Nova série da HBO mostra história real de uma mulher inspiradora

Anne Lister foi uma mulher lésbica que viveu no interior da Inglaterra em meados do século 19 - e que ousou se impor contra a sociedade da época.

“Gentleman Jack” é a mais nova série da HBO para ficar de olho. Produzida em parceria com a BBC, ela é baseada na história real de Anne Lister, uma mulher lésbica que ousou ir contra os padrões da sociedade em meados do século 19. 

No ar desde o dia 26 de abril, sempre às sextas-feiras (22h), “Gentleman Jack” é protagonizada por Suranne Jones e conta com Gemma Whelan (a Yara Greyjoy, de “Game of Thrones”) no elenco. 

A série tem início em 1832, em Halifax, no interior da Inglaterra. Anne está voltando para a casa da família, depois de passar um tempo morando noutros lugares. Ela é vista como uma mulher “pouco feminina”, o que desagrada muita gente, mas Anne não leva desaforo para casa e é respeitada pelo pessoal da pequena cidade. Logo vemos que sua condição social contribuiu muito para que esse respeito fosse conquistado, mas a postura dela é seu grande diferencial – sem dúvida nenhuma.

Anne se impõe o tempo todo, mas também tem uma faceta frágil. Afinal, dá para imaginar o que ela teve que enfrentar, né? Estamos falando de uma mulher lésbica que viveu na primeira metade do século retrasado.

Na série, a arrogância de Anne pode incomodar em alguns momentos, mas isso não faz com que a gente perca o interesse pela personagem. Isso porque o contexto histórico é claramente muito opressor. E, para se ter uma ideia, ela foi tão transgressora que casou-se com outra mulher no ano de 1834.

As cenas em que vemos o sofrimento de Anne nos mostram o quão desafiadora foi a jornada daquela mulher – e isso faz com que a gente queira saber mais sobre ela. Suranne Jones, a atriz que a interpreta, está muito bem no papel e consegue transparecer as camadas complexas dessa personagem tão peculiar.

A seguir você confere uma entrevista, cedida pela HBO, que o MdeMulher publica com exclusividade no Brasil. Nela, Suranne fala a respeito de sua personagem e de como foi gravar “Gentleman Jack”.

Você está entusiasmada por soltar a Anne Lister em um mundo desconhecido?

Depois de muitas entrevistas à imprensa e vendo o interesse das pessoas, tenho muita esperança de que ela seja bem-recebida, ou que pelo menos seja tema de conversa. O público
parece apaixonado por ela por muitas razões diferentes. Falei com gente de todo o país e do mundo inteiro, homossexuais ou não, e todos estão intrigados com essa mulher incrível e sua
história. Por que não se sabe nada sobre ela? Eu acho que isso é o que mais surpreende o público. Se ela estivesse sentada aqui hoje, continuaria sendo uma mulher realmente incrível.
Ela não era impressionante só em 1832-34. Ela é simplesmente incrível. Ponto.

A série está ambientada em um tempo e um lugar específicos. O que torna a história dela relevante e universal?

Trata-se de uma mulher da classe trabalhadora que conquista um lugar na sociedade e consegue ser ouvida. Ela defende seu direito à educação, algo que todo mundo merece. Defende quem ela é, sua autenticidade, desafia os papéis de gênero e é uma mentora para outros: para Ann Walker, para a irmã e, de certo modo, para a família. Eu acho que tudo isso é
extremamente importante para as mulheres de hoje. Quando uma jovem lésbica vê isto, ou quando uma mulher vê junto com a esposa em casa, de qualquer idade, é genial para elas se
verem representadas na televisão. O que torna a Anne Lister relevante é que ela lutou pelo que merecia, apesar de cada passo ter sido muito difícil. Essa valentia também é transmitida hoje.

 (HBO/Divulgação)

Você está sob os holofotes há muito tempo. Como se preparou para este papel?

Quando começamos a filmar a série eu tinha acabado de fazer um espetáculo em West End [região de Londres famosa por seus teatros]. Tiveram que me tirar arrastada de um espetáculo em West End porque eu estava física e mentalmente esgotada. Foi assim que eu comecei esta série, em um momento em que os médicos tinham me dito que eu precisava me cuidar. E eu tinha dito alguma coisa do tipo “esperem aí, eu tenho uma grande série pela frente e a Anne Lister é uma grande personagem”. Eu me lembro de estar indo para Yorkshire, para nos instalarmos naquela fazenda, e de ter feito um pacto com o meu marido de nos afastarmos radicalmente de tudo e dedicar a minha vida a Anne Lister, porque não tinha outro jeito. Eu precisava me cuidar fisicamente. Comer bem. Fazer o que pudesse com o meu filho, que estava conosco e tinha 2 anos e meio. Eu dedicava todo o meu tempo a conversar com a Sally [Wainwright, criadora da série] sobre a essência do episódio seguinte, a me reunir com a figurinista – porque todas as roupas foram feitas para mim, então eu tive que fazer várias provas de cada peça –, a decorar as minhas falas. Nós dedicamos a nossa vida inteiramente à série. Quando, aos domingos, eu levava o meu filho para brincar, eu carregava o roteiro e alternava entre participar das brincadeiras, escorregar nos tobogãs e brincar de pirata com ensaiar os diálogos! Mas não tinha outro jeito.

Na série, a Anne está sempre em movimento. Ela tem uma energia física e mental inesgotável. Você teve que se preparar fisicamente também?

Tive, sim. Tive que me cuidar. Isso incluiu muito ioga de manhã e, quando podia, ir à academia. Eu já tinha feito musculação e levei todos os meus pesos para Yorkshire, para tentar me
manter com bom preparo físico. Quando eu tinha uma manhã livre, o que não era muito frequente, eu ia nadar com o meu marido, ou então íamos nos fins de semana, para nos mantermos ativos. No oitavo mês já estava todo mundo se arrastando. A Sally gritava: “Mais rápido! Anda mais rápido, fala mais rápido”. E eu pensava: “Como eu vou fazer? Só mais um
dia. Vamos, eu consigo”.

Como você se sentiu na primeira vez que se viu transformada em Anne?

A transformação levou algum tempo. Fui à Cosprop [grande loja de figurinos para cinema e televisão] e eles já tinham recebido todas as peças masculinas e femininas criadas pelos figurinistas. Trabalharam todos juntos para ver até onde podíamos brincar com os gêneros dentro do figurino. Há algumas primeiras fotos minhas com roupas completamente masculinas,
de calça e com o cabelo mais curto, depois com o cabelo solto. Inicialmente não íamos usar o cabelo comprido. Fomos mudando aos poucos, e quando chegamos a um resultado que todo
mundo aprovou, estava muito bom. Na verdade, eu não me sentia muito bem nos dias de descanso no fim de semana. Só depois de mais ou menos um mês sem filmagens eu comecei
a voltar a me sentir eu mesma, porque eu queria me vestir com a roupa da Anne Lister todos os dias. E havia muita roupa! Embora olhando rapidamente possa parecer muito simples, ela usa meia-calça, meia, uma faixa, botas de homem, calções, depois um espartilho feminino, uma camisa, um colete, uma jaqueta, o casaco, o chapéu. É muita coisa. E fazia muito calor quando filmamos. Eu tive que ir a um quiroprático porque senti muita dor nas costas por causa do espartilho. Não se deveria agir como a Anne Lister usando espartilhos assim!

 (HBO/Divulgação)

Como foi filmar em Shibden Hall, a casa real da Anne?

Normalmente, em lugares históricos como esse, nem se pode andar no set, não se pode tocar em nada. Em algumas partes de Shibden, não era possível usar as câmeras, que eram
pesadas demais, e teriam feito o piso ceder. Por isso foram usados trilhos. Mas no térreo nós podíamos andar onde quiséssemos. Shibden é um lugar bonito para conhecer, e espero que
receba muitos visitantes. Tem a paisagem que ela desenhou e fez, e na parte de baixo há um lago, que agora é um lago de patos; depois tem um trenzinho de passeio e um trem ferroviário,
a lanchonete, um parque infantil… é bem grande. Durante a filmagem só a metade de cima ficou fechada, onde estava a casa, então Shibden continuou recebendo visitantes de todos os lugares. Eu costumo ficar um pouco inquieta, então, em vez de ir de carro até onde nós comíamos, eu sempre dizia “eu vou andando”. E lá ia eu.

A cara da Anne Lister!

A cara da Anne Lister. Eu andava com passos largos por Shibden com aquela roupa, e tinha gente no trem que me olhava surpresa. Eu simplesmente cumprimentava alegremente e eles
retribuíam, porque eu sentia que eram as minhas terras. Uma vez levamos o meu filho a Shibden no fim de semana. Ele disse que era “o parque da mamãe”.

Como a série se desenvolve? Há espaço para mais “Gentleman Jack”?

Eu acho que acaba com um final lindo, porque como sabemos elas [Anne Lister e Ann Walker] se casaram em 1834. Nós filmamos o casamento no lugar real, e isso foi mágico. Também
poderíamos dizer que é um início natural para a parte seguinte da história, porque as duas terão que lidar com o relacionamento delas dentro da sociedade, como um casal. A Ann Walker
foi morar em Shibden na vida real. Eu acho que, se isso acontecesse de novo, a dinâmica de ter duas esposas em uma casa de pessoas que não conseguem reconhecer que existem duas
esposas seria brilhante. Ou seja, na vida real em um momento elas abriram um cassino, o que é estranho. Além disso, fizeram algumas viagens incríveis. Esta série chega ao fim com muita
naturalidade, mas se fizéssemos de novo seria divertido vê-las juntas, levando uma vida de casal.