têm um histórico de comportamento igual ao de Melody. Buscamos compreender, sobretudo, as consequências que essas atitudes podem ter no futuro, influenciando o desenvolvimento sexual, psicológico e emocional das jovens.

Deborah fala sobre o quão importante é a fase da infância para o desenvolvimento humano e alerta sobre o seu encurtamento, fenômeno potencializado pela popularização da internet em meio às crianças. “As crianças de hoje em dia já querem logo ser adultas. Elas acabam tendo que passar por toda a infância sem ter aquela parte lúdica”.

Melody aparecia em fotos do Instagram com a maquiagem carregada e com roupas  sensuais.

Melody aparecia em fotos do Instagram com a maquiagem carregada e com roupas  sensuais. (Reprodução/Instagram)

No caso de Melody, que ainda é uma criança, Deborah afirma que essa erotização é fruto da maneira em como ela se apresenta para a internet e que isso não é uma escolha consciente dela. “Ela é uma criança que está tentando ser e aparentar maior do que ela é. E a gente tem que pensar se, emocionalmente, ela vai dar contar de lidar (com o fato) de ser mulher e de ser olhada de uma forma erótica”, disse.

No campo de pesquisa sobre o desenvolvimento humano, ela diz que há o pressentimento e a análise que, de alguma maneira, a fase que já era curta está se encurtando cada vez mais. Na situação de agora, a conclusão que se tira é que “a criança já nasce e cresce sabendo que é adulta” e que, segundo Deborah, a saúde pública “deveria ter mais envolvimento com isso, mas não tem”.

“Os adultos já estão se relacionando com ela como se ela fosse adulta. Ela está de alguma forma incorporando esse papel (de mulher adulta) que ela está assumindo”, analisa.

Não só a sexualização da cantora mirim, mas também sua exposição ao público é problemática. Segundo Deborah, Melody acaba sendo modelo para outras meninas da mesma idade e reitera que não é legítimo dizer que isso é uma escolha 100% dela.

“Essa menina tem algum responsável legal por ela. A forma que ela se expõe confunde, (dando a entender) que ela é uma adulta. E é esse o perigo, ela não é uma adulta. Ela não responde pelos atos dela legalmente”, alerta ela.

A neuropsicóloga acredita que os adultos devem cuidar de uma criança que se encontra nesse nível de exposição para evitar o risco de transtornos no futuro, como depressão e ansiedade. Segundo ela, essa demanda emocional de exigência e expectativa é demais para uma criança dessa idade.

“A chance de dar errado é muito grande porque ela vai sendo exigida muito mais do que ela vai dar conta. E pode acontecer que nem os outros artistas que somem do mapa”, explica.

Para ela, é necessário que os pais determinem limites para essa ‘geração internet’ que convive e lida com as redes sociais constantemente. Os limites entre cada família podem ser bem diferentes, mas os responsáveis não devem hesitar em moderar a atuação e o perfil das crianças online.

Melody e a mãe, de 31 anos.

Melody e a mãe, de 31 anos. (Reprodução/Instagram)

E quando se fala em riscos, não apenas a exposição excessiva está inclusa. Deborah ainda esclarece que uma vez que uma menina não está brincando e se divertindo – isto é, não fazendo atividades recreativas durante o período de sua infância –  é muito maior a chance de ela começar sua vida sexual mais cedo e acabar passando por uma gravidez precoce, além da maior possibilidade de contrair DSTs (doenças sexualmente transmissíveis).

A carreira, a fama e o assédio estão interferindo no desenvolvimento de Melody. Quando casos como este surgem, o mais coerente é se juntar aos responsáveis legais e encontrar uma forma de resolução que seja favorável à criança. Afinal, ela ainda é uma criança. “O ideal seria pensar em qual seria o meio termo. Ela canta, mas ela tem que ter uma vida de criança em paralelo a isso”, conclui Deborah.