Reúno a minha galera pra mudar o mundo

Bastaram dois dias para realizar os sonhos de uma comunidade. Na maior farra

Oásis é um método para motivar a galera a se reunir para realizar o sonho de 
uma comunidade
Foto: arquivo pessoal

A menina de 4 anos recolhe areia num copinho de plástico. As garotas maiores usam baldes e os adolescentes despejam tudo em carrinhos de mão que vão parar no descampado. Ali outros voluntários nivelam o chão. Na hora da chuva, tombos pra todo lado. Bem divertido! No final do dia, estava quase pronto o campo de futebol de areia do Jardim Coqueiro, na periferia de São José dos Campos, no interior de São Paulo. E não só.

Confira as fotos do pessoal botando a mão na massa!

A reforma do centro comunitário ficou adiantada e a pracinha com brinquedos pra crianças com tudo mais ou menos engatilhado para a construção no dia seguinte. O prazo para concluir todas essas empreitadas? 48 horas. Pouco? Não é. No jogo Oásis, aprendi que em dois dias é possível realizar sonhos. E sonhos mudam o mundo.

Mudanças com sonhos possíveis

Como começar? Reunindo amigos, estudantes, família ou conhecidos para uma brincadeira. O Oásis é um método que dá o caminho para impulsionar essa galera a se reunir para realizar o sonho de uma comunidade. Não se trata de uma ONG. É uma gincana. Divertidíssima.

No meu caso, a brincadeira começou na internet. Participo de uma rede tipo Orkut, chamada Ning, que reúne voluntários a fim de fazer sua parte por um mundo melhor. Ali há sugestões de lugares que precisam de melhorias. Voluntários visitam moradores e conversam sobre quais são os sonhos daquela comunidade. E, então, definem quais podem ser realizados.

Sonhos grandiosos, como a diminuição de violência num bairro, por exemplo, começam aos poucos a virar realida de ao se descobrir que é um descampado mal iluminado que oferece medo a quem passa por lá. Uma praça ou um centro comunitário podem ser o sonho de mães que reclamam da falta de opções de esporte e lazer para as crianças. E assim, conversando, aparecem as ideias de solução, e as pessoas se animam a pôr a mão na massa. No fundo, todo mun do quer ajudar. Só não sabe como.

Qualquer pessoa pode ajudar!

Em São José dos Campos, os sonhos das 600 famílias do bairro Jardim Coqueiro foram definidos quatro semanas antes de os 50 voluntários de vários lugares do país, eu entre eles, chegarem lá. Ao longo do mês de preparativos, convocamos gente disposta a participar do desafio de fazer o campo de futebol e a pracinha e reformar o centro comunitário. Moradores e voluntários coletaram materiais de construção com universidades, comerciantes da região ou quem mais quisesse ajudar.

No Oásis, cada um colabora como pode. Uma igreja cedeu lugar para o refeitório dos voluntários. Houve mulheres da comunidade dispostas a fazer o almoço da galera. Jovens do bairro se dispuseram a espalhar a novidade pela região. Pela internet, estudantes de outras cidades ou estados agendavam caronas e organizavam ônibus para chegar até a comunidade. Outros trocaram dicas para fazer tinta com cal. Tudo vale.

A comunidade cuida de tudo depois

E, então, no dia definido, 17 de outubro, eu cheguei lá no Jardim Coqueiro com meus amigos para pôr a mão na massa com a comunidade. Fizemos a maquete dos projetos juntos com todas as miniaturas daqueles sonhos. Foi uma animação geral.

A proposta de cada um dar o melhor de si rola naturalmente e as funções de cada grupo ou pessoa são definidas por talentos. Se o voluntário sabe pintar, ele pinta. Se prefere fazer o cafezinho na cozinha improvisada então, maravilhoso. E assim também funciona com quem capina destelha ou dirige o trator que nivela o campo de futebol.

As crianças são incríveis. Todas querem concluir o desafio e são chamadas de ”ventinhos” porque circulam por todo lado para ajudar os que estão com a mão na massa. Se alguém precisa de um martelo, por exemplo, um ”ventinho” logo acha a ferramenta na vizinhança.

Não pense que tudo é perfeito ou então que funciona como foi planejado. A chuva que não dava trégua impedia a continuidade do trabalho. Faltava mão de obra ou mesmo conhecimento sobre como fazer um balanço ou uma troca de telha. E aí eu usava o meu talento.

Sei recrutar pessoas. Dou o meu melhor ao passear pelo bairro puxando conversa e colocando o boca a boca para funcionar. Peço ajuda e tento descobrir o que cada um pode oferecer. Todos são capazes de mudar seu bairro. E ali descobrem que podem dar continuidade a essa transformação.

No final do segundo dia de Oásis, eu e meus amigos praticamente não fazíamos nada além de observar os moradores cuidando de tudo. E está aí o nosso orgulho! Aquele desafio foi apenas o pontapé para os novos sonhos daquela comunidade. Soube, uma semana depois, que os moradores criaram jardins e continuaram a melhorar aqueles espaços. E é assim, de sonho em sonho, a cada grão de areia, que o mundo muda.