Amor, sexo, amor: Norah Ephron não teve medo de escancarar verdades

"Rir ajuda a tornar a vida mais fácil", afirma a escritora e diretora

Roteirista de ícones das comédias românticas, como Sintonia de Amor e Harry & Sally, a escritora e diretora Nora Ephron nunca teve medo de escancarar as verdades da vida: mulheres fingem orgasmo, homens traem adoidado, a velhice é um saco. Norah Ephron sofria de câncer e faleceu no dia 26 de junho de 2012, em Nova York. Confira aqui a entrevista da escritora publicada na revista LOLA de novembro de 2011.”Rir torna tudo mais fácil”, disse Norah Ephron em entrevista exclusiva

“Rir torna tudo mais fácil”, disse Norah Ephron em entrevista exclusiva
Foto: Linda Nylind

POR_Erika Sallum • Revista LOLA – edição 14

Não existem meias-verdades para Nora Ephron. Aos 70 anos, ela tem falado, escrito e filmado o que pensa desde que abandonou Los Angeles, na década de 60, para tentar a vida em Nova York. Graças a Nora, muitos homens descobriram que, sim, as mulheres fingem orgasmo – quem pode esquecer a cena de Meg Ryan dando gritos de prazer fake em uma delicatessen nova-iorquina no filme Harry & Sally – Feitos Um para o Outro? O roteiro, escrito por Nora em 1989, foi indicado ao Oscar e virou uma espécie de ícone das comédias românticas. A autora viria a dominar o gênero com maestria em filmes também dirigidos por ela, como Sintonia de Amor (1993) e Mensagem para Você (1998).
 
Antes disso, Nora já escancarara ao mundo as hipocrisias do casamento ao transformar a traição de seu marido em livro e filme. Casada com Carl Bernstein, um dos jornalistas do Washington Post que derrubaram o presidente americano Richard Nixon no caso Watergate, ela descobriu um dia que ele estava tendo um caso. Pegou os dois filhos, deixou a casa em que morava em Washington, retornou a Nova York e, de lá, escreveu A Difícil Arte de Amar, que depois chegaria aos cinemas, com Meryl Streep e Jack Nicholson nos papéis principais.
 
A recepção da crítica foi tão boa que, aos poucos, Nora abandonou o jornalismo para se dedicar ao cinema e à literatura. O episódio ajudou a consolidar um dos maiores ensinamentos de sua obra: viver é complexo, mas sempre se pode tirar proveito do sofrimento. E o humor, mesmo que cínico, é sem dúvida o melhor remédio.
 
Recentemente, ela decidiu focar nas agruras do envelhecimento. No livro Meu Pescoço É um Horror, lançado em 2006, descreve de forma bem-humorada, e sempre ácida, os desprazeres de não mais ser jovem. O tema reaparece em seu novo livro, Não Me Lembro de Nada (Rocco, 144 págs., R$ 21,50). Nessa coleção de crônicas, Nora surge mais cínica, engraçada e verdadeira do que nunca. Revela sem firulas como vem aos poucos perdendo a memória, recorda os tempos de repórter de jornal, tira sarro do divórcio e faz até uma lista de fatos que inexplicavelmente sempre espantam as pessoas (“Todo mundo mente” e “Os homem traem” são dois deles).
 
“Rir ajuda a tornar a vida bem mais fácil”, diz Nora, que está longe de ser uma senhora doce e boazinha. Sua fala é recheada de comentários diretos e ríspidos, mas que mostram verdades doídas e muitas vezes hilárias. Em um bate-papo por telefone de sua casa, no Upper West Side, ela fala a LOLA de amor, divórcio, velhice e traição, temas sobre os quais não apenas escreveu, mas viveu intensamente.

Amor, sexo, amor: Norah Ephron não teve medo de escancarar verdades

A inesquecível cena de Meg Ryan dando gritos de prazer fake em uma delicatessen nova-iorquina no filme Harry & Sally – Feitos Um para o Outro 
Foto: Everett Keystone

 

LOLA: Parte de sua carreira como escritora e diretora foi dedicada a discutir o amor e suas dores. O amor é possível e viável na vida real? Ainda acredita nele?
 
NORA EPHRON: Sempre acreditei que o amor é possível. Certa vez, escrevi que os maiores românticos são os cínicos, e essa frase me define muito bem. Acredito totalmente no amor e no ato de se apaixonar. Se você tiver sorte e se casar com a pessoa certa, o amor poderá dar certo. Mas não acho que isso poderia ter acontecido comigo ou com qualquer outra pessoa aos 20 e poucos anos. Não foi possível para mim me manter apaixonada por um só homem quando tinha meus 26 anos. Porque, aos 26, estava tão ocupada com minhas próprias mudanças de vida que não houve espaço para o amor duradouro. Na época em que conheci meu terceiro marido [o escritor e roteirista Nicholas Pileggi], porém, eu estava preparada para o amor. Os conflitos violentos da minha vida já tinham acabado. Estava com mais de 40 anos e sabia muito bem quem eu era. Acabei me casando com um homem fantasticamente tranquilo e ótimo de conviver, o que tornou tudo bem mais fácil para mim.
 
Então, na sua opinião, o amor mais duradouro tem a ver com maturidade?
 
Conheço casais que se conheceram muito jovens e ainda estão casados. Mas eu nunca fui assim. Não há fórmula pronta, e algumas pessoas são muito melhores nesse assunto que outras. No meu caso, fui me tornando um pouco melhor nisso com o passar da idade.
 
Seu casamento já dura 28 anos. Antes, divorciou-se duas vezes. Como define o sucesso em um casamento?
 
O verdadeiro mistério da vida é o casamento, porque você nunca sabe direito o que está se passando em um – incluindo o seu próprio. E acho que parte de sua fascinação vem desse fato. Obviamente que a definição de sucesso varia muito, e o que eu acredito ser um casamento bem-sucedido pode ser bem diferente na opinião de uma amiga. Agora, se você quiser realmente ter sucesso num relacionamento, sim, é possível fazer dar certo. Só que é preciso estar consciente de que essa não é uma área de vida em que se pode simplesmente se comportar de forma blasé. Você tem sempre que tentar e buscar esse sucesso na relação. Não exatamente todos os dias, claro, como se isso fosse um peso. Mas num dia sim, noutro dia não, você tem que gastar energia para fazer as coisas darem certo. Não se pode ficar totalmente relax e sossegado, é preciso trabalhar para que o amor permaneça forte.
 
Você escreveu um livro sobre o caso que seu segundo marido teve com outra mulher. É possível vivenciar o divórcio de forma menos dolorida?
 
Nem todos os divórcios são necessariamente doloridos. Entre meus amigos, há aqueles que conseguiram ter um divórcio bem civilizado – e uma das razões é que eles simplesmente não se amavam. Eles concordaram que não mais sentiam amor um pelo outro, e isso lhes permitiu um tipo de divórcio tranquilo. Mas, se você ama a pessoa, se confiou nela, o divórcio é, sim, cheio de dor. Seja lá como for seu divórcio, o fato é que você precisa superá-lo e achar outra pessoa por quem  se apaixonar. Digo isso com tranquilidade, porque acredito realmente nessa verdade. Como resultado, tornei-me muito sem paciência com essa gente que se separa e passa anos se lamuriando pelo divórcio, chorando e se sentindo péssima. Querida, deixe isso para lá e vá tentar  se apaixonar de novo! Pare de perder tempo com seu ex, supere-o de uma vez por todas!
 
Podemos aprender com uma relação que acabou? Um casamento ruim nos ensina lições, ou isso é papo besta?
 
Podemos, sim, aprender muito quando terminamos um casamento. Você certamente aprende sobre si mesmo – ou pelo menos deveria aprender. Cada casamento ensina diferentes lições. O importante é jamais ser muito dura consigo mesma numa situação dessas. Todos nós sabemos que não há nada de simples quando se vive e se acaba um casamento. Eu aprendi muito com meus divórcios. Jamais me esqueço de uma briga que tive com meu ex-marido muitos anos atrás porque ele queria comprar uma mesinha  de plástico horrível que custava apenas 15 dólares. Nunca pensei que duas pessoas pudessem ter esse tipo de briga quando casadas. Porém, olhando para trás, a tal discussão mostra muito da pessoa que eu era naquele tempo. E eu não sou mais aquela pessoa. Mas, cá entre nós, era mesmo uma mesinha horrível.
 
 
Você vivenciou a traição de forma bem intensa. Um caso extraconjugal é sempre condenável, ou há situações em que se pode aceitá-lo?
 
Eu sei que existem culturas mundo afora em que a infidelidade é algo para o qual as pessoas não estão muito aí – na França, por exemplo, isso parece ser a realidade. Não sei como é no Brasil, mas nos Estados Unidos não somos muito bons nesse assunto. Conheci meu atual marido quando eu tinha 43 anos e ele 50. Nós já possuíamos na época uma vasta experiência em relacionamentos. E estávamos os dois preparados para ficar com uma pessoa só. Não éramos muito assim antes de nos conhecer. Não sei como as pessoas esperam que a gente seja realmente fiel aos 20 ou 30 anos, com os hormônios no auge. Porém, eu fui fiel e fiquei com o coração partido quando me traíram. O problema no meu segundo casamento não foi somente que meu marido me traiu, mas que ele estava convencido de que se apaixonara pela amante. E isso tornou tudo muito pior.
 
Em um dos capítulos de Não Me Lembro de Nada, você conta como está se esquecendo de fatos e pessoas. Revelar aos outros nossos problemas pode nos ajudar a compreendê-los e aceitá-los melhor?
 
Nunca achei que escrever sobre meus problemas ou situações difíceis torna tudo mais fácil. Mas pelo menos é possível ver o humor que sempre existe  em todos os tipos de dificuldade. Eu não estou com uma perda grave de memória ou apresentando sinais de Alzheimer, nada disso. Mas o fato é que, em muitas ocasiões, se por exemplo a gente se encontra alguma vez, simplesmente não me lembro de você em um segundo momento. Se vou a uma festa, de repente me vejo tendo uma longa conversa com uma pessoa que conheço bem, só que não consigo lembrar seu nome. E é sobre isso que decidi escrever. Por mais irritante que seja, sei que é completamente comum entre a maioria dos meus amigos da mesma idade. Ainda bem que hoje existem os smartphones e o Google, porque não preciso ficar tentando lembrar todos os nomes do alfabeto.
 
Certa vez, você disse que seus pais lhe ensinaram que a dor pode sempre se tornar uma história engraçada. O humor é um dos segredos transformadores da vida?
 
Meus pais acreditavam muito no poder do humor. Éramos ateus, e o humor se tornou quase uma religião em nossa casa. Em minha família, sempre foi viva a ideia de que sempre se consegue superar qualquer tipo de tragédia com o riso, de que é possível encontrar o lado engraçado em qualquer episódio. Isso não significa que os fatos tristes se tornem menos doloridos na hora em que estão acontecendo, mas sim que, com o humor, a dor acaba durando um espaço de tempo definido. Você acaba aprendendo a superar seus problemas e a transformá-los em algo mais leve. Não acredito em se vitimizar, e acho que uma das razões disso é que aprendi essa lição em casa. Se você consegue praticá-la no dia a dia, torna-se o herói de sua própria história, não uma vítima dela.
 
A velhice tem sido um tema recorrente de seus livros. Envelhecer é sempre descrito por você como algo ruim. Por que reforçar ainda mais os horrores da velhice?
 
Eu só quis dizer que não há nenhuma razão para as pessoas falarem: “Ai, a velhice é incrível, fabulosa, estou enfim na minha melhor fase”. A grande verdade é que ficar velho é muito difícil. Não estou dizendo que seja algo terrível, apenas estou levantando uma questão: por que não podemos falar honestamente sobre o fato de que tudo o que escrevem sobre as maravilhas da velhice é lixo? Há um monte de livros por aí falando, por exemplo, que é na velhice que você pode ter a melhor transa da sua vida. Qual é a razão para alguém querer convencer as pessoas disso? É idiotice. Simplesmente é a mais pura mentira. Pensando nesse assunto, cheguei à conclusão de que seria no mínimo engraçado escrever sobre essa baboseira de que a velhice é legal. Com a velhice, vêm a perda de memória, a perda de independência física e da mobilidade. Você enfim tem tempo de sobra para ler, mas não consegue achar seus óculos de leitura.
 
Sua carreira é recheada de sucessos. Como podemos lidar bem com nossos talentos e conquistas?
 
Um fato na minha vida me ajudou a aceitar muito melhor meu próprio sucesso: sou de Nova York, uma cidade repleta de histórias de mulheres bem-sucedidas. Não seria assim se eu ainda continuasse morando em outros lugares. Eu vivia em Los Angeles, e minha mãe [a dramaturga Phoebe Ephron] fazia parte do pequeno grupo de mulheres que trabalhavam e tinham sucesso na carreira. A maioria das mulheres de lá naquela época ficava em casa, não como donas de casa exatamente. Elas eram, na verdade, pessoas desempregadas. Tinham faxineiras e lavadoras de roupa para fazer o serviço doméstico. Mas não trabalhavam fora. Eu via aquilo e pensava comigo: “Preciso sair deste lugar urgentemente”.
 
Desde os anos 60, quando você começou a escrever, as mulheres mudaram muito. Você se sente entusiasmada ou um pouco frustrada com as conquistas das mulheres daquela época até agora?
 
A situação das mulheres melhorou bastante em algumas partes do mundo, principalmente nos Estados Unidos. Milhares de nós passamos a fazer parte da força de trabalho. Ainda não ganhamos tanto ou mais que os homens, porém nosso salário está cada vez mais próximo do deles hoje do que nos anos 70. Mas há muito o que as mulheres precisam conquistar. Pense, por exemplo, na Arábia Saudita, onde elas não podem dirigir. Ou nas mulheres em diversos países africanos. Em muitos lugares, persistem tradições e hábitos arraigadíssimos, que servem apenas para manter a inferioridade das mulheres. Duas gigantescas revoluções foram a pílula anticoncepcional e o divórcio. Nos Estados Unidos, até muito recentemente, você não podia pedir o divórcio e simplesmente partir. E isso ainda é verdade em muitos países onde a sociedade é organizada de modo que a mulher não pode deixar um casamento ruim. O fato de uma mulher não poder dirigir na Arábia Saudita é apenas reflexo desse conceito maior, que é o de colocá-la em seu “devido lugar”. Há tantas culturas não ocidentais que ainda mantêm as mulheres sem poder algum. Por isso, ainda temos muito a percorrer até desfazer essas tradições.
 
Você fala bastante da importância do trabalho na vida da mulher. Como vê aquelas mulheres que decidem focar sua vida nos filhos, na casa e no marido?
 
Há mulheres muito sortudas que possuem uma estrutura a seu redor que lhes permite mudar de foco na vida de tempos em tempos. Quando meus filhos estavam na escola, eu era amiga de uma das mães que tinha acabado de abandonar um carreira bem-sucedida como advogada para cuidar das crianças. Ela teve sorte, porque, naquele momento, seu marido ganhava o suficiente para manter a família. Ou seja, para se dar ao luxo de ficar em casa, primeiro é preciso ter um companheiro que tope bancar todo o resto sozinho. Os filhos dessa minha amiga cresceram, e ela voltou a se tornar uma advogada de sucesso. O que quero dizer é que as prioridades podem mudar ao longo da vida. As mulheres têm um talento especial para isso: são capazes de mudar de foco e de se reinventar conforme o tempo passa. Isso é um talento  muito feminino.
 
O sexo é um dos grandes temas do cinema em geral, e você mesma já escreveu várias vezes sobre o assunto. A sociedade ocidental não anda superestimando o sexo?
 
Não sei como é possível superestimar algo tão primordial na vida. Sexo é ótimo, incrível e ponto. Há tantas outras áreas na vida que causam ansiedade – há quem tenha enorme ansiedade em relação à comida, por exemplo. Um pouco de ansiedade não é a pior coisa do mundo. Sexo é uma área presente, essencial para todos. É preciso se acostumar com esse fato e levar tudo de forma mais tranquila. Pessoas, acostumem-se ao sexo! [Risos.] A verdade é que hoje não tenho a menor ideia sobre sexo, só sei do que escuto dos outros, dos mais jovens. Mas sei que, mesmo com tantas revoluções e invenções tecnológicas, as pessoas ainda querem se apaixonar e ter uma boa vida sexual. E nenhuma dessas duas coisas é tão fácil como a gente gostaria, mas esta é a vida, e precisamos aceitar isso.