Paula Pereira usa a arte a serviço do bem

A atriz se divide entre a Durga de Caminho das Índias e as aulas de teatro que dá para doentes mentais

Paula Pereira está no ar na novela 
“Caminho das Índias”
Foto: César França

Em “Caminho das Índias”, Paula Pereira vive a indiana Durga, empregada dos Ananda e cúmplice das armações de Surya (Cleo Pires). Na vida real, a atriz se divide entre a TV e o trabalho como arte-educadora no Centro de Convivência Villa Ipanema – Hospital-Dia, no Jardim Botânico, Rio, onde dá aulas de teatro para pacientes esquizofrênicos e com outros transtornos.

Ao saber disso, a repórter não se contém e brinca que ela está no núcleo errado da novela. Paula dá uma gargalhada e exclama: “Sabia que você ia dizer isso! Mas quando eu teria a oportunidade de fazer uma indiana? Nunca!” Paula, então, resolveu esconder de Gloria Perez, autora de Caminho das Índias, seus oito anos de experiência com pacientes com problemas mentais. E foi à luta pelo papel de Durga.

“Houve um jantar em que me vesti de indiana. Fiz propaganda de mim mesma, porque é assim, as atrizes ligam, pedem mesmo. Ninguém fala isso, mas é assim”, admite ela, que é casada com Marcos Schechtman, diretor-geral da trama global. O que, Paula garante, não a ajuda muito. “Já ouviu falar em ‘santo de casa não faz milagre’? É verdade, ninguém acredita, porque a maioria não faz isso. Mas na minha casa é assim: primeiro vem a ética, depois o marido (risos)”.

“Durga não é naja, ela apenas se excede algumas vezes. Não é uma pessoa ardilosa, ela quer ser boa, mas quando vê… está ali naquele caldeirão. Ela é pressionada pela Surya e há a outra que a manda cortar legumes o tempo todo. É complicado (risos)”, afirma.

Mesmo longe da trama que trata de esquizofrenia, Paula não deixou de comemorar o fato de o tema ser abordado. “Fiquei muito feliz! No início, aqui (no Villa Ipanema) foi complicado porque os pacientes ficaram apavorados. Eles são marginalizados e a novela mostra Tarso (Bruno Gagliasso) sofrendo preconceito. Está mexendo na feridinha deles”, diz, referindo-se aos alunos-pacientes.

“Eles nem tocam no assunto. Só falam da parte indiana. E ainda levo bronca de uma paciente, que não aprova as atitudes de Durga. Hoje, ela até me aliviou. Normalmente, é dura, arrasa comigo de verdade (risos)”, diverte-se.

As críticas a Durga são o de menos. Jogo de cintura, mesmo, ela precisa para organizar cerca de 30 pacientes para as aulas semanais de teatro. Não tem como programar o conteúdo que será ministrado; o dia depende do estado dos alunos – efeito dos remédios, humor, estágio da doença etc. “Às vezes, eles estão tão para baixo, só querem brincar de passa-anel, de telefone-sem-fio. Aí, invento um trava-língua, do tipo ‘lá em cima daquele morro tem uma arara loura’.”

Os malabarismos são muitos para que Paula realize sua atividade. “Levei dois anos para montar uma peça com eles, porque decorar texto é complicado. Tive, então, a ideia de pegar a história dos Três Porquinhos, que todo mundo conhece, e adaptar para adulto. Fiz fichas para cada um, com suas falas, e mandei ler”, revela.

A falta de uma rotina não impede que Paula obtenha resultados com os pacientes. “Os mais tímidos ficam soltos; os que enrolam a língua passam a enrolar menos e a autoestima melhora. O paciente também passa a tarde conhecendo pessoas, vivendo… É mais saudável do que o doente ficar largado em casa”, afirma. “Gostei de usar o teatro para fazer o bem. Eu me sinto útil, feliz. Parece absurdo, mas confio mais neles do que nas pessoas de fora daqui”, conclui.