Cissa Guimarães em Jerusalém:”Nós, mães que perdemos filhos, nos tornamos uma irmandade”

Com a emoção à flor da pele, a apresentadora conheceu Jerusalém, compartilhou a dor de Maria e disse que quer ser uma pessoa melhor

Cissa no único pedaço que sobrou do antigo templo construído por Herodes, no ano 20 a.C., o Muro das Lamentações
Foto: Uri Lenz

Religiosa, seguidora de diferentes crenças e temente a Deus e a Nossa Senhora, acima de tudo, Cissa Guimarães, 56 anos, costuma percorrer o Brasil em busca de histórias de fé, mas pela primeira vez virou sua bússola em direção a Jerusalém, Israel, e para seu interior. Agarrada a seu rosário de cristal e com a foto do filho Rafael Mascarenhas, atropelado e morto em 2010 aos 18 anos, ela achou que renovaria a alma: “Mergulhar em si é muito profundo. É uma viagem muito mais difícil do que as horas de voo até Jerusalém. Meu Deus do céu, como tem um mundo tão maior aqui dentro de mim! Tenho todos os defeitos possíveis, mas, depois de tudo o que me aconteceu, quero ser uma pessoa melhor…”

Cissa tinha compromissos profissionais em Israel, mas foi dois dias antes para visitar sozinha os principais lugares – e ela compartilha aqui as impressões mais pessoais. “Queria fazer minha conexão, sem câmeras. Jerusalém é muito forte. É muita fé em uma mesma cidade”, disse. Antes de embarcar rumo a Israel, onde depois gravou quatro episódios especiais para seu programa no GNT, o Viver com Fé, Cissa fez questão de ler o máximo possível sobre as três principais religiões monoteístas: o cristianismo, o judaísmo e o islamismo. Elas estão espalhadas por Jerusalém, em locais sagrados.

No início, Cissa estava com medo – havia adiado a viagem algumas vezes. “Via histórias de homens-bomba e tinha receio, mas me arrependi muito de não ter vindo antes. Conheço muitos lugares no mundo e nunca senti tanta paz como em Jerusalém.” Na mala, Cissa colocou seus cristais, um rosário que usa pendurado no pescoço, um escapulário do arcanjo Rafael e fotos do filho Rafael. Na cabeça e no coração, o amor pelos outros filhos, Thomáz, 34, e João, 32, e pelos amigos – tudo traduzido em pedidos. “Eu agradeço muito, muito mesmo, mas peço também. Tento pedir o mínimo possível, mas peço porque preciso e porque tenho certeza de que Ele (olhando para cima) pode me dar”, contou ela à reportagem da CONTIGO!.

Cissa Guimarães em Jerusalém:"Nós, mães que perdemos filhos, nos tornamos uma irmandade"

Cissa visitou o interior da Mesquita de Al-Aqsa, também na área da Cidade Velha, em Jerusalém
Foto: Arquivo pessoal

Em cada uma das três religiões, Cissa descobriu uma lição de vida. Ouvindo as histórias das meninas da Midrasha, uma escola judaica ortodoxa, ela percebeu novas formas de amar. “Do alto dos meus 50 e tantos anos ouvi de uma garota que o amor a gente constrói”, disse ela referindo-se ao fato de que as meninas da Midrasha casam com homens escolhidos pelo rabino de acordo com os desejos delas. “Claro que sou brasileira e já fiz de tudo na vida. Não vai ser agora que vou mudar, mas saí de lá pensando muito em exercer um pouco mais o recato. Porque esse recato é também se voltar mais para você mesma.” E por recato entenda-se esperar por uma pessoa certa, já que Cissa está solteiríssima e agora pretende continuar assim. “Posso chegar ali no Facebook, mandar uma mensagem e sair com alguém hoje. Mas não quero. Não estou sentindo essa necessidade. Evidentemente, se alguém especial aparecer… Mas não vai aparecer agora, não. Porque não estou preparada”, disse, refletindo sobre sua vida amorosa.

Irmã de Maria

Muito apegada a Nossa Senhora, Cissa chorou tanto que, como ela mesma definiu, quase teve uma catarse ao fazer a Via Sacra, o caminho que Jesus teria percorrido carregando a cruz. Ao entrar no Santo Sepulcro, a igreja construída onde Jesus foi crucificado, sepultado e de onde ressuscitou, ela desabou. Lembrou de sua experiência como mãe… “Pedi: ‘Agora deixe que eu e Maria choremos nossos filhos em paz’.” Humilde, explicou sua relação com a mãe de Jesus: “Ela é minha mãe, mas também é minha irmã. Porque nós, mães que perdemos filhos, nos tornamos uma irmandade”. Viajando pelo Brasil com a peça Doidas e Santas, Cissa é sempre procurada por outras mães com a mesma dor. E não se incomoda em ouvir as histórias delas. “Não sou exemplo de superação. Não sou exemplo de nada. Odeio a palavra ‘superação’. Essa dor não é superada nunca. E também não sou boazinha, não. Ouço porque elas também me ajudam. Sinto necessidade de abraçá-las, de dar e receber o carinho delas.”

Cissa Guimarães em Jerusalém:"Nós, mães que perdemos filhos, nos tornamos uma irmandade"

Cissa acende uma vela na basílica que foi construída por Helena, mãe de Constantino, no ano de 326, século 4
Foto: Martiza Caneca

Com a ajuda do Ministério de Israel, Cissa conseguiu um feito raro: entrou no Domo da Rocha, uma das principais mesquitas do mundo, onde somente islâmicos podem entrar. Apesar de ouvir amigos judeus avisando que era perigoso, ela foi e também voltou com um novo aprendizado. “O que você vê em Jerusalém é uma multidão de muçulmanos, judeus, cristãos, armênios, etc, buscando a evolução, a paz interior. Parece piegas, mas no fim é tudo uma questão de amor. Nós temos de amar mais aos outros e a nós mesmos.”

Momento de descontração

Cissa conseguiu relaxar um pouco em sua viagem por Jerusalém – ela merecia. Pegou dois dias para conhecer o Mar Morto e Massada, ambos em Israel. “Queria ver o mar, que nem é mar de verdade, mas aquela água no meio do deserto da Judeia”, contou ela, que passou lama no corpo inteiro, um ritual que muitos acreditam ser medicinal e que deixaria a pele mais macia. Na mala, trouxe inúmeros cremes feitos de minerais do Mar Morto. “Porque a gente vai na fé, mas também tem fé nos cremes”, brinca. O lago tem 1.050 km² e sua alta salinidade permite que se flutue nele com facilidade.

LEIA A MATÉRIA COMPLETA NA EDIÇÃO 1993 DA CONTIGO!, NAS BANCAS EM 27/11/2013.

Cissa Guimarães em Jerusalém:"Nós, mães que perdemos filhos, nos tornamos uma irmandade"

Cissa coberta de lama, no Mar Morto, um lago de água salgada com uma quantidade de sal dez vezes superior aos oceanos. Devido à grande quantidade de minerais, a lama do fundo do lago é tida como boa para deixar a pele hidratada
Foto: Arquivo pessoal