Marcos Mion fala sobre o filho portador de dificuldade de desenvolvimento: “Eu me senti escolhido”

Em passeio no Busch Gardens, em Tampa, o apresentador fala sobre o primogênito, Romeo, e mostra que ser pai é sua maior realização

Marcos Mion e a mulher, Suzana Gullo, com os filhos, Romeo, Donatella e Stefano na área Sesame Street of Fun, no Busch Gardens, em Tampa
Foto: Tomás Arthuzzi

Romeo, 8 anos, aguarda para ver a entrada de seu personagem favorito, o magrelão vermelho e fofo Elmo, do Vila Sésamo. Ele está ansioso e o teatro Sunny Day está muito cheio e barulhento. O pai, Marcos Mion, 34, pega o filho no colo, o abraça e, juntos, eles assistem à apresentação do musical A For Africa, do Sesame Street (nome original nos Estados Unidos do clássico programa infantil), no Busch Gardens, em Tampa, Flórida. Romeo fala, faz contato visual, se comunica e adora trocar carinho com o pai. É esperto, cheio de vontades, mas se percebe um mundo especial e único a sua volta. O apresentador do Legendários, da TV Record, diz: “Sem dúvida nenhuma, Romeo é meu maior orgulho e minha maior motivação como ser humano”. O garoto tem dificuldades em seu desenvolvimento. “Ele tem alguns déficits, mas leva uma vida normal. Romeo demora mais para aprender e tem algumas coisas que são do mundo dele. Não se encaixa como autista nem como síndrome de Asperger (uma forma branda de autismo, com habilidade verbal desenvolvida). Ele se encaixa em uma variação que é a NOS, Not Otherwise Specified, que, em português seria Sem Nenhuma Especificação”, explica Mion.

Desde muito jovem, ele sonhou em ter muitos filhos, e hoje tem Donatella, 5, e Stefano, 3, além de Romeo. A mãe, Suzana Gullo, 36, está casada com o apresentador há nove anos e passou por três gravidezes de alto risco para ter a grande família que CONTIGO! acompanhou em férias em Orlando, com exclusividade.

Desta vez, a família viajou com o grupo levado pela decoradora Andréa Guimarães, 43, mas eles têm uma residência fixa em Miami (cerca de quatro horas de carro de Orlando) e passam quatro meses por ano lá. O motivo é o tratamento do primogênito. O distúrbio de desenvolvimento de Romeo é leve, tanto que circula pelo parque, brinca com um canguru e em poucos momentos se mostra agitado. A rotina da família foi se adaptando à situação. “Ele geralmente está tranquilo, mas se mexem na ordem do dia, dá um tilt em sua cabeça. Com estímulos bons, a criança evolui numa boa”, completa Mion.

O passeio é uma diversão para a família. “É maravilhoso. Esses parques são o ‘quintal de casa’ dos meus filhos. Nos divertimos muito aqui”, afirma Mion.

Marcos Mion fala sobre o filho portador de dificuldade de desenvolvimento: "Eu me senti escolhido"

No Animal Care Center do Busch Gardens, Marcos, Donatella e Stefano observaram animais exóticos, como o Equidna, um mamífero originário da Austrália
Foto: Tomás Arthuzzi

“Só vejo prazer em ser pai”

Romeo não curte muito os brinquedos do parque em Orlando, mas os shows, ah, esses, sim! Ele adora música. E ali é um quarteto em plena farra. Stefano, carinhosamente apelidado pelos pais de “malokinha”, é o mais novinho e é desprendido, engraçado, tem aulas de MMA e faz as mesmas caretas de Mion no Legendários – isso sem nunca ter visto o programa, pois o pai não deixa, só a parte musical. Já Donatella, ou Doninha, a do meio, que faz aulas de ginástica olímpica, é o dengo de Mion. Senta no colo, abraça e ele a enche de mimos. Mion faz questão de acordar as crianças para ir à escola todos os dias. Prepara o café da manhã e as mochilas. À noite, o apresentador também coloca o trio para dormir. “Se estou trabalhando mais do que vendo meus filhos, tem alguma coisa errada e eu paro. Só vejo prazer em ser pai. Se eu pudesse ganhar o que ganho para exercer só esse papel, eu faria isso feliz da vida”, garante.

A síndrome antifosfolípide

A missão de ser pai começou com Romeo, em 2005. Quando ficou grávida, Suzana teve uma gestação complicada, e o menino nasceu prematuro e com uma luxação nos quadris. Só então ela descobriu que era portadora da síndrome do Anticorpo Antifosfolípide (SAF), um mal crônico em que o organismo produz anticorpos que mexem com a coagulação sanguínea – é comum a pessoa descobrir isso somente durante uma gravidez, que é sempre de risco (e as três de Suzana foram, segundo a própria). Na de Donatella, apesar dos tratamentos (Mion dava injeções de cortisona na barriga dela toda noite), ficou de cama quase toda a gestação da menina. “Queríamos ter quatro filhos, mas depois do terceiro, cansei. Passo muito mal. É muito difícil”, explica Suzana. “É por isso que sou maluco e admiro tanto essa mulher. Instinto paterno e materno para ter uma família grande e isso contra todas as adversidades”, diz Mion.

Romeo nasceu, ficou internado na UTI, passou por cirurgias e usou gesso até pouco depois de 1 ano. “Mas isso é a parte física. Quando é um bebê é tudo ok. Você não vê nenhuma diferença. É só com o tempo que você consegue identificar outras situações. A criança vai crescendo e os atrasos ficam mais evidentes. Mas o Romeo corre atrás”, explica Mion. “Ele vai normalmente à escola, tem amigos. No caso do chamado espectro autista, a mensagem mais importante que tenho é que diagnosticar prematuramente pode tirar o brilho de uma pessoa, limitar o que ela vai ser. Você perde a chance de deixá-la crescer para ser o que ela quiser. O diagnóstico é limitador. Tenho pavor de médico que vê a criança pela primeira vez, pede para ela brincar um pouco, faz duas perguntas e dá um parecer fechado”, compartilha Mion.

Marcos Mion fala sobre o filho portador de dificuldade de desenvolvimento: "Eu me senti escolhido"

“Se estou trabalhando mais do que vendo meus filhos, tem alguma coisa errada e eu paro”
Foto: Tomás Arthuzzi

Preconceito: em casa é melhor

Quando a Donatella chegou, Suzana conta que Romeo deu um salto gigantesco em sua evolução. Imitava ela, ia atrás. As crianças com distúrbio de desenvolvimento geralmente se interessam mais por adultos. Com a Donatella e o Stefano, ele começou a ter mais interação. “É aconselhável conviver com crianças. Como temos duas em casa, é natural. Então, tudo o que é duro na vida, até um pouco do preconceito, ele aprende antes em casa e com quem o ama, que são os irmãos. É melhor ele ouvir do irmão um: ‘Ah, você não consegue correr mais rápido do que eu’, do que ele ouvir isso pela primeira vez de um colega da escola, que fala isso com malícia. Porque criança é maliciosa. Qualquer uma. Até meus filhos são. Criança fala na cara, não tem pudor. Prefiro que ele aprenda e passe por isso em casa do que com uma pessoa que nunca viu. E a gente sempre explica. Se o Stefano fala: ‘Romeo, eu corro mais do que você’. A gente para, senta e conversa. ‘É, Stefano, realmente você corre muito mais rápido do que o Romeo, mas o Romeo canta muito melhor do que você, o Romeo é muito afinado. Ele canta muito bem’. Daí você tem de elevar a qualidade que cada criança tem de melhor. A evolução do Romeo é lenta, mas contínua. Então a gente tem expectativas e esperanças maravilhosas”, conta a mãe.

A história do casal

Marcos conheceu Suzana em São Paulo, em uma visita que ela fez à cidade, já que morava em Nova York. Destino, talvez… “Ela estava a coisa mais linda e estilosa do mundo, andando. No mesmo dia a chamei para sair e não nos desgrudamos mais. Eu disse que ficaríamos juntos para sempre”, conta. Seis meses de namoro e eles decidiram se casar e ter filhos – independentemente das dificuldades. “Depois que a gente começou a perceber que Romeo era especial, eu, na verdade, me senti a pessoa mais abençoada do mundo, me senti escolhido. O melhor conselho que posso dar é: não tenham medo, nunca desistam de seus filhos. Eles só precisam de amor e de estímulo”, afirma. Já são nove anos de casamento e uma família que se diverte unida – de preferência ao lado do Elmo, não é, Romeo?

ESTA MATÉRIA FAZ PARTE DA EDIÇÃO 2002 DA CONTIGO!, NAS BANCAS EM 29/01/2014.

Marcos Mion fala sobre o filho portador de dificuldade de desenvolvimento: "Eu me senti escolhido"

Romeo assiste ao pai dar comida ao canguru no Walkabout Way do Busch Gardens. Ao lado, Donatella e Stefano ajudam a mãe, Suzana
Foto: Tomás Arthuzzi