Sou pastor e tenho tatuagens do demo no corpo

Tatuei meu corpo com figuras da banda de rock Iron Maiden. Me aproveito disso para divulgar a palavra de Deus

Uso as minhas tatuagens para me aproximar dos jovens, para pregar aos radicais
Foto: Marina Piedade

Eu estava a poucas horas de fazer a tatuagem que me transformaria no homem com mais tatuagens de uma só banda no mundo. Eu ficaria 48 horas desacordado enquanto tirariam as minhas 20 unhas para fazerem desenhos embaixo delas. Eu ficaria parecido com Eddie e Head, o mascote do grupo de rock que eu idolatrava, o Iron Maiden. Estava ansioso, não conseguia dormir. Foi quando tive a visão que mudou minha vida: Jesus falou comigo e disse que Ele iria me usar para o bem.


Depois disso, nunca mais fui o mesmo. A minha paixão pelo Iron foi diminuindo e hoje apenas admiro a banda. Quando tinha 8 anos, eu vi a figura do Eddie em uma revista de música e comecei a guardar as figurinhas. Foi brincando que fiz a primeira tatuagem. Joguei suco de laranja na página da revista e a imagem dele ficou marcada na minha pele.

A primeira vez que ouvi um disco do Iron foi em 1981, quando um amigo trouxe um exemplar do Japão. Era um disco ao vivo e, na capa, o Eddie estava com uma espada de samurai na mão. Me apaixonei. Apesar do rock pesado, duas músicas eram muito parecidas com Beatles. Foi só ouvir uma vez pra nunca mais parar. Naquela época, não tínhamos acesso a todos os materiais da banda como hoje. A internet não existia, e conseguir um disco, uma camiseta ou um boné era muito complicado. Por isso, eu comprava as revistas que anunciavam a venda de camisetas do Iron Maiden, recortava as imagens e personalizava broches e anéis. Essa minha peraltice de criança virou filosofia de vida.

Quis meus ídolos comigo no caixão

Colecionava tudo que podia da banda. Não tinha mais o que fazer para expressar minha paixão. Meu quarto era um santuário para o Iron Maiden, com cartazes, discos, revistas, tudo. Tive a idéia da primeira tatuagem depois de ver um clipe da banda. Nele, um cara tatuava o nome das mulheres com quem saía pra não esquecer delas. Foi quando pensei que tudo na vida desaparece e só meu corpo estaria sempre comigo.

Então, em 1999 decidi fazer minha primeira tatuagem em homenagem ao Iron Maiden. Fiz o mascote Eddie do jeito que ele apareceu na capa de um disco de 1983. Depois, me submeti a inúmeras sessões até ter o corpo coberto por tatuagens. Colecionei no meu corpo as imagens da banda, e apenas dela. Foram 172 em seis anos. Eu gastava todo meu dinheiro nas tatoos. Só parei quando tive aquela visão de Jesus.

O pastor me explicou a visão
No dia em que tive essa revelação divina, fui com a minha irmã até a igreja e conversei com o pastor sobre o que aconteceu. Ele disse que era Jesus falando comigo. Ele estava me chamando para ser um missionário e levar a palavra Dele a todos os lugares.

E foi isso que fiz: me converti e me tornei um pastor evangélico. Viajo para contar às pessoas que antes eu dedicava a minha vida a uma banda e agora me empenho por algo maior, que é Jesus. 

As tatuagens me aproximam dos jovens

Mas eu não deixei de ser rock’n roll. Ainda gosto das músicas pesadas, mas não me interesso pelas letras como antes, só pelo som. Uso as minhas tatuagens para me aproximar dos jovens, para pregar aos radicais.

Fui até convidado a participar de um documentário sobre o Iron Maiden e aceitei. Eu acredito que é uma maneira de levar a palavra de Deus a muito mais pessoas. E são as minhas tatuagens que abrem essas portas. Só por conta delas é que farei parte do filme.

Eu não acredito que carrego uma maldição, apesar das minhas tatuagens do número da besta, o 666, e de uma estrela de cinco pontas invertida, que lembra a imagem de um bode e o corpo do diabo. Não me arrependo: o passado acabou, hoje uso as tatuagens para o bem.