Matheus Nachtergaele fala sobre sua carreira

O ator diz que ainda não caiu a ficha ao ver seu filme, A Festa da Menina Morta, ser tão premiado

Matheus Nachtergaele admite que ficou 
tenso ao participar da microssérie 
Ó Paí, Ó
Foto: Divulgação/ Rede Globo

O ano está terminando e o saldo não poderia ser mais positivo para o paulistano Matheus Nachtergaele, de 39 anos. Sua estréia, na direção do filme A Festa da Menina Morta, abocanhou diversos prêmios, entre eles, o de Melhor Filme/Novos Diretores, do Festival Internacional de Chicago (EUA) e os troféus Redentor, no Festival do Rio 2008, de Melhor Diretor e Melhor Ator (Daniel de Oliveira), além de seis prêmios no Festival de Gramado, incluindo Melhor Filme do Júri Popular. “Parece que ainda não caiu a ficha. Confesso que não esperava que o filme fosse tão bem aceito”, disse um modesto Matheus, que está se despedindo da microssérie Ó Paí, Ó, como o antagonista Queixão. “Adorei esse trabalho, apesar de ter ficado inseguro. Mas foi um prazer enorme gravar em Salvador com o Bando de Teatro Olodum”, diz o ator, que, em 2009, deve atuar no filme O Bem-Amado: “Ainda não tem nada certo, mas é bem provável”.

Você não participou do filme Ó Pai, Ó. Se sentiu como se estivesse pegando um bonde andando ao atuar na série da Globo?
Um pouco. Mas foi bom ter pego eles já “azeitados”. O pessoal estava entrosado, mas nem por isso deixaram de ser carinhosos comigo. E eles sabiam que eu estava um pouco tenso. Apesar de eu não fazer o mesmo personagem que o Wagner Moura fez no filme, me sentia com essa responsabilidade de estar, de alguma maneira, substituindo a figura dele. Até o nome do personagem é outro. Queixão é o baixo-astral, o antagonista, é o cara que bate de frente com Roque (Lázaro Ramos), que afronta as pessoas do Pelourinho…

Como foi gravar em Salvador?
Fiquei uma semana construindo fisicamente o personagem e, enquanto isso, ensaiávamos. Eu andava pelas ruas para ouvir as pessoas, para incorporar o sotaque, os trejeitos… Mas foi difícil andar incógnito. E isso acabou sendo uma das loucuras de gravar no Pelourinho. Em alguns dias, havia cordão de isolamento e uma platéia gigantesca. Quando parava a gravação, a galera invadia para tirar foto e pegar autógrafo. Isso acontece… Você querendo se concentrar e as pessoas pedindo atenção. Mas a “louca ação”, como diz Paulo José, sempre vale a pena. É tão mais bonito filmar em cenários reais do que em estúdio. Adorei tudo!

Você ainda fica tenso com um novo trabalho?
Nossa, fico muito! Eu não quis pensar muito na “substituição” para não ficar nervoso. Monique (Gardenberg, diretora da série) me acalmava o tempo todo dizendo para relaxar, que esse era outro personagem, diferente do papel do Wagner. Toda vez que eu encontrava com algum ator do Bando, perguntava se estava com sotaque, se estava tudo certo.

Como foi trabalhar com o pessoal do Bando?
Estar no seio do Bando de Teatro Olodum, com pessoas tão talentosas, só me deixou honradíssimo. A alma da série é o Bando. O público de TV ainda não os conhecia, mas agora vão constatar que eles são a cara do Brasil.

Os personagens que você interpreta sempre são marcantes. Você os escolhe ou tem sorte de, geralmente, pegar bons papéis?
Fui conquistando uma relação com a televisão muito cuidadosamente. Sempre fiz os personagens que eu quis, nunca fui forçado a participar de algo que eu não quisesse. Minha relação com a Globo é respeitosa, dos dois lados. Aceito um papel quando estou acreditando no projeto. E eles entendem que isso é importante para que eu esteja bem.

Destacaria algum papel em sua carreira?
Tive a chance de fazer tipos incríveis o tempo todo: um travesti em Hilda Furacão, um amarelinho safado em O Auto da Compadecida (2000), um comunista frustrado em Queridos Amigos (2008), o padre Miguel de A Muralha (2000) e agora esse maluco beleza do mal que é o Queixão. Mas não nego que amei fazer o Carreirinha de América (2005).

Por que Carreirinha foi tão especial?
Ele era muito complexo, um trabalho lindo… Lembro-me de que nunca tinha me acontecido de um autor me telefonar, como foi o caso da Gloria Perez, e me dizer: “Se prepara porque vou salvar o Carreirinha”. Desde a sinopse, tínhamos construído um personagem órfão, analfabeto, vândalo e que iria se destruir. Ele ia ser o peão que iria se dar mal. Só que as crianças começaram a gostar dele e Gloria disse que precisava salvar o Carreirinha. E pediu que me preparasse para dar uma guinada. Ele se alfabetizou, casou… Isso foi muito comovente.

Você ainda se emociona ao falar dele, não é?
É verdade. No dia em que Carreirinha aprendeu a ler, eu fui para casa chorando. Era como se ele fosse alguém de que eu gostasse muito e que tivesse conseguido fazer uma coisa bacana. Ele era um personagem muito especial.

Além de ator reconhecido, agora você é um diretor de cinema premiado. Já caiu a ficha?
Ainda estou muito sob o impacto do que está acontecendo. É claro que eu tentei fazer o filme o mais honesto possível, não abri concessão nenhuma. Realizei o filme que quis: corajoso, com tintas fortes, que se aproxima da tragédia. O que tem acontecido é um presente dos deuses. A gente estreou em Cannes, que, para mim, é o maior festival do mundo. E eu nunca imaginei isso. Jamais pensei que meu primeiro filme fosse começar com o pé tão direito assim. Às vezes, eu não acredito no que está acontecendo. Mas está gostoso.

Pretende emplacar outro filme?
Tenho dito que fazer um longa é uma travessia tão penosa… É necessário mover tanta coisa para conseguir filmar, principalmente cinema autoral no Brasil. Para fazer outro, eu precisaria ter uma urgência muito grande, uma necessidade absoluta. Seria preciso que eu estivesse indignado, muito perturbado para entrar em outro processo. Não tenho projetos imediatos para um novo filme. É claro que o caminho bonito que A Festa da Menina Morta está seguindo, às vezes, me anima a fazer mais. Quem sabe daqui a dez anos vem outro? (risos).

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