Quem deu o direito de você me assediar?

"Para mostrar que o assédio é algo que deve ser punido - é fundamental não silenciar. Muitas vezes, as mulheres se sentem intimidadas e, para se preservar de julgamentos, escolhem o silêncio."

“Não tranque a porta”, “Não atenda de pijamas”, “Fique de olho”, “Não seja simpática”, “Qualquer coisa, o vizinho está sabendo. Ou me liga”, “Tome cuidado”, “Se comporte”. Provavelmente toda mulher já ouviu esta sequência de frases antes de receber um homem estranho em casa. Para qualquer proximidade, todo cuidado era pouco. E ainda é.

Eu mesma já vivi e presenciei situações assim, e me lembrei delas quando, no final do mês passado, aqui no Brasil Post, publicamos a notícia de que a jornalista Ana Prado foi assediada por um atendente da NET, mesmo sem entrar em contato pessoalmente com ele, mas sim, via WhatsApp.

A partir do caso da Ana, outras pessoas começaram a denunciar casos tão absurdos quanto. Desde segurança do banco que pediu o telefone da cliente para o gerente, até o funcionário que ofereceu via Whatsapp planos de TV a cabo com canais eróticos de graça (!).

O que não dá para ignorar é o fato de que a maioria das denunciantes eram mulheres. Quer dizer que simplesmente por ser mulher alguém tem o “direito” de entrar em um banco de dados, pegar o telefone dela – e assediá-la? Quem deu esse “poder”?

Pela lógica da sociedade patriarcal, se você é mulher, esse “falso direito” existe e se manifesta. Tanto, que chega a ser “normal”, “aceitável” e “invisível” cantar uma mulher na rua, assediá-la pelas redes sociais ou até forçá-la a determinada situação.

E ‘ai’ dela se não aceitar.

Outros ficaram se perguntando por que quando um caso de assédio acontece com uma mulher tem muito mais visibilidade do que com um homem. Mesmo em pleno século XXI, a sociedade não fez um movimento completo de desconstrução das diferenciações de gênero.

A dominação masculina e as diferenças banalizam comportamentos e normas entre os sexos. No machismo, é “natural” que a mulher assediada corresponda ou se cale diante da abordagem. Afinal, ela vive em função do homem e foi feita para ser “cortejada”.

Quando um homem se refere à voz, ao corpo, ou a alguma outra característica de uma mulher como um objeto de apreciação sexual, na verdade, ele está dizendo que elepode usufruir disso. O assediador assedia e, na cabeça dele, você é obrigada a aceitar.

Segundo a pesquisa da campanha Chega de Fiu Fiu, realizada em 2013, 99,6% das entrevistadas afirmaram que já foram assediadas — e mais de 80% não achou legal. O sentimento em situações assim? Medo.

Dados recentes de uma pesquisa realizada pela Énois, Inteligência Jovem, em parceria com o Instituto Vladimir Herzog e o Instituto Patrícia Galvão mostra que 90% das entrevistadas, entre 14 e 24 anos, já deixaram de fazer algo por medo da violência. 82% já sofreram preconceito só por serem mulheres. Entre as coisas das quais elas já abriram mão, estão andar de ônibus, circular em uma rua à noite e até deixar de usar saia ou short (!).

Hollaback!, ONG americana que luta contra o assédio em locais públicos pelo mundo e a Universidade de Cornell, realizaram uma pesquisa que pode ser considerado como o maior estudo sobre este tipo de violência já realizado. Segundo a pesquisa, mulheres de países como a Argentina, a Índia, o Nepal e os EUA afirmaram já ter sido agarradas, apalpadas e mudaram o percurso para casa por causa do assédio. 71% das entrevistadas afirmaram que já foram perseguidas pelas ruas. Você pode ler a pesquisa na íntegra, em Inglês, aqui.

Parece absurdo, e é.

Por causa do medo que sentem de serem agredidas ou abordadas de maneira machista, as mulheres vivem uma rotina de medo e limitações. Quantas outras histórias não estavam escondidas e vieram à tona apenas depois que a primeira se tornou pública, no caso dos atendentes das empresas de telefonia, por exemplo?

Para mostrar que o assédio é algo que deve ser punido – é fundamental não silenciar. Muitas vezes, as mulheres se sentem intimidadas e, para se preservar de julgamentos, escolhem o silêncio.

“A mulher tenta se defender saindo do espaço público – para não sofrer, não ser agredida”, aponta Beatriz Accioly, pesquisadora de violência de gênero da USP. “E esta não é a solução. A rede está aí para colaborar com a denúncia”.

“A violência de gênero e contra a mulher é um problema de todos. Eu sempre falo que a internet é uma aliada. Discutir isso como algo público é fundamental. A violência de gênero é um problema de todos”, completa Juliana de Faria, idealizadora do coletivo feminista Think Olga.

Nenhuma mulher deveria se “resguardar”, “preservar”, “tomar cuidado” ao andar na rua ou ao receber um estranho em casa. Muito menos silenciar um caso de assédio nas redes sociais — em que o seu direito à privacidade é violado. Nenhuma mulher deveria nada, nunca.

É doloroso e precisa ser desconstruído para dar lugar ao respeito e, principalmente à igualdade.

Matéria publicada em brasilpost.com.br

 

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