Lima Duarte, um caboclo na Índia

Lima Duarte inaugurou a televisão no Brasil e continua encantando o público com seus personagens. Neste bate-papo, ele fala do fascínio pela Índia e sua cultura e do desejo de voltar ao país

Lima Duarte
Foto: Marco Pinto

Lima Duarte ajudou a carregar os equipamentos para a estreia da TV no Brasil, em 1950. Desde, então, é presença constante na telinha. Mesmo assim, aos 79 anos, o intérprete de Shankar, de “Caminho das Índias”, garante que ainda tem o que aprender e descreve o personagem como “uma grande lição de vida”. “Shankar é um homem muito nobre. Apesar de ser um brâmane, casta mais alta da sociedade, ele acolheu e criou um menino intocável, Bahuan (Márcio Garcia)”, diz entusiasmado.
Shankar ainda proporcionou ao veterano uma temporada na Índia, onde se misturou ao povo para melhor entendê-lo. “Vi pessoas comendo no chão, com as mãos, e fiquei horrorizado, até que eles me ofereceram um pouco. Lá, mesmo a sujeira vem cercada de uma limpeza moral, tudo é sagrado, enquanto aqui tudo é muito material” compara. Lima está tão envolvido com o universo indiano que já prepara sua volta ao país, como revela nesse bate-papo com a MIINHA NOVELA.

O senhor comentou que a viagem à Índia o fez refletir sobre o ser humano. A que conclusões chegou?
A Índia é fantástica e muito diferente. Lá, você aprende a aceitar outras religiões e, se possível, até a amar o próximo. Essa é a grande lição que aprendi na viagem e que levo comigo. Acredito que, na base de todo crescimento humano, está o outro.

O senhor já declarou várias vezes que “não passa de um caboclo da roça”e que faz “sempre o mesmo papel”. Considerando verdadeiras as duas afirmações… Como um caboclo se insere na Índia (risos)?
Os caboclos, tanto quanto a Índia, são absolutamente universais. Parto do princípio de que, quanto mais nacional você for, quanto mais profundamente estiver integrado à sua gente, mais universal será. Só há uma forma de falar com o mundo: falando com a nossa aldeia, a nossa casa. Adoro o verso de Fernando Pessoa: “O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, mas o Tejo não é mais bonito que o rio que corre pela minha aldeia, porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia”.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, em 2006, o senhor disse que pararia de fazer novela depois de Belíssima. O senhor realmente pensa em deixar a TV?
Essa entrevista me causou um prejuízo grande, pois pegaram o que eu disse e descontextualizaram. Pensei em parar de trabalhar com novelas, mas conversei com os amigos, tive o apoio de todos e resolvi continuar. Quero parar toda hora, e toda hora não quero parar. Depois da novela, estou pensando em tirar um tempo para voltar à Índia e entender melhor o milagre que é aquele país.

O Shankar, como todo indiano, é super-religioso. E o senhor, qual é a sua relação com a religião?
Os hindus não são cristãos e aqui no Brasil nós entendemos a religião a partir do cristianismo. Esse é o maior choque da novela. Lá, existe outra moral e nós vivemos em um país onde tudo é questão. A minha religiosidade é imensa, mas ela é mais hindu.

Shankar é um renunciante e o senhor, há algum tempo, declarou ter renunciado ao sexo (uma das etapas do processo pelo qual seu personagem passa), além de preferir morar num sítio afastado. Guardadas as proporções, o senhor seria um renunciante ocidental (risos)?
Moro em um sítio sozinho, no interior de São Paulo. Segundo Vinícius de Moraes, “uma das melhores maneiras de ser solitário é sendo paulista”. Gosto muito de estar sozinho, pois eu me basto. Sou feliz assim, sem melancolia alguma. É uma escolha.

O senhor foi responsável por grandes inovações na TV ao dirigir Beto Rockfeller – a maioria usada até hoje. O que acha da TV brasileira atualmente?
Antigamente a televisão era mais profunda. O público brasileiro idolatrava uma senhora chamada Christiane Mendes Caldeira. Eu estava no primeiro dia da televisão, da TV Tupi de São Paulo, 18 de setembro de 1950. Ela trabalhava num programa de muito sucesso: O Céu É o Limite. Cristiane adorava Marcel Proust (escritor francês), leu tudo e respondia tudo sobre ele. Ela passava e era apontada na rua como “aquela é a dona Christiane, que sabe tudo de Proust”. Era uma televisão diferente.

A propósito: o senhor gostaria de voltar a dirigir uma novela?
Aconteceu uma coisa muito curiosa com a minha vida profissional. Fui convidado para ser o assistente direto do Cassiano Gabus Mendes e não pude trabalhar com ele porque não podia deixar de ser ator. Eles falavam: “O Lima é um ator tão bom, não pode ficar no gabinete, dirigindo”. Quando o Boni (ex-superintendente da Globo) veio para a Globo, ele também me convidou para ser seu assistente, mas o Dias Gomes falou que não, que eu tinha que ser ator. Em toda a novela me preferem como intérprete. Não fui mais diretor, porque, segundo eles, sou um ator muito bom. Se fosse um projeto que me tocasse muito, talvez eu aceitasse.

Profissionalmente, há algum papel que gostaria de ter feito e não fez?
Há muitos, a gente sempre quer mais. Gostaria de ter feito o Riobaldo, do “Grande Sertão: Veredas”. Apesar de algumas pessoas o imaginarem mais novo, eu o vejo com a minha idade.

Nos últimos anos, o senhor tem feito muito cinema. Há projetos nessa área a caminho?
Quando a novela terminar, vou para Portugal trabalhar com um grande amigo: o Paulo Rocha. No final do ano, também estréio um filme com Caco Ciocler (o Murilo da mesma trama) e Vera Holtz, muito interessante, “A Família Vende Tudo”.

O senhor foi o homenageado do Prêmio Contigo de Televisão deste ano. Depois de tantos anos de carreira, qual a importância de receber esse tipo de homenagem?
Foi muito tocante e, o mais legal, é que consegui emocionar todos que estavam lá. Contei um incidente da minha vida que ocorreu com a minha mãe no palco, que me levou a ser ator e a ser o homem que eu sou. Muito bonito…