Exclusiva: atriz Kathryn Hahn fala de ‘Mrs. Fletcher’, nova série da HBO

"Mrs. Fletcher" gira em torno de uma mulher que redescobre sua sexualidade em meio à síndrome do ninho vazio.

Lá em 1998, a HBO ousou falar sobre sexualidade feminina de um jeito como nunca havíamos visto na TV. Naquele ano nascia “Sex and the City”, série que tornou-se um marco.

De lá para cá, vimos os dilemas das mulheres serem debatidos com profundidade em outras produções da emissora, como “Girls” e “Insecure”. Agora, a série “Mrs. Fletcher” entra para essa lista de títulos – e traz uma trama que vai fazer com que, mais uma vez, muitas mulheres se identifiquem.

No ar desde o finalzinho de outubro, “Mrs. Fletcher” gira em torno de Eve, mulher que está vivenciando a síndrome do ninho vazio. Divorciada, ela tem apenas um filho, que sai de casa para cursar a faculdade. Em meio a esse novo momento de sua vida, Eve redescobre sua sexualidade. 

Baseada no livro de mesmo nome, a série é protagonizada pela ótima Kathryn Hahn, que foi indicada ao Emmy por “Transparent”. A seguir, você confere uma entrevista em que a atriz fala sobre seu papel em “Mrs. Fletcher”. Esse conteúdo foi cedido pela HBO com exclusividade para o MdeMulher no Brasil.

A série vai ao ar às segundas-feiras, na faixa da meia-noite. Simultaneamente, os episódios também ficam disponíveis na HBO GO.

Você está contente com a série?

Eu estou muito emocionada. É difícil ver claramente quando se trata do meu próprio trabalho, mas eu sei que a experiência foi ótima. Estou muito orgulhosa.

O Tom Perrotta [criador da série e autor do livro homônimo] contou como foi importante você ter colaborado com ele na série. Ele disse que vocês estavam filmando enquanto acontecia o movimento #MeToo e que você foi uma ótima caixa de ressonância para ele…

Que interessante. O movimento #MeToo ainda está acontecendo, continua muito vivo e forte. E ainda há muito a dizer sobre essa questão. Isso é muito importante para mim. Depois do meu primeiro encontro com o Tom, eu senti que a história era contada a partir de duas perspectivas diferentes: a da mãe e a do filho. Foi interessante que no livro ela fosse escrita na terceira pessoa e ele na primeira. Fiquei muito curiosa para saber como ele seria capaz de ver pelos olhos da Eve, na primeira pessoa. Eu sabia que seria um obstáculo que enfrentaríamos juntos, o de entrar na alma dessa mulher. É preciso destacar que ele se cercou de mulheres muito fortes. Era importante para mim, e ele entendeu isso, ter uma equipe com todas diretoras mulheres, com uma produtora sensacional, a Helen Estabrook, uma sala de roteiristas cheia de mulheres e estarmos cercados de vozes femininas. E ele estava com o coração aberto. Ele realmente escuta, é aberto e flexível. Então pudemos usar essa obra incrível, o livro dele, como uma espécie de documento para avançar em algo que acredito que nenhum de nós tinha imaginado.

Você conhecia o livro?

Não. Li um roteiro do piloto e, depois, tive uma reunião com o Tom, em que eu tive que conquistá-lo. Foi um processo de irmos entendendo um ao outro [risos]. Nós nos encontramos, tomamos um drinque em Santa Monica e tivemos uma conversa sensacional em que falamos de tudo, mas pouco sobre a série, como acaba acontecendo nessas reuniões. Falamos sobre coisas que nos interessam.

Você ficou curiosa sobre a personagem Eve Fletcher?

Fiquei! Eu tive muita empatia com essa mulher que foi sobrecarregada com rótulos e identidades impostos pela sociedade, e que não eram mais dela. Por exemplo, continuar sendo chamada de “Sra. Fletcher”, uma identidade que ela deveria ter abolido – ela se divorciou há dez anos e continua vivendo como a “Sra. Fletcher”. A minha mãe teve a mesma experiência. Continua sendo a Sra. Hahn apesar de estar divorciada há cerca de 15 anos. Eu conheço muitas mulheres que mantêm o sobrenome de casadas. Não é estranho? Eu acredito que isso agora está mudando. Mas na geração da minha mãe era assim. Muitas vezes você está mantendo uma identidade que não é a sua.

E essa é a essência do que acontece quando o filho da Eve vai para a universidade e ela começa a analisar a própria vida?

É. Essa identidade foi como as outras identidades que a Eve deu a si mesma, como a de “mãe”. Ela mora com esse estranho, que é o filho dela. O relacionamento deles não é dos melhores, nem o mais aberto. Ela é vista por ele como a vilã no divórcio, o que é injusto. O trabalho dela não é muito gratificante. Ela tentou ser boa a vida inteira e isso não adiantou muito para a sua alma. Agora, finalmente, tem a chance de saber quem é de fato. Para ela, ao contrário da experiência do Brendan, é por meio da Caixa de Pandora da pornografia na internet que ela consegue ser imprudente, ousada. Ela está tendo um caso e consegue se ver como uma mulher sexy, sexualizada e atraente, Por isso, mal pode esperar para voltar para casa, para
ficar com ela mesma. Acho que nesses primeiros episódios ela vive uma lua de mel. Depois a coisa fica um pouco mais sombria. Mas acho que ela está se apaixonando por si mesma novamente.

O Tom disse que a história, pelo menos em parte, é sobre a libertação do desejo. Você concorda? O que a pornografia representa para ela?

Concordo. Você não pode aprisionar o desejo. Você não pode escondê-lo, mesmo que ele seja muito irracional. Também acredito que a pornografia – esse despertar sexual para ela – é um substituto da busca existencial por algo, como Deus, a busca por quem ela é, por qualquer coisa. Eu acho que nós tentamos rotular as mulheres o tempo todo dentro de universos pequenos como a “maternidade” ou a “menopausa”. E a mulher se torna invisível, ninguém mais olha para ela da mesma maneira. Mas por dentro a sua experiência de ser mulher, a sua sexualidade ainda está muito viva e ativa. Acho que raramente temos a chance de ver uma mulher explodindo assim. Isso foi muito interessante para mim, porque as mulheres merecem ter esse poder representado.

Teria sido uma história completamente diferente, é claro, se tivesse sido sobre um homem vendo pornografia…

Sim. Como espectadores temos tido basicamente o olhar masculino como observador de pornografia.

Inclusive no cinema e na TV?

Sim. E acho que ver uma mulher com esse olhar é diferente por si só. O fato de ser uma história de amadurecimento duplo também. Nós vemos a Eve passando por isso, abrindo essa Caixa de Pandora da pornografia na internet, e vemos o filho dela que, como muitos jovens hoje, está aprendendo a ter um relacionamento, a namorar através dos dispositivos, da tecnologia e da pornografia. Eles não sabem namorar, ter um relacionamento, uma conversa cara a cara, nem são capazes de lidar com um rompimento ou com um confronto, porque simplesmente fecham a tela. Então, ao mesmo tempo que a Eve está passando por isso, vendo a internet como um novo mundo, o Brendan está conhecendo na faculdade o mundo da intimidade real, do relacionamento com seres humanos reais. Então, eu acho que podemos ver as duas coisas nesta série. O Tom criou algo muito poderoso porque vemos os dois lados, o
que é muito interessante.

Como você se prepara para um papel como este? Você tem tempo de ensaiar?

Não o suficiente. Às vezes sim, às vezes não. Tivemos alguns jantares e eu passei algum tempo com o Jackson [White], o sensacional jovem ator que interpreta o meu filho, o Brendan. Ele é muito bom. É interessante, eu não quero fazer spoiler de nada, mas na verdade não tínhamos muito a fazer um com o outro na tela. Então tivemos que tentar lidar com o que tínhamos no começo, sem saber o quanto estaríamos juntos durante as gravações. Nós realmente tivemos a sorte de ter química. E a mesma coisa aconteceu com o resto do elenco. O Owen Teague, que interpreta o Julian, é simplesmente um ator sensacional. A Kate Kershaw, que interpreta a Amanda, a Jen Richards [Margo], o Rashad [Edwards, que interpreta o Curtis], a Casey Wilson [Jane Rosen], todos eles são ótimos. Eu acho que tivemos sorte. É um elenco lindo de seres humanos únicos e perfeitos [risos]. Eu me apaixonei por cada um deles.

Mrs. Fletcher é outro exemplo de como a maioria dos dramas e comédias de ponta está sendo feita para a TV agora?

Sim.

Você imagina esta série produzida há 20 anos?

Eu não consigo me imaginar sendo protagonista de algo como esta série há 20 anos. O fato de a HBO ter assumido o risco de que eu protagonizasse uma série como esta – uma série sobre estes assuntos, com estes protagonistas – prova que esta é uma época realmente emocionante. Eu estou muito agradecida e orgulhosa de a HBO ter mergulhado em algo assim. Realmente é a época de ouro para essa forma de televisão.

Você se apega muito aos papéis? Alguns significam mais do que outros?

Este foi duro. Foi realmente difícil. Não estou dizendo que foi difícil deixá-lo, em termos de sacudir para sair dali, mas ele ficou comigo por um bom tempo. Foi difícil de fazer porque a Eve era difícil. Foi uma travessia difícil em todos os sentidos, de maneiras boas. Em todos os aspectos, foi difícil desenroscar, mas de uma maneira criativa e satisfatória. Estávamos no inverno em Nova York, eu estava longe da minha família. Íamos resolvendo tudo na hora, descobrindo a textura, descobrindo como ela era. Foi difícil porque a Eve é muito solitária e estar lá era muito solitário. Mas foi difícil deixá-la ir porque, em última análise – e isso é graças ao roteiro do Tom –, ela veio a mim, e ela chegou lá, eu acho. E eu amei o grupo com que eu trabalhei. Então foi muito bom o modo como todos realmente mergulhamos juntos nesse trabalho.

Como o público vai lidar com Mrs. Fletcher?

Eu não faço a menor ideia [risos].

Pode haver outra temporada de Mrs. Fletcher?

Vamos ver. Sem dúvida é uma série limitada. Mas eu amo muito a Eve. Vamos ver o que acontece [risos]. Olha, com “Big Little Lies” ninguém pensou que haveria outra temporada. Então, vamos esperar para ver.

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