Gente & Histórias: A médica que esperou 26 anos para ter um cão

Celina aguardou esse tempo todo para que o marido topasse ter cachorros em casa. Agora, ele é quem faz questão de passear com a matilha...

Celina, André e seus cachorros, da esquerda para a direita, Castor, Barbie e Hannah
Foto: João Alvarez

A expressão keep calm and carry on (fique calmo e siga em frente), surgida no Reino Unido nos anos 1940 e que estampou camisetas da moda em verões passados, tem tudo a ver com nossa reportagem. A baiana Celina Meireles Veiga, 47 anos, ficou esperando 26 anos para realizar um desejo que, aos olhos de muita gente, pareceria simples: ter um cachorro. Sim, quase três décadas. Celina nasceu na Boca do Rio, popular bairro de Salvador, Bahia, e talvez por geografia e temperamento ela seja uma completa tradução da folclórica serenidade do local. Foi o tempo necessário para o convencimento do marido, André Veiga, 53, engenheiro eletricista. “Sempre que eu mencionava o assunto, o discurso dele era direto: ‘Se um cachorro entrar por uma porta, eu saio pela outra'”, recorda a médica patologista citando a resposta nada disfarçada que ouviu muitas e muitas vezes e que não deixava qualquer dúvida no ar.

Nem por isso, como conta, ela perdeu a esperança ou passou a ver André como um vilão de novela. “Sempre com muito carinho, eu entendia que a decisão de ter um bichinho deveria ser de toda a família, pois é um ato de amor, de muita responsabilidade e é para toda a vida. Ele me dizia que não suportava cachorro. Pelo menos, era isso que ele pensava. E assim o tempo foi passando…”. A trajetória solidária do casal, que não foi fácil no começo da vida a dois, mostra como a decisão tinha de ser parceira e unânime.

 

Eles se apaixonaram

“Casamo-nos jovens, em 1984. Eu com 17 anos, estudante de medicina, André (a quem ela chama de Dedo), com 23, recém-formado. Foi uma paixão danada, não conseguíamos nos desgrudar. Gosto de paixões intensas e duradouras. Esse amor esteve firme e forte quando as dúvidas existenciais e profissionais apareceram. Quem não as tem, não é?”, pergunta. Quatro anos depois de casados, eles tiveram o primeiro filho, com Celina ainda na faculdade. “Foi uma dureza, mas, juntos e com o apoio da família, enfrentamos os obstáculos. Depois, já com dois filhos, um de 2 anos (Guilherme, hoje com 25 anos) e outro de 4 anos (Maurício, atualmente com 27), nos mudamos para São Paulo, onde fiz minha residência médica e ele fez o doutorado. Foi um tempo de aprendizado e crescimento, juntos, com épocas muito boas e outras nem tanto, porque assim é a vida. Voltamos depois para trabalhar e viver em Salvador. De tempos em tempos, eu insistia na tentativa de aumentar a família, mas o Dedo continuava firme. E repetia que não queria. Eu me conformava. E olha que, antes de casar, eu tinha animais em casa, adorava!”, relembra Celina, que ganhou o primeiro cachorro ainda na infância.
 

Os cães nos ensinam

“Acho que eu tinha uns 7 ou 8 anos. Era a Lady. E havia um segundo, o Leão, de rua, que me levava todos os dias até o ponto de ônibus, quando eu ia para a escola, me esperava embarcar e depois voltava para ficar em frente a meu portão até que eu voltasse da escola, fiel e protetor demais”, recorda. “Os cães nos ensinam muito, se a gente se permite aprender. Alegria por coisas simples, como dar um passeio, gratidão por existir e por receber um afago. Aprendi que, na convivência com eles, a nossa própria capacidade de observação fica mais aguçada, ficamos mais perspicazes. Até para a difícil lição da nossa finitude eles servem, pois esses amados vivem pouco”, analisa citando o curto ciclo de vida dos cachorros, em comparação com o do ser humano.
 
Foram essas lembranças e sensações que Celina sublimou, de certa forma, durante 26 anos. “Até que uma bela noite, depois de um cansativo dia de trabalho no hospital, eu até um pouco abatida, ouço Dedo me perguntar, de repente: ‘Cel, você ainda quer um cachorro?’ ‘Vixe, Maria!’, como dizemos na Bahia. ‘Quero, sim, e muito!’, respondi. É verdade que ele condicionou a aprovação com algumas pequenas exigências, do tipo não podia ser grande, não podia latir muito, não cheirar mal. Ele mesmo perguntou na hora: ‘Será que esse cão existe?’ Respondi que sim, claro”, conta Celina, que encaixou um “sim” sem muita convicção, mas com a certeza de que não poderia perder aquela oportunidade. “Estudamos e pesquisamos, eu e meus filhos, e escolhemos uma raça que se encaixava quase exatamente naquele perfil. Foi assim que chegou o meu primeiro ‘filho de quatro pernas’, o Castor, que é um shiba inu”, conta Celina. “Eu não tinha desistido, mas fui alegremente surpreendida. E persisti, sim, durante tanto tempo, porque a causa valia. É natural, há coisas em comum em um casal e outras nem tanto. Mas quando a gente se ama mesmo é apenas uma questão de tempo e paciência para que aquilo que importa prevaleça.”
 
Gente & Histórias: A médica que esperou 26 anos para ter um cão

Celina posa com crianças em uma feira de animais da ABPA-BA, em que faz trabalho voluntário há quatro anos
Foto: Arquivo Pessoal

Ninho vazio

André explica por que demorou tanto para se render ao pedido. “Acho que mudei de ideia porque nossos filhos se tornaram adultos e eu compreendi que Celina, minha amada companheira, merecia que seu desejo de ter um cachorro fosse atendido, preenchendo o ‘ninho vazio'”, diz ele, que mal sabia que Castor seria o primeiro de três cães que viriam em seguida (as outras duas, Barbie e Hannah, não têm raça definida) e que hoje circulam absolutos pelos jardins do bairro de Itaguara, onde o casal mora. “Costumo dizer que adoro voltar para casa e ser recebida por eles, rabinhos balançando e lambidas de boas-vindas, faça sol ou faça chuva, nada muda na satisfação deles ao nos verem chegar”, comenta ela. “Esperei muitos anos para ter uma família completa. É uma alegria. Mas adivinhe quem mais se transformou e assumiu linda e dedicadamente o papel de cuidar, educar e passear? Sim, o Dedo…”, diz. Aquela promessa de um cachorro entrar por uma porta e ele sair por outra? Bom, todos saem pela mesma porta agora para passear.

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