‘Game of Thrones’ desmerece as mulheres que passou anos construindo

Daenerys, Sansa e Brienne têm sofrido bastante nas mãos dos roteiristas de GoT, que parecem não ligar para a congruência na construção das personagens.

Depois de um começo de temporada no qual as mulheres de “Game of Thrones” receberam o seu merecido destaque, a série decidiu que estava na hora de outra reviravolta. E, assim, os papéis femininos foram reduzidos a meros instrumentos da narrativa no quarto episódio da oitava temporada, tendo seu desenvolvimento ignorado – e incluindo um festival de clichês machistas na trama.

Não podemos começar por outra pessoa que não seja a Mãe dos Dragões, ou talvez seja melhor dizer a Mãe do Dragão. Desde o início, Daenerys Targaryen é uma das mais queridas pelo público. Ao longo de oito temporadas, ela foi de garota indefesa vendida pelo irmão a rainha forte e poderosa.

Porém, recentemente, a história da Quebradora de Correntes tomou um rumo inusitado. Vários personagens demonstraram sua preocupação com a possibilidade de Dany ficar louca igual ao pai, Aerys II, morto após tentar explodir Porto Real.

A intenção do roteiro é mostrar como Jon Snow, além de ter mais direito ao trono, é um governante mais apto do que sua tia, uma vez que ele não herdou a loucura comum em seus ancestrais. Dessa maneira, após sucessivas perdas, a jovem Targaryen está mais irritada e impulsiva do que nunca.

Com as tentativas forçadas de impôr Daenerys como uma espécie de vilã, a narrativa quebra as próprias regras. A rainha, de fato, cometeu algumas atitudes condenáveis, como o assassinato da família de Sam. Mas, segundo os padrões de “Game of Thrones”, isso não chega a ser sinal de insanidade.

Vários outros personagens já demonstraram grande frieza ao matar e não foram taxados de loucos: Arya massacrou os Frey, Tyrion lançou fogo vivo nos navios de Stannis na Batalha da Água Negra, Theon destruiu Winterfell, os Lannister organizaram o Casamento Vermelho. Todos eles foram enaltecidos por sua esperteza ou senso de oportunidade.

Falando em alguém que aproveita as chances que tem, Sansa Stark já mostrou ser uma das maiores estrategistas da série. Porém, ultimamente, ela parece ter esquecido tudo, apenas para implicar com a Khaleesi.

É normal que duas pessoas não se gostem. No entanto, dentro da história, essa rivalidade feminina não possui outro sentido que não seja transformar Jon em rei. Demonstrar tanto desafeto por uma poderosa aliada que acabou de conhecer não combina em nada com a personalidade calculista da Lady de Winterfell. 

Até a sua lealdade à família, outro grande ponto da composição da personagem, foi jogada ao vento. Mesmo prometendo a Jon que guardaria o segredo sobre seus pais, ela não perdeu tempo em contar tudo para Tyrion.

Sem pensar em estratégias nas quais usar a informação e traindo a confiança de alguém querido, Sansa apenas serviu como “fofoqueira” para avançar a trama.

Brienne de Tarth finalmente conseguiu tudo que queria: é uma grande guerreira e está ao lado do homem que ama. Depois de tantas tragédias, a Cavaleira dos Sete Reinos merecia um pouco de descanso. Mas os roteirista de GoT pensam diferente. Mais uma vez, a mulher foi desprezada e teve seu coração quebrado, sem necessidade alguma.

Qual foi o motivo de Brienne ter seus momentos de felicidade com Jaime, se logo depois tudo iria ser destruído da pior maneira possível? E qual é a consequência disso para o resto do enredo?

A resposta mais plausível parece ser dar a Brienne uma motivação para a batalha final, já que Game of Thrones tem um gosto especial por usar sofrimento como ferramenta para desenvolver as mulheres da trama. No mesmo episódio, por exemplo, Sansa comenta como todo o abuso sofrido foi essencial para torná-la uma mulher poderosa.

Esse uso de traições e estupro como instrumento da história é outro grande problema que a série enfrenta em relação a construção de suas personagens. Nas últimas temporadas, a narrativa tem insinuado que os abusos sofridos são importantes para fortalecerem as mulheres, diminuindo seu sofrimento e capacidade de crescerem sozinhas, além de incorrer na romantização da violência sexual – o que é algo bem problemático.

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