Eu tenho esquizofrenia

Sofri demais com os sintomas até receber o diagnóstico Hoje levo uma vida normal e me dou bem com todo mundo

Tomo os meus remédios e vejo meu 
médico toda semana. Vivo aliviada, 
pois sei que tenho uma doença e 
posso controlá-la
Foto: Marcelo Kura

Numa certa noite, eu não conseguia dormir por nada! Eu tinha 20 e poucos anos e morava em Lisboa, Portugal. Havia sofrido um aborto e perdido o emprego. Olhei pela janela e vi num beco uma mulher carregando uma criança. Achei estranho, mas fui me deitar.

Da cama, eu ouvia a criança chorar e a voz macia da mulher repetir: ”A mamãe tá aqui…”. Me arrepiei! No dia seguinte, não reconheci as pessoas da pensão onde eu morava. Saí correndo, achando que queriam me matar! Desesperada, desci do terceiro andar pelo lado de fora do prédio, me apoiando somente nas janelas! Eu ainda não sabia, mas essas eram manifestações da esquizofrenia, uma doença que chega sem avisar.

Pensei que isso tudo era fruto de um feitiço

Antes de ir a Portugal, eu trabalhava num banco, no Brasil. Como fui despedida, resolvi me aventurar. Aos 22 anos, viajei para Lisboa. Logo consegui um emprego como acompanhante de uma senhora de 86 anos. E comecei a namorar um português. Eu estava apaixonada! Isso até engravidar e descobrir que ele era casado… A mulher do cara prometeu fazer um feitiço pra acabar comigo! Então, quando comecei a ter aquelas visões horríveis, achei mesmo que eram fruto de um ”trabalho” da tal mulher.

Passados uns meses, eu estava numa estação de metrô, em Lisboa, quando me senti desorientada. Vi as pessoas como se fossem zumbis, todas mortas! Parecia que meus pés pisavam em nuvens… ”Eu devo estar no céu! Acho que morri!”, pensei.

No hospital, achei que tinha visto Jesus

Um policial me levou para um hospital. Lá, vi um homem e achei que era Jesus: ”Que bom! Ele vai me salvar!”, imaginei. Claro que não era Jesus! Aí, me deram remédios e fiquei internada. O médico que me atendeu pediu para eu procurar um psiquiatra, mas não dei importância e voltei ao Brasil.

Depois de dois anos, arrumei emprego numa empresa. Até aí, não tomava remédios e ninguém entendia o que se passava comigo. Às vezes, eu entrava num lugar e achava que olhavam pra mim de um jeito diferente… Meus parentes diziam que iriam me levar a uma igreja e que eu ficaria boa.

Em casa, eu pensava que a televisão estava me filmando e ouvia vozes: ”Conceição, desenterra o dinheiro da botija e me dá ele todo! Às 9h, eu venho buscar!”. Me dava um medo danado! Em alguns momentos achei que via espíritos, que os vultos eram reais.

Minha vida só mudou quando o médico me encaminhou ao Centro de Atenção Integrada à Saúde Mental da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (CAISM). Hospital psiquiátrico tem fama de ser lugar ruim, mas esse era bom! Fiquei três meses internada lá.

Quando saí, fui morar com uma amiga que tem uma pensão. Não parei de tomar os remédios, vejo meu médico toda semana e me dou bem com as pessoas e com minha família. Chega de ouvir desaforos e ser tratada como louca! Vivo aliviada por saber que tenho uma doença e posso controlá-la.

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