Reinventar-se é (muito) preciso

A vida é movimento e o que te deixa feliz hoje pode não significar quase nada amanhã

Uma casquinha de polenta é algo tão banal quanto só uma casquinha de polenta pode ser. Não importa, não impacta, não muda nada na vida de ninguém, a não ser na minha: consegui finalmente fazer a minha primeira polenta crocante por fora e cremosa por dentro. Foram muitas tentativas. Depois de aprender a medida certa entre a farinha e a água, o ponto do fogo, o jeito certo de mexer, o tempo certo de espera para leva-la à frigideira, hoje meu ego foi na lua: quase perfeitas!

Parece pouco para tanta felicidade, não é? É. Mas só nós sabemos quanto custaram nossas vitórias. Essa polenta implica, entre muitas outras coisas, uma mudança de vida significativa que hoje me permite almoçar em casa quase todos os dias, após anos e anos e anos fazendo isso raramente. E entre o “quase todos os dias” e o “raramente” há um processo de adaptação e de disponibilidade a aprender a fazer algo novo (cozinhar!) que incluem etapas – umas fáceis outras nem tanto.

O tema “reinvenção” vem me rondando há algumas semanas. Um tanto pela minha fase de vida, mas também pelas longas conversas que tenho tido com um grande amigo. Por razões que nos escapam estamos lidando com isso. Nessas conversas não faltam “lembra quando fiz isso? não é possível!” ou “lembra quando me apaixonei por fulano? como fui capaz?” ou “como eu adorava aquilo!”. 

Claro que existem as mudanças naturais da existência – uma pessoa de 20 certamente não é a mesma aos 40. O que te deixa feliz hoje não significa quase nada amanhã. Não deixa de ser uma reinvenção.  

Mas o que estamos às voltas – eu e meu amigo – são aqueles momentos quando você decide que vai mudar. Que vai ser melhor, que vai se dar mais valor, que vai ser mais solidária, que vai ser mais alguma coisa que te faça bem e se possível que possa fazer bem aos outros. Quando calha de ter esse duplo efeito é o melhor dos mundos.

Então nesses papos relembrei a viagem que fiz para o Nepal em 2008, quando era editora da revista Viagem e Turismo. Numa segunda de manhã meu chefe berra da sala dele: “Luuud!”. Só pensei que a semana mal tinha começado… A proposta: “Topa fazer um trekking de onze dias no Nepal? Você embarca daqui duas semanas. Topa?”. Na hora eu disse “Claro!”.  Só depois do “sim” imediato é que caiu a ficha. O Nepal é a meca mundial do trekking e do montanhismo, pois reúne os dez maiores picos do mundo em seu território – e eu, naquela época, era a maior das sedentárias.

 Altas altitudes, um grupo com 20 pessoas completamente desconhecidas, num país do qual eu sabia bem pouco, a não ser que era paupérrimo: a perspectiva constrangia. Após tomar todas as vacinas, aprender mais sobre o destino e enfrentar todos os terrores internos, embarquei. Melhor, embarcamos.

 Sim, foi das melhores coisas que fiz na vida. Conheci uma cultura completamente diferente, ganhei amigos e enfrentei meus limites. Quase todos eles. A timidez, o cansaço, a resistência em pedir ajuda e o maior de todos: o de não ser capaz. Especificamente nessa situação, isso significaria ter de ser resgatada no meio do Himalaia. Como olharia para os colegas? Para o meu chefe? E se eu voltasse sem matéria? O fracasso não tem uma cara amiga, definitivamente.

Foi fundamental o conselho que recebi do guia do grupo antes de partir: “Entenda que seu corpo depende da sua cabeça. Há pessoas em ótima forma física que não conseguem completar o percurso por motivos psicológicos”. Cuidei de preparar a mente, já que o corpo ia com aquele mesmo, o desacostumado a fazer exercícios. O dia em que alcançamos o Annapurna Base Camp (ABC), nosso objetivo, nunca vai sair da minha cabeça.

Cheguei lá no último “pelotão” (assim chamamos os grupos que iam se formando durante a caminhada, de acordo com o ritmo das pessoas). Era um pelotão de três: eu, outra moça e o guia. Uma quarta pessoa que estava junto não conseguiu e parou para dormir num alojamento anterior ao ABC.

O Nepal está comigo toda vez que sinto medo de não ser capaz. Também me ensinou que não fujo de desafios. Antes de ir, eu era a moça que nunca tinha feito uma trilha na vida. Quando voltei, era a moça que tinha enfrentado o intimidador Himalaia até o fim – isso veio junto com um monte de significados, entre eles o da reinvenção.

Li por aí que a ex-diretora do O Boticário, Andrea Motta, pediu demissão do cargo e se prepara para entrar como estagiária numa floricultura. A rede de cosméticos transformou-se em uma das maiores do mundo na gestão dela e assim mesmo chegou a hora de ela parar. Dia desses assisti a um filme com o ex-bailarino Mikhail Baryshnikov. Lembrei que ele é considerado um dos maiores da história da dança, mas hoje é um ótimo ator.

A reinvenção é uma força compulsória. Pode ser uma grande guinada, uma viagem restauradora ou uma casquinha de polenta. Pode ser retumbante ou sutil. Sábios são aqueles que conseguem comemorar as grandes e as pequenas vitórias, não é mesmo?