Instrutor de stand-up paddle mostra que cães podem ser parceiros do dono no esporte

Depois de ser resgatada das ruas por Marco Antonio Sarnelli, a vira-lata radical Kika se tornou parceira no esporte com a ajuda do instrutor Leonardo Lorang. Até de competições ela participa!

Instrutor de stand-up paddle mostra que cães podem ser parceiros do dono no esporte

O instrutor Leonardo Lorang e Kika, no Posto Seis, em Copacabana, no Rio
Foto: Tomás Artuzzi

Kika, 4 anos, é uma vira-lata radical. E também uma perfeita versão animal da geração saúde: vive em metrópole e tem hábitos saudáveis para compensar o estresse e os limites dos apartamentos. Sedentarismo, definitivamente, não é com ela. Frequentadora do principal point dos surfistas cariocas, passou a praticar um esporte que está ganhando cada vez mais espaço no litoral brasileiro: o stand-up paddle (SUP) ou remo em pé, na tradução literal. Desenvoltura para praticar a atividade ela possui. Esperteza também. A ex-moradora de rua chama-se, na verdade, Kika da Rocinha – o “sobrenome” remete à famosa comunidade de São Conrado, na zona oeste do Rio, região próxima do local onde foi resgatada das ruas por seu atual dono, Marco Antonio Sarnelli, o Totó, 54. Sorte a dela. Sarnelli é experiente no trato com animais. Sua afinidade com os cães é grande. Com esportes também. Ele é idealizador do Park Clube Totó, um parque aquático para cães e seus donos, no Recreio, zona oeste do Rio. Além disso, está à frente do Bloco do Totó, que este ano atraiu mais 200 cachorros e seus donos foliões durante o Carnaval, na Barra. Para completar, Sarnelli é adepto do SUP e pratica aulas com Leonardo Lorang, 35, um professor que, além de manjar tudo sobre o esporte, também não dispensa a companhia de seus cães nas aulas. “Com o aumento do número de adeptos do SUP, muitas pessoas passaram a se interessar em aprender a remar e logo surgiram aqueles que me perguntavam se poderiam levar os cães”, conta Lorang. Diante da demanda, o instrutor passou a incluí-los no treinamento. “Começamos com o dono, que tem de desenvolver suas habilidades por etapas. Depois que ele domina a prancha, tem início a adaptação do animal. Quando os dois se sentem confiantes e preparados, fazemos percursos maiores. E, às vezes, o cachorro se sai melhor do que o dono”, brinca.

Desenvoltura aquática

Kika chegou à praia carregada no colo, politicamente correta em relação à lei que proíbe a circulação de animais na areia, mas inquieta. Só ficou tranquila quando foi colocada na prancha e pressentiu que ia curtir um passeio no mar de Copacabana, que naquele dia parecia uma piscina. E assim foi. Perfeitamente equilibrada, olhando pra frente como os instrutores recomendam aos alunos do esporte, observando os barcos de pescadores. Ela estava relaxada como uma profissional. Kika fazia dupla com Lorang, amigo e professor de SUP de Totó, seu dono. “Eu costumo dizer que ela é uma cachorra perua. Não gosta de se sujar na areia. Fica bem tranquila na prancha, mas nunca cai na água. É obediente. Gosta do prato de ração limpinho. Quando vem ao Park Clube, fica na recepção vendo o movimento. É uma cachorra afável, gosta de crianças, gosta de ficar com a gente e adora um carinho”, diz Sarnelli.

Instrutor de stand-up paddle mostra que cães podem ser parceiros do dono no esporte

Depois do treino, Kika quis voltar ao mar. Dessa vez conduzida por seu dono, Marco Antonio
Foto: Arquivo pessoal

Atleta desde a adolescência, Lorang foi quem percebeu primeiro a possibilidade de praticar o esporte com cães. Praticante de modalidades que o levam ao mar, terra e ar, está, de certa forma, acostumado com atividades radicais e ligadas à natureza. Surfar, voar de asa-delta, deslizar em snowboard e pilotar jipes nas trilhas da Mata Atlântica fazem parte de sua rotina. Como tanta ação toma muito tempo do seu dia, Lorang foi levado a misturar negócios com prazer e a transformar o esporte em meio de vida. Assim, voltou-se para a área de turismo de aventura. Começou conduzindo passeios de jipe, foi um dos pioneiros na instalação de hostels em Ipanema e atualmente é instrutor de SUP. O que ele, proprietário de dois cachorros – o labrador Luther, 12, e o jack russel terrier, Rambo, 2 – não imaginava é que um dia o gosto por esportes de aventura e a convivência com os animais de estimação se tornariam uma coisa só. E essa conexão surgiu naturalmente. “Eu ia para Angra dos Reis com minha família, levava as pranchas e não podia deixar o Luther na praia. Cachorro adora água, porque ficaria de fora com todo mundo no mar? Além disso, ele estava meio obeso e precisando se exercitar”, diz Lorang, que é casado com a dentista Carol, 33, e pai de Dominique, 7.

Competição canina

Em clima de diversão, esse tipo de parceria disseminou-se a partir da Califórnia, ganhou adeptos e até nome: stand-up dog. Como nas praias do Pacífico, onde os pets subiram na pranchas a remo há mais de dez anos, já são realizadas competições no Brasil. Na Barra da Tijuca, onde Lorang mantém dois quiosques, foi realizada, no verão passado, uma dessas provas bem-humoradas que reuniu cães e seus donos. A competição foi organizada por Sarnelli, dono da atlética Kika, durante um treinamento com seu professor no Posto Seis, em Copacabana. Segundo o idealizador da gincana, como qualquer prova, a de prancha a remo com cachorros tem regras. Os organizadores submetem os participantes caninos à avaliação de um especialista em educação animal. “O cachorro tem que estar bem disposto, não pode ser forçado nem deve estar com medo. Contam pontos a velocidade do remador e o equilíbrio de ambos”, explica Sarnelli. O percurso da prova é geralmente de 300 metros e nenhum dos integrantes da dupla pode cair no mar. “O que às vezes é difícil. Cachorros gostam de nadar e não é raro um deles pular na água”, completa Lorang.

No lazer ou na competição, os atletas de quatro patas merecem alguns cuidados: eles precisam de muita água, filtro solar – para orelhas, focinho, testa e barriga – e não devem ser levados ao mar em horários em que o sol esteja muito quente. Observar a legislação local é outra recomendação indispensável aos praticantes. No Rio, uma lei municipal proíbe a circulação de cães na praia. No Quebra-Mar, o acesso dos cães às pranchas é pelas pedras, sem contato com a areia. E as competições recebem autorização da prefeitura.

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Dominique, filha de Lorang, no Quebra-Mar, na Barra da Tijuca, com Luther, um dos cães da família
Foto: Arquivo pessoal