Aplicativo oferece método anticoncepcional sem hormônios

Proposta do app NaturalCycles é ser um método contraceptivo tecnológico, prático e livre de hormônios. Mas será que é seguro mesmo?

A pílula anticoncepcional surgiu nos anos 1960 e foi um divisor de águas na luta pelos direitos das mulheres. Cinco décadas depois, hoje estima-se que cerca de 100 milhões de mulheres utilizem esse tipo de medicação ao redor do mundo. Apesar da gigantesca popularidade, há cada vez mais mulheres contestando o uso indiscriminado dos comprimidos e procurando outros métodos.

A mais recente novidade nesse mercado é um produto se propõe a mapear o ciclo menstrual para, usando um aplicativo para celular, alertar sobre os dias em que a mulher está sujeita ou não a engravidar. Não é novidade, e talvez você já tenha ouvido falar nisso: a técnica tem o nome de “percepção da fertilidade” e pode ser feita manualmente, usando uma tabela e informações sobre a temperatura do corpo.

Por mais que a “percepção da fertilidade” não seja algo novo, o método vem gerando burburinho por causa do serviço NaturalCycles, que chegou recentemente ao Brasil. O produto nada mais é do que a versão digital da tabela de percepção e gera, automaticamente, o mapeamento da ovulação de cada mulher.

Segundo o fabricante, o passo a passo é simples: você acorda, mede sua temperatura, informa os dados no app e verifica a fertilidade do dia correspondente.

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Conversamos com quatro ginecologistas para entender melhor o método e todos apontam o seguinte: sim, a temperatura do nosso corpo varia de acordo com o ovulação, o que não significa que seja uma boa ideia confiar 100% nesse fenômeno quando o objetivo é evitar uma gravidez. “A temperatura do corpo da mulher se eleva após a ovulação como resultado de aumento da secreção de um hormônio chamado progesterona. Cronometrar corretamente a ovulação pode determinar quando ocorre a janela fértil, que costuma durar seis dias. A ovulação pode ser prevista utilizando uma combinação da duração do ciclo e de manifestações físicas da ovulação (mudança nas secreções cervicais, temperatura corporal basal).”, explica o Dr. Marcos Wengrover Rosa, do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre.

Ou seja: sim, o nosso corpo manda sinais a respeito do período fértil, o problema está na precisão desses sinais. “O método [da percepção de fertilidade] faz uso da temperatura corporal basal (TCB), que é a temperatura do corpo medida imediatamente após a pessoa acordar, antes que qualquer atividade física no dia seja feita. Antes mesmo de levantar. Para saber com absoluta precisão sobre a temperatura basal, a mulher teria que dormir e acordar sempre nos mesmos horários, ter sempre as mesmas horas de sono e não ter nenhum outro fator que possa influenciar na sua temperatura corporal, como estar fazendo uso de certos medicamentos”, explica o Dr. Marcos Arcader, do Hospital Adventista Silvestre, do Rio de Janeiro.

Outros fatores também podem influenciar no resultado: “Se a pessoa não dormiu bem, se está com alguma infecção ou febre ou se ingeriu bebidas alcoólicas na noite anterior, por exemplo, podem haver interferências na interpretação”, alerta o Dr. Paulo Homem de Melo Bianchi, do Hospital Samaritano, de São Paulo. Também segundo o Dr. Bianchi, apenas os dados de temperatura são insuficientes para que o monitoramento seja seguro. “Acredito que para aumentar a eficácia seria necessário combinar outras informações, como a do teste de LH urinário, o hormônio que desencadeia a ovulação.”

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Além de vender-se como contraceptivo natural, o NaturalCycles também se propõe a ajudar a mulher a conhecer melhor o seu ciclo menstrual. E isso realmente deveria ser mais incentivado, segundo a Dra. Alessandra Bedin, do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo. “A menstruação é uma das primeiras coisas que se alteram quando há algo errado com nosso corpo. Isso varia desde um estresse momentâneo, até um problema hormonal, ainda que não relacionado diretamente aos ovários. Costumo dizer que a menstruação é uma boa “vitrine” de como vão nossos hormônios. Assim, prestar atenção aos sinais da ovulação, e ao ciclo menstrual, é uma maneira de avaliar como está nossa saúde geral.”

Os chamados métodos de bloqueio, que tem a camisinha como carro chefe, ainda são a melhor alternativa para quem quer evitar a gravidez e também evitar os hormônios sintéticos. Mesmo assim, conhecer o próprio corpo e estudar alternativas são atitudes válidas! Mesmo que você use o mesmo medicamento há anos, não há nada de errado em rediscutir métodos contraceptivos com o seu ginecologista. A saúde agradece!

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