Saiba por que a briga de ‘A Força do Querer’ não é boa para você

Novela “A Força do Querer” apelou para recurso que serve para duas coisas: alavancar audiência e perpetuar o mito de que mulher é inimiga de mulher

Nada foi novidade na surra que Irene (Débora Falabella) levou de Ritinha (Isis Valverde) e Joyce (Maria Fernanda Cândido) em “A Força do Querer” no capítulo desta segunda-feira (24). A disputa pelo amor de um homem já foi desculpa para mulheres se estapearem em muitas novelas, como “Por Amor” (1998) e “O Clone” (2001). O lugar da briga, um banheiro, também é velho conhecido do público nesse tipo de situação: desde “Água Viva” (1980) ele é escolhido para grandes acertos de contas entre mocinhas e vilãs nas tramas.

Mesmo assim, este foi o momento mais aguardado, comentado e repercutido até aqui da história de Glória Perez. O que não é pouca coisa, já que “A Força do Querer” é a novela de maior audiência da TV brasileira nos últimos quatro anos, considerada até uma “retomada” do formato, que andava meio em baixa. Durante a exibição da novela, “Irene” foi o assunto mais falado no Twitter no mundo todo, liderando os trending topics.

Mas peralá! Briga entre mulheres em pleno ano de 2017, quando debatemos cada vez mais feminismo e sororidade? E por causa de um homem (neste caso, Eugênio, vivido por Dan Stulbach, marido de Joyce)? Sério mesmo? Por que isso ainda atrai a atenção dos telespectadores?

A eterna luta entre o bem e o mal nas novelas

“Porque é um recurso [da dramaturgia] que traz em si o velho embate entre o bem e o mal, provocando um efeito catártico no público à medida que o bem triunfa”, esclarece Lucas Martins Néia, pesquisador do Centro de Estudos de Telenovela da USP que investiga, em seu mestrado, a história cultural da ficção televisiva brasileira.

Ele observa que historicamente é comum, quando o motivo da briga é um homem, incorrer-se a uma lógica machista: “Uma personagem descobre que foi traída por seu par e pela vilã e se precipita a tomar satisfações – só com ela, não com ele”. Tanto é assim que Eugênio sai bonitão da briga de “A Força do Querer”, só com uma ameaça de pedido de divórcio em vista.

Joyce (à esq.) e Ritinha dão uma surra em Irene (deitada no chão) (Globo/Estevam Avellar/Divulgação)

Claudino Mayer, doutor em ciências da comunicação e especialista em teledramaturgia pela USP, considera que o fator família também pesa muito nessa fórmula. “No melodrama, que é a raiz das nossas telenovelas, criam-se situações para motivar a torcida pela família. Se entra uma amante que pode estragar isso, ela é rejeitada e deve ser descartada de forma exemplar”, diz.

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Há aí um certo sadismo por parte do público, segundo Claudino. “Só um tapa não resolve. Tudo que é escrito até chegar à briga é um crescente de emoções para o espectador lavar a alma em uma surra mesmo”.

Mulher é inimiga de mulher? Mito!

Para a psicóloga e sexóloga Marcia Sando, especialista na saúde psíquica feminina, a insistência em mostrar mulheres brigando em novelas, qualquer que seja a razão, é apenas e tão somente um grande desserviço.

“Nós, mulheres, não precisamos brigar por causa de homem e nem por nenhum outro motivo”, defende. “Isso só reforça o mito de que mulher é inimiga de mulher, uma ideia criada e vendida pelo patriarcado para nos desunir, porque sabe que unidas temos muito poder.”

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Além de machista, por não cobrar a responsabilidade de Eugênio, a ~resolução~ para o conflito amoroso em “A Força do Querer” é um baita recibo de falta de maturidade emocional por parte das personagens femininas, na análise de Marcia.

“Existem duas relações que podem exigir uma prestação de contas: a do marido e a da amante, que no fim era ‘amiga’ dela. O ideal seria que a mulher [Joyce] primeiro se resolvesse com o marido, que é parte principal dessa história. E depois, no momento certo e se achasse que vale a pena, falar com a amante dele”, sugere. “Mas a gente sabe que não vai acontecer, porque há outros interesses em jogo em uma novela”, diz a psicóloga, lembrando que audiência e repercussão em redes sociais são indispensáveis para a TV.

TV educa e deseduca; que tal usar isso para o bem?

A psicóloga reconhece que a TV tem, sim, muito poder de educar e deseducar. “O público se espelha no que vê. Em uma cena de briga como a de hoje, muitas mulheres se viram na pele de Joyce, por terem sido traídas, e ficaram felizes. Muitas, por terem sido amantes, podem ter sentido pena de Irene. E há, ainda, aquelas que se sentiram na pele de Joyce e, por causa da cena, podem se sentir incentivadas a agir da mesma forma que ela e partir para a briga com uma amante de seu marido ou namorado. Violência gera violência”, afirma.

Há um caminho positivo para evitar isso: mostrar mulheres racionais nas novelas. Mulheres que resolvam seus problemas após analisar o que acontece ao seu redor. “Seria muito interessante assistir a mulheres que revissem suas relações com maturidade emocional. Que entendessem que, se o marido quisesse ficar com a outra, seria possível lidar com isso de forma madura”, pondera Marcia.

As grandes brigas de mulheres na história da TV brasileira

Quebrar esse modelo não será um trabalho fácil: as brigas entre mulheres são pontos altos das telenovelas brasileiras desde 1978, em “Dancin’ Days”, e vêm de muito antes: de acordo com Claudino, elas já eram um recurso empregado nas radionovelas dos anos 1940.

O motivo dos arranca-rabos nem sempre é homem, mas na maioria das vezes tem a ver com a família. A própria briga de “Dancin’ Days”, entre Júlia (Sônia Braga) e Yolanda (Joana Fomm), não teve nada a ver com conflito amoroso: no centro dela estava Marisa (Glória Pires), a filha de Júlia criada por Yolanda porque a mãe estava na prisão. “No último capítulo há uma espécie de acerto de contas definitivo entre elas”, lembra Lucas. Só que, como o autor Gilberto Braga era super cabeça aberta, o desfecho não foi de raiva entre mulheres: elas perceberam que aquilo era uma bobagem e se abraçaram emocionadas.

Dois anos depois, em “Água Viva”, teve início o que Lucas chama de “a tradição das grandes brigas no banheiro”. Em um show de Maria Bethânia no Canecão, Lígia (Betty Faria) segue Selma (Tamara Taxman) para tirar satisfações sobre o caso que a “amiga” teve com seu marido, Heitor (Carlos Eduardo Dolabella). Além disso, Lígia estava possessa por Selma tê-la difamado entre os colunáveis da sociedade carioca.

Em termos de audiência e repercussão, outra briga de banheiro merece destaque, na opinião de Lucas como pesquisador: é a de “Celebridade”, de 2003. Ali, o motivo não teve nadinha a ver com homem, já que o ódio de Maria Clara (Malu Mader) era por Laura (Cláudia Abreu) ter arquitetado a derrocada de sua carreira. “Ela marca a volta por cima da protagonista e até hoje reaparece parodiada na internet, dublada e dimensionando outro contexto”, afirma.

Já a briga de mulheres mais emblemática em novelas é entre mãe e filha, quando Raquel (Regina Duarte) rasga o vestido de noiva de Maria de Fátima (Glória Pires) e rompe com ela em “Vale Tudo” (1988). “A trajetória de todos os personagens apresenta, a partir dali, mudanças necessárias para o desenrolar do segundo ato da história. A cena marca um ponto de virada crucial na trajetória da protagonista e na de toda a trama”, diz Lucas.

Mas a ~luta pelo amor do mocinho~ ainda dá o tom de grande parte dessas brigas de novelas. Lucas destacou algumas, a começar por “Por Amor” (1998), em que Maria Eduarda (Gabriela Duarte) jogou Laura (Vivianne Pasmanter) de cadeira de rodas e tudo na piscina por causa de Marcelo (Fábio Assunção).

Teve também a vez em que Alicinha (Cristiana Oliveira) levou uma surra de Yvete (Vera Fischer) em “O Clone” (2001) após dar em cima de Leônidas (Reginaldo Faria):

Em “Caminho das Índias” (2009), Melissa (Christiane Torloni) encurralou Yvone (Letícia Sabatella) em – adivinhe? – um banheiro e deu-lhe uma surra por ela ter se envolvido com seu marido, Ramiro (Humberto Martins).

Lindas atuações, cenas fotografadas maravilhosamente bem. Mas passou da hora de as novelas mostrarem união e força entre as mulheres. Ou de, pelo menos, cobrarem também a responsabilidade dos homens quando eles são motivo de desavenças – sem violência física, de preferência.

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