Drica Moraes, curada de uma leucemia: ‘A doença é um sintoma de que sua vida está precisando mudar’

Refeita, a atriz celebra sua melhor fase interpretando a vilã Cora

Drica Moraes, curada de uma leucemia: 'A doença é um sintoma de que sua vida está precisando mudar'

“Acho que o bom de tudo que passei foi eliminar impurezas. Não convivo mais com coisas que não me fazem bem. Elas saem de mim”
Foto: Gerard Giaume

O momento não poderia ser melhor para Drica Moraes. Aos 45 anos, ela atua pela primeira vez no horário nobre da Globo, como a vilã Cora, de Império; dedica-se à criação do filho, Mateus, 5; e garante que nunca esteve tão feliz numa relação amorosa, como a que mantém há cinco anos com o médico Fernando Pitanga, 57. “É meu superparceiro. Nunca tive isso na minha vida, um sentimento renovado diariamente”, afirma. Aliás, renovação tornou-se palavra de ordem para a atriz, desde que foi diagnosticada com leucemia e passou por um transplante de medula, em 2010. “A doença é um sintoma de que o corpo está querendo mudança e que sua vida está precisando mudar em alguns aspectos”, diz. E Drica mudou! De casa, de hábitos e, principalmente, de atitude. “Não convivo mais com coisas que não me fazem bem. Elas saem de mim, tenho um ‘ralo’ melhor e elas escoam mesmo”, garante.

Como reage depois de interpretar cenas muito fortes?
Ainda bem que o Projac é longe (os estúdios da Globo ficam em Jacarepaguá, zona oeste do Rio, e ela mora na Gávea, na zona sul)! Tenho uma hora e meia (no trajeto para casa) para ir desopilando. É uma chave que, para mim, não é fácil, mas estou exercitando. Tony Ramos me ensinou: saiu do estúdio, esquece. Ele fala e faz isso muito bem.

Depois de 25 anos de carreira, só agora vem exercitando isso?
Acho que venho exercitando ao longo do tempo… Estou menos encanada. Tem de ir para a frente, se relacionar com sua vida real, seus amores, seus filhos… Esse negócio de ser ator e ficar acreditando no personagem é muito old fashion, né (risos)?

Uma das cenas mais comentadas da novela foi quando Cora deixou a irmã, Eliane (Malu Galli), morrer. E a personagem morreu de câncer, uma doença que você também enfrentou. A cena mexeu com você de alguma maneira?
Faz parte do meu imaginário, das coisas que vivi. Mas acho que, de certo modo, sim, repercutiu dentro de mim.

Foi mais difícil?
Foi mais fácil. O que a gente vive ajuda na hora de atuar. Vira material de trabalho, memória, afeto. Tudo ajuda e fortalece e me torna uma pessoa especial, melhor.

Em uma entrevista, você disse que agradeceu a Deus por ter ficado doente…
A doença é um sintoma de que o corpo está querendo mudança e que a sua vida está precisando mudar em alguns aspectos. E nesse sentido foi bom, comecei uma vida nova. Mudei de casa, encarei toda aquela construção com meu filho, tudo ficou muito positivo a partir dali.

Qual foi a sensação ao receber o diagnóstico de leucemia?
De pânico total. É um horror! Mas, logo em seguida, você tem de se posicionar: ou encara ou sucumbe. Tem de fazer essa escolha. Tive muita sorte, porque tudo foi a meu favor, os médicos, o doador… Tive uma reação ao transplante maravilhosa. E muito amor da minha família, do meu filho, dos meus irmãos (Eduardo, 46, Alessandra, 44, Pedro, 36, Bruno, 34, Diogo, 32, e Gabriel, 24), do meu namorado, que é meu marido hoje… Somos sete irmãos e sempre foi assim: se um tem uma coisa, todo mundo se junta. Meus pais (Clarissa Gaspar de Oliveira, 66, e Gustavo Moraes Rego Reis, 68) são separados há 40 anos, mas são muito amigos, e são casados com pessoas que se frequentam. Tudo é muito bom dentro de casa.

Ao longo do tratamento, havia um pensamento recorrente?
Só a vontade de cura, uma abertura para qualquer energia de cura que chegasse a mim. Ali comecei uma purificação. E uma facilidade de jogar fora coisas, pessoas, coisas ditas…

Drica Moraes, curada de uma leucemia: 'A doença é um sintoma de que sua vida está precisando mudar'

A atriz teve apoio da grande família – ela tem seis irmãos – para superar a doença. “Tive muito amor”, recorda
Foto: Gerard Giaume

Imagino que teve momentos em que pensou que não aguentaria. Pensou em desistir?
Não. Eu tinha um motivo forte: meu filho estava com 1 ano.

Teve de mudar hábitos, depois do transplante, não é?
Tive de mudar tudo. Adorava uma cerveja, por exemplo. Bebida agora é muito pouca, meu corpo reage mal. Se tomo duas cervejas, fico de ressaca. Parece que bebi uma garrafa de cachaça. E gostava de uma cervejinha… Então, dá pena não poder curtir algumas coisas que curtia. Mas há tantas coisas que curto… que tudo bem.

Há outras restrições?
Não. Só me preocupo em não ficar muito magra, em não deixar de fazer as refeições todas. Fiquei mais regrada.

Faz exercícios?
Não, tenho um alongamento natural. Quando estou com tempo, faço ioga, caminhadas, coisas leves… Nada pesado. Antes, podia correr, agora… Vai dar muito impacto, dor aqui, dor ali… Tenho dores de cansaço. Sinto mais cansaço do que antes.

E segue alguma dieta?
Zero. Como o que tenho vontade, de abobrinha a mortadela. Eu me preocupo em comer bem, mas sem neura. Como hambúrguer, tomo sorvete de casquinha… Mas perdi o apetite para certas coisas. Era chocólatra. Meu paladar mudou depois de tudo. Gostava mais de doce, agora prefiro o que é mais ácido ou salgado… Tento comer coisas orgânicas, mas, quando não dá… Sou regrada, mas me esculhambo de vez em quando também (risos).

Depois de curada, fez algo que sempre havia adiado?
A única que queria era criar meu filho, queria ter tempo para isso. Viajei muito! Fui à Turquia, morei em Londres, fui à Grécia, ao Egito, a Tel Aviv, a Israel… Então, isso não era a minha onda. E personagem, trabalho… Não ficava com essa dor de cotovelo. A minha gana era de poder ter tempo para criar Mateus. Eu me lembro de sempre imaginá-lo com 3 anos, com 5, de pensar em como ele seria, como ficaria o sorriso dele… Ele realmente foi meu norte.

Você dizia que queria adotar outro filho, mas mudou de ideia. O que aconteceu?
Passaram-se cinco anos. Já estou com dor nas juntas, na coluna, na lombar… Comecei tarde essa história de adoção. Se tivesse começado antes, com certeza, já estaria no segundo ou terceiro filho. Fui mãe tarde, com 40 anos.

Tem um lado bom em ser mãe mais tarde?
Acho ótimo não ter sido mãe mais jovem, porque tenho maturidade… Converso com meu filho sobre tudo, tenho uma paz para falar com ele que não teria aos 20. Tenho tempo para ele. Já conheci o mundo, amei vários homens, já fiz vários personagens interessantes… Só faltava Mateus na minha vida.

Demorou para ser mãe por causa do trabalho?
Não tinha facilidade para engravidar. Aí, a adoção… Tive a ideia tarde. Fiquei quatro anos na fila, comecei com 36 anos e só com 40 tocou o telefone (com a notícia sobre a criança). É muito legal ver uma criança crescer, aprender, ficar complexa, linda, amorosa…

Já vi que Mateus é mimadíssimo!
Faz ideia, né (risos)?! Só não é mais porque moramos nós dois e ele tem de se virar sozinho muitas vezes. Não que eu o deixe só em casa. Eu e o pai dele, Fernando, escolhemos morar em casas separadas, porque dá todo um tchan na vida da gente… Tem uns dias que ele vem, tem os dias que Mateus fica com a ajudante, tem de fazer dever sozinho. Exijo muito dele também. Ele é mimado, mas é exigido. Porque, se ligo da rua e não tomou banho, não fez o dever, tem uma bronca… Boto uma rotina bem rígida para ele poder ter um chãozinho.

Drica conta que seu paladar mudou depois do transplante: “Gostava mais de doce, agora prefiro o que é ácido”
Foto: Gerard Giaume

Fazendo novela, o tempo é mais curto, não é?
Encurtou. Aí, botei uma cartolina vermelha e escrevi: segunda, terça, quarta, quinta e sexta. Caso eu esteja fora, na segunda, ele dorme com a ajudante; terça, com outra; quarta, com o pai; quinta, com a avó; sexta, com o pai de novo. Sábado e domingo, se der, com a mamãe. Isso no caso de eu gravar a semana inteira.

E ele lida bem com essas mudanças?
Adora! A vida dele sempre foi um pouco assim, porque passei muito tempo no hospital, depois muito tempo na casa da minha mãe, fiz uma temporada de teatro (com a peça A Primeira Vista), viajei o Brasil inteiro…

Ele ia com você?
Eventualmente. Ele já sabe que trabalho com uma coisa que ele fala que “não é justo”. Ele diz: ‘Não é justo você trabalhar fim de semana. Todos os meus amigos ficam com a mãe no fim de semana’. Mas a vida não é justa. A gente discute sobre justiça, essas coisas… Ele foi acostumado. Ele é aquariano, gosta de mudança.

Mateus chama Fernando de pai?
Claro! E chama os filhos dele (Luiza, 36, Daniel, 34, e Tiago, 33) de irmãos. Um dia ele falou assim: ‘Se meu pai é meu pai, você tem de ser mãe dos filhos dele’. E também se relaciona com os netos (João, 10, e Yasmin, 8) do Fernando. É uma graça!

Como encara a passagem do tempo?
A idade vem e o lance é não ficar se lamentando por coisas que não pode mais fazer ou ter. Também não tenho ambição, deixei no passado. Talvez, ter tido outro filho. Mas personagens, viagens, homens, casas, carros, helicópteros… Não tem nada que a juventude pudesse me dar que não tenha tido. Acho que o bom de tudo que passei foi eliminar impurezas. Não convivo mais com coisas que não me fazem bem. Elas saem de mim. Tenho um ‘ralo’ melhor e elas escoam mesmo. E a idade é ruim porque ela nos limita mesmo. Agora, para ler um texto, tenho de pegar os óculos. Mas minha memória é boa, meu alongamento é bom… Estou bem para a minha idade, acho (risos).

Uma vilã que dá medo

Império marca a estreia de Drica Moraes no horário nobre da Globo, como Cora. E o sucesso é tanto que ela já recebeu até bilhete embaixo da porta de casa – provavelmente de algum vizinho que não quis se identificar. “Dizia: ‘Estou com medo de você!'”, conta rindo. A mensagem engraçadinha chegou logo depois de ir ao ar a cena em que Cora deixa a irmã, Eliane, morrer sem assistência. “Foi tão pesado que, naquele dia, a rede social parece que bombou”, diz Drica, que tem apenas uma leve noção do sucesso que a personagem faz na internet. “Sou uma pessoa tecnofóbica. Não tenho nada, nem Facebook. A minha cabeça não dá conta de tanta comunicação. Fico meio neurótica em ter de me comunicar com muita gente (risos). Mas as pessoas me contam, sei que há vários fakes da Cora.” Sim, só na primeira semana de exibição da novela, foram criados cerca de 30 perfis falsos da personagem, todos fazendo referência às maldades dela.

Drica, no entanto, tem uma visão diferente de sua personagem. “Não a acho tão vilã assim… Ela está mais para maluca, desequilibrada (risos).” Mas estou saboreando essa coisa mista da vilã, que é meio odiada e meio amada. As pessoas curtem maluquices”, diz a atriz, que faz questão de dividir o sucesso com Marjorie Estiano, que viveu o papel na primeira fase da história. “Ela me entregou a bola redondinha. É uma atriz maravilhosa, sofisticada, detalhista, sutil… Foi muito lindo o trabalho dela! Foi uma honra estar com ela nesse papel.”

Drica Moraes, curada de uma leucemia: 'A doença é um sintoma de que sua vida está precisando mudar'

Drica diz que aprendeu a lidar com as limitações
Foto: Gerard Giaume