Um acidente mudou os meus valores

Precisei quase morrer para ver que meu filho era mais importante que meu corpo

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Não ligo para as cicatrizes na barriga. 
O que importa é que estou viva
Foto: Arquivo pessoal

Lembro com lucidez de cada detalhe do acidente que sofri em abril do ano passado. Um carro bateu de frente com o meu, em alta velocidade. Eu e o meu amigo que dirigia ficamos gravemente feridos. Me recordo do farol vindo em minha direção e do barulho ensurdecedor da freada. Não sei como sobrevivemos. Só sei que a partir desse dia redescobri o valor de viver ao lado das pessoas que amo.

>> Só pensava na minha carreira
Eu tinha uma vida agitada. Meu tempo era dividido entre administrar a clínica de estética e fisioterapia, dar aulas de Pilates, cuidar do meu corpo, me divertir e ficar com o meu filho. Nessa ordem de prioridades. 

Essa vida meio louca começou quando eu tinha 18 anos e perdi meu pai. Nessa época, minha mãe sofreu na minha mão porque eu vivia nas baladas com o namorado da vez e não queria saber de sermão. Aliás, discutíamos por tudo. O resultado disso foi um distanciamento cada vez maior entre nós. Aí, aos 27 anos engravidei e optei por não casar com o pai do bebê. Continuei na casa da minha mãe e foi ela quem cuidou do meu filho nos cinco anos seguintes. O tempo passava e eu só queria saber da minha carreira e do meu corpo. Meu ano de 2009 seguia nesse ritmo, até o dia do acidente.

>> Ignorei minha intuição
Naquela sexta-feira de abril, eu e meu amigo saímos cedo com a expectativa de fecharmos um bom negócio. Pegamos a estrada no meu carro novo. Minha mãe pediu para que fôssemos de ônibus, mas não dei ouvidos. Também ignorei a angústia que senti no dia anterior. Um aperto que se repetiu minutos antes do acidente. 

Na volta, enquanto atravessávamos uma ponte, vimos um carro na contramão vindo em nossa direção. Ele tentava ultrapassar um caminhão. Não deu tempo de nada e… Batemos de frente. Foi tudo muito rápido e indolor. Na hora, pensei na minha mãe, no meu corpo perfeito, no meu carro novinho e no meu filho. Não tinha noção do que estava acontecendo, mas sabia que estava entre a vida e a morte. 

Senti as primeiras faíscas do fogo que incendiava meu carro no momento em que duas mãos me puxaram para fora dele. Meu anjo da guarda foi o médico Jorge Vasconcellos, que vinha logo atrás do meu carro. Ele ignorou a espera da ambulância e nos levou ao hospital, em seu próprio veículo.

>> Meu filho cuidou de mim
Acordei no dia seguinte, na sala do pós-operatório, com um tubo na garganta e um corte imenso no abdômen. Um enfermeiro me deu a notícia: “Você passou por nove horas de cirurgia”. Ele também me descreveu o estrago provocado pelo acidente. Meu caso era gravíssimo. Ao chegar no quarto, encontrei minha mãe com os olhos inchados de tanto chorar. Lembro da felicidade que senti ao vê-la. 

Duas semanas depois, contrariando todas as expectativas, recebi alta. Os médicos estavam surpresos com a minha recuperação e preferiram evitar os riscos de infecções, por isso me mandaram para casa. Reencontrar meus irmãos e meu filho foi emocionante. Nossa, como eu amava aquelas pessoas! Meu pequeno, de 5 anos, logo se prontificou a cuidar de mim. Afinal, eu estava nas condições de um bebê: precisava de banho, de comida, de fralda. 

Minha recuperação levou quatro meses no total, de abril até agosto. Foi bem mais rápida do que a gente esperava. Nesse tempo, tive que reaprender tudo: a mexer os braços, a andar, a tomar banho e a controlar minha alimentação de acordo com o meu novo intestino. Todo esse processo foi doloroso, mas gratificante. Aproveitei meu tempo ocioso para aprender mais sobre fisioterapia, pela internet, e pratiquei os exercícios em mim mesma. Voltei a trabalhar em agosto do mesmo ano. Foi uma vitória.

Um acidente mudou os meus valores

Meu carro ficou totalmente destruído. O médico Jorge Vasconcellos me levou para o hospital e foi meu anjo da guarda.
Foto: Arquivo pessoal

>> Meu renascimento
Quando analiso o antes e o depois do acidente, percebo que virei uma pessoa muito melhor. Hoje, não me importo de ter todas essas cicatrizes no corpo ou um carro usado na garagem. Também nunca me revoltei contra Deus ou contra o motorista que causou o acidente. Ele fugiu para São Paulo e nunca perguntou de mim ou do meu amigo, que também sobreviveu. Eu abri um processo contra esse motorista, mas até agora não tive retorno. Só quero justiça: ele precisa aprender a respeitar a vida dos demais. 

Também tirei muitas lições desse acidente. É louco pensar que precisei passar por um choque desses para enxergar a fragilidade e o valor da vida. Estou na minha melhor fase profissional e continuo trabalhando muitíssimo, mas sei dos meus limites. Aprendi a dividir o meu tempo, sem deixar as pessoas que eu amo em segundo plano. Aproveito cada minuto do meu dia e agradeço por ter o privilégio de estar viva.

“Não achei que ela fosse sobreviver” 

Maria Inês, 59 anos, dona de casa, mãe de Fran
“Quando fui ao hospital, não sabia da gravidade do acidente. Me disseram que a Fran tinha quebrado o braço, mas, quando a encontrei, vi o estrago do acidente: minha filha toda machucada, sem conseguir falar e se mexer. Foi a cena mais triste da minha vida. Confesso que não achei que ela fosse sobreviver. Só Deus sabe o quanto sofri, mas nunca chorei na frente dela. Tive de ser forte para apoiá-la. Passei dias sem dormir e sem comer direito, só ao lado da Fran. Lutamos juntas nessa batalha que ela venceu. Minha filha é muito guerreira. É um exemplo de superação. A nossa relação melhorou muito depois desse episódio. Agora somos amigas, companheiras e demonstramos o nosso amor. Também me orgulho da mãezona que ela se tornou.”

“Ela é o melhor exemplo de superação que já vi” 

Jorge Vasconcellos, 57 anos, cirurgião médico, o anjo da Fran
“Eu estava 50 m atrás do carro da Fran quando ela sofreu o acidente. Tive que frear com força para não bater. Tirá-la do carro toda machucada foi a cena mais forte que já vivi. Não daria tempo de esperar a ambulância, então tomei a providência de levá-los ao hospital. Foi só por Deus que a Fran e o amigo dela chegaram vivos. Aliás, a medicina não explica como ela superou tantos ferimentos. Essa mulher é o maior exemplo de garra que já vi em minha vida.”

As 8 lições que aprendi e que mudaram minha vida

1. Valorizar minha família e fazer de tudo para estar ao lado dela. Não passo um dia sem falar com a minha mãe.
2. Demonstrar meu afeto e dizer “te amo” todos os dias. Não há hora certa para praticar o carinho.
3. Ser sincera e falar tudo que me incomoda. Assim, minhas relações são mais ricas e transparentes.
4. Viver o hoje sem deixar nada para amanhã.
5. Agradecer todos os dias pelas coisas boas e não me chatear com as que não deram certo.
6. Ouvir os sinais do meu coração. Quando sinto que algo não vai bem, paro e analiso. Afinal, prevenir nunca é demais.
7. Cultivar meus verdadeiros amigos, aqueles que estiveram ao meu lado quando precisei. E cortar da minha vida as pessoas que não me agregam valor. A vida é curta demais para desperdiçarmos tempo.
8. Definir novos valores que o dinheiro não compra: ser feliz independentemente do carro, do corpo e do salário. Tudo isso é importante, mas não são mais minhas prioridades.